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09 de novembro de 2009 | N° 16150AlertaVoltar para a edição de hoje

Protestem, sim, por Lícia Peres*

Um dos maiores absurdos que li ultimamente foi o artigo “Chega”, assinado por Carlos Saul Duque (Zero Hora, 6 de novembro).

Inconformado com a crítica feita por Patrícia Azevedo da Silveira sobre um marcador de página criado especialmente para a Feira do Livro, o autor diz textualmente: “Por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega”. E passa a comparar a propaganda, em geral, à personagem Geni, permanentemente execrada, da música do Chico Buarque.

Vários erros comete o senhor Duque. O primeiro é partir da premissa de que os publicitários são as grandes vítimas da nossa sociedade. Não é verdade. Há propagandas belas, emocionantes, poéticas mesmo, capazes de encantar a todos. Outras, apelativas, grosseiras e desrespeitosas, que têm merecido protestos veementes para sua retirada. O argumento de que os profissionais da área trabalham incansavelmente não é pertinente, nem justifica tudo. Apenas o esforço não garante bons frutos. Podem varar dia e noite, mas, se o resultado não é bom, são passíveis de crítica.

O movimento de mulheres inúmeras vezes conseguiu suspender aquelas propagandas que, preconceituosas e causadoras de dano, contribuíam para a manutenção de estereótipos. Quando integrava o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em Brasília, reunimo-nos com o coordenador do Conar para ponderarmos sobre muitos abusos que vinham ocorrendo nessa área. Foi um encontro respeitoso e democrático.

Poucos ignoram que a comunicação exerce um papel importantíssimo para a formação da opinião pública. Assim, representa um potencial extraordinário de dinamização de comportamentos. A herança cultural que recebemos nos obriga a estarmos atentas a tudo aquilo que deseduca.

Infelizmente, só pude ir à Feira do Livro uma vez, e nem recebi o mencionado marcador.

Mas o que me indignou, de fato, foi a frase reproduzida no início do meu artigo, na qual o vice-presidente de Criação da Dez Propaganda, autoritariamente, decreta a interdição do direito de manifestação contrária à publicidade. Onde ele pensa que está? Que poder ele pensa ter para calar vozes dos que pensam diferente? Delirou?

A comunicação é, sobretudo, um instrumento valioso, um espaço disponível para a apresentação e sustentação de ideias, o campo argumentativo que contribui para o esclarecimento e a formação de pessoas conscientes. Mais educadas, portanto.

Linchamento mesmo foi o sofrido pela estudante da Uniban obrigada a suportar todo tipo de agressões, por usar um minivestido rosa. A ela é que a turba, tentando convertê-la na Geni, desferiu violento e covarde ataque.

O exercício da liberdade responsável se afirma quando, seja no que for, podemos, de maneira civilizada, manifestar nossa opinião, seja de concordância, seja de protesto.

*Socióloga
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