Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
ZH – O senhor está escrevendo um romance destinado a adolescentes. Como surgiu esse projeto? Seu estilo de escrita e seu processo de trabalho precisaram passar por algum tipo de mudança?
João Gilberto Noll – Recebi um convite de um editor para escrever para o público juvenil dois contos e uma narrativa longa (que deve sair em 2010). Pensei primeiro que eu teria de refazer a minha linguagem, mas isso não ocorreu. O texto foi saindo no mesmo impulso dos meus outros livros. E, de fato, não vejo como o leitor juvenil não possa assimilar esse estilo. Como sou um autor com uma tendência à expressão das virtudes da obscenidade, imaginei que teria de reter o meu fluxo lítero-libidinal. Então encontro uma amiga, mãe de dois adolescentes, e ela fica indignada com os meus pruridos. Simplesmente, dizia ela, porque eles pensam em sexo 24 horas por dia. Assim, eu não deveria lhes sonegar o campo do instinto. Pronto, aí escrevi um livro procurando contemplar os impulsos carnais inaugurais, sem tensas
vigilâncias. É
uma narrativa que procura mostrar a passagem do adolescente para o adulto. Essa passagem foi profundamente dramática em mim, para dizer o mínimo. Na época fiz uma terapia de fundo analítico, e nasceu daí todo o meu jeito de lidar com uma ficção do inconsciente. Em mim é a própria palavra que abre o caminho da narrativa, e não ideias pré-estabelecidas. Parto de um vazio que só a palavra pode reelaborar. Uma aventura, mas sistematizada. Tenho meu próprio método para acessar o ignorado. É trabalho árduo, o que chamo de literatura pulsional.
ZH – O senhor sempre foi atento aos novos talentos. O que tem lido de novidade, quem o tem impressionado ou, ao menos, estimulado?
Noll – Hoje leio muitos autores iniciantes porque dá gosto perceber uma riqueza digna de nota de alguns textos imberbes, digamos assim. Diria que vivemos um renascimento da literatura brasileira. Mesmo que não sejam inventores, como queria Ezra Pound. Neles se percebe a presença forte de Rubem Fonseca, para
falar em uma delas.
Esses jovens ficcionistas manejam as palavras, o ritmo da história, a estrutura, com traquejo e às vezes brilhantismo. E apresentam atmosferas humanas pra todo o gosto. Nesse boom citaria Daniel Galera, Marcelino Freire, Ana Paula Maia, Daniel Pellizzari, Ronaldo Bressane. Quando lancei meu primeiro livro, em 1980, não havia definitivamente essa proliferação de vigorantes estreias literárias. Mas, quando encontro com eles, conversamos muito mais sobre os descaminhos, por vezes renovadores, da escrita, do que sobre suas injunções normativas – assunto também, claro, imprescindível.
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