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01 de dezembro de 2009 | N° 16172AlertaVoltar para a edição de hoje

Porto Alegre sambou

Monarco colocou gaúchos para dançar

Acredite: no domingo, entre 17h e 18h30min, algumas centenas de pessoas em Porto Alegre não estavam preocupadas com a rodada decisiva do Brasileirão. O autor da proeza foi Monarco, luminar da Velha Guarda da Portela, que se apresentou em um palco armado junto ao Boteco do Paulista, na Riachuelo, em frente à Usina.

Em seus 76 anos, Monarco assistiu ao crescimento das escolas de samba no Rio, foi colega de mesa de bar de Cartola, teve suas criações cantadas por Beth Carvalho, Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Roberto Ribeiro. Mas o que ele fez no domingo vai ser lembrado com carinho pelo sambista: ao abrigo de uma tenda ou aproveitando a sombra das árvores, gaúchos sambavam revezando copos de cerveja com cuias de chimarrão, alguns ainda carregando material trazido das visitas à Bienal do Mercosul, outros acomodados em cadeiras de praia, alguns recém-chegados do jogging na Usina. Os mais precavidos, acostumados com as rodas de samba que ocorrem no lugar todos os domingos, entre 17h e 21h, armaram sua churrasqueira para assar uma costela tenra ou vieram municiados de petiscos para fazer o indispensável lastro.

No palco, o cardápio era à base de tradição. Desde março, o Instituto Brasilidades (institutobrasilidades.blogspot.com) mantém a roda de samba do Boteco do Paulista sem esconder o compromisso com o chamado samba de raiz. Ou seja, repertório de sambas majoritariamente compostos da década de 1970 para trás, temperados com Noel Rosa, Geraldo Pereira, Mário Lago... Um dos líderes do instituto, o gestor empresarial e tocador de cuíca Eduardo Lopes, 28 anos, explica que o Brasilidades quer tirar o samba do gueto:

– Há muitas rodas em Porto Alegre. Mas elas são só para quem sabe onde é, para quem toca esse ou aquele tipo de samba. A nossa é aberta.

Como faz Ana Luiza Marinho, 55 anos, funcionária de call center. Tocadora de chocalho na Banda Itinerante (outra roda de samba, que funciona às sextas e aos sábados, ao lado da quadra da Imperadores do Samba), a mulata de olhos claros sabia reconhecer a cadência bem marcada:

– Aqui não tem essa de misturar pagode com samba de raiz. É só raiz.

Ao lado dela, o contador Ademir Conceição, mulato de 61 anos, dizia que é hora de as coisas mudarem:

– No Sul, há a ideia de que samba é coisa de negro. Tenho amigos brancos que perguntam se podem ir às rodas. Há gente de todo tipo aqui. Não sou fã do grupo, mas o Raça Negra (grupo de pagode) tem o mérito de trazer a classe média para o samba.

Enquanto o churrasco de Ana Luiza assava, Monarco, com a ajuda do parceiro Guaracy da Portela no violão de sete cordas e o acompanhamento da roda do Brasilidades, esquentava o público a uma temperatura já acima dos 30ºC. Assediado para tirar fotos, teve dificuldade para chegar ao palco. Depois que conseguiu, entretanto, foi covardia. Ou melhor, foi aula de samba. Com a autoridade de quem foi protagonista da história do samba carioca, todo de branco, com seu tradicional chapéu, ele misturou composições de sua autoria, de Noel Rosa, de Ary Barroso, de Paulinho da Viola, de Paulo da Portela, de Geraldo Pereira, de tantos outros que saíram por aí, com um violão debaixo do braço. A velha guarda do samba sendo cantada e dançada pela plateia dominada por uma jovem guarda de gaúchos.

Ao sair de cena, Monarco experimentou tratamento de superstar: pessoas lutando para se fotografarem ao lado do sambista, gritos de “Obrigado por você existir”, dificuldade para entrar no automóvel rumo ao hotel. Zero Hora só conseguiu entrevistar o sambista dentro do carro. Com o sorriso satisfeito de quem puxou um grande coro cantando “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”, Monarco preferiu evitar confronto com o pagode:

– Não tenho nada contra ninguém. Mas o samba de raiz não tem prazo de validade, como outros tipos de samba têm. As pessoas precisam saber diferençar o que é samba de laboratório e o que é samba autêntico.

Quem passou pelo Boteco do Paulista no domingo nunca vai se confundir.


ZEROHORA.com

Confira vídeos da apresentação de Monarco

renato.mendonca@zerohora.com.br

RENATO MENDONÇA
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