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05 de novembro de 2009 | N° 16146AlertaVoltar para a edição de hoje

Meu encontro com Lévi-Strauss, por Ondina Fachel Leal*

Foi no final dos anos 60, nas aulas de Filosofia do Curso Clássico de uma escola pública de Segundo Grau em Porto Alegre, que primeiro conheci Lévi-Strauss. O professor passara o semestre tentado explicar o que era estruturalismo. Possivelmente tenha entendido muito pouco daquelas aulas – o mundo, o Brasil tinham outras urgências.

Mais de uma década depois. E, creio, muitos volumes de Lévi-Strauss depois, a paixão dele pela etnologia já tinha me contagiado, me ajudado a conduzir minha escolha pela Antropologia. O que tinha ficado era aquela sensação de busca que temos em todos os seus textos. Busca por mais uma variável, mais um detalhe, porque é a diferença que vai constituir o invariável, o substrato universal do saber e da espécie humana.

Outubro de 1984. Estava iniciando o segundo ano de doutorado em Antropologia na Universidade da Califórnia, Berkeley. O Departamento vai receber um visitante ilustre que, dizem, não gosta de dar palestras, não gosta de falar inglês e não gosta de grandes públicos: Claude Lévi-Strauss. Lévi-Strauss, fisicamente já frágil em seus então 75 anos, potente e cheio de autoridade quando falava. Lévi-Strauss proferiu duas conferências inéditas “The birth of historical societies”, em um dia, e, no dia seguinte, “Mythical thought and social life”. Sentei na primeira fila nas duas conferências, mas devo ter entendido pouco. Minha emoção era grande, nosso amigo Claude lia o texto em inglês como se estivesse falando francês e, para dizer a verdade, era um desses momentos, históricos – pelo menos em minha história –, em que o evento da fala era muito mais importante do que as palavras ditas.

Nesta visita de Lévi-Strauss à University of California, Berkeley, foi oferecido um coquetel-jantar a Lévi-Strauss e um pequeno grupo de pessoas. Convites e senhas foram distribuídos com parcimônia. Lévi-Strauss tinha manifestado interesse em conversar com os estudantes de Antropologia que estudavam Brasil. Não éramos muitos, talvez 10. Três entre estes eram brasileiros e merecemos toda a sua atenção. Embora em um evento nos Estados Unidos, ele falava em francês com muita naturalidade e, por vezes, em português, conduzindo a escolha da língua nas conversas. Perguntou-me, como quem pergunta de um amigo comum, como estavam os bororos. Fiquei atrapalhada, não tinha a menor ideia de como estavam os bororos. Respondi que era do sul do Brasil e não estudava populações indígenas. À guisa de explicação, falei de meu tema de tese, os gaúchos. Ele claramente mostrou-se inquieto e sentenciou: “Je suis vraiment désolé!”. E falou em um tom que era um misto de paixão e censura sobre o imperativo moral que alguém brasileiro fazendo formação em Antropologia em Berkeley (em um departamento criado por Kroeber, “a vrai ethnologiste”), como eu, ousava estudar outra coisa que não fosse as populações indígenas em meu país. Angustiado disse: “Você sabe, elas vão acabar, elas vão se extinguir, temos que etnografar tudo o que pudermos etnografar. Não é possível um antropólogo ficar indiferente à destruição de sociedades humanas, temos que fazê-las sobreviverem em nossos escritos”. Ele dizia não entender por que o Brasil tem uma antropologia rica teoricamente e tem tão poucos etnólogos. Foram cerca de 10 minutos que não arriscaria chamar de diálogo, pois foi mais uma preleção. Pensei em discutir se esta expectativa não tinha a ver com algum colonialismo do Norte e do Sul nas ciências sociais, mas eu não desperdiçaria aquele momento me ouvindo.

O que ficou martelando e ainda me assombra vez que outra, como hoje, com a notícia da morte deste grande pensador, foi a ênfase que colocou no seu “je suis vraiment désolé!” de nossa conversa. Foi o sentido textual em português de desolação que guardei comigo. Por quê? Porque, como disse o mestre, “as coisas são boas para serem pensadas”.

*Professora titular do Departamento de Antropologia da UFRGS O que ficou martelando foi a ênfase que colocou no seu “je suis vraiment désolé!”

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