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03 de novembro de 2009 | N° 16144AlertaVoltar para a edição de hoje

De pernas para o ar, por Patricia Azevedo da Silveira*

Criada no início do século 20 e concebida para segurar as meias 7/8, a cinta-liga feminina revelou-se ao mundo nos bordéis europeus para saciar estritamente o imaginário erótico masculino. Representava, enquanto signo, o fetiche e a pornografia. Enquanto isso, a maior parte das mulheres ocidentais vestia ceroulas abaixo dos joelhos, as índias andavam nuas e as personagens da literatura eram como a Emma, de Madame Bovary, entediadas pelos casamentos sem amor.

Progressivamente, a revolução tecnológica e o movimento feminista pela igualdade entre os gêneros contribuíram com a libertação da mulher da culpa, por conta da expulsão do paraíso, e ela pode revelar todas as suas qualidades.

Mas por que essas referências históricas?

Neste ano, a Feira do Livro, principal evento cultural do Rio Grande do Sul, adotou, como um dos logotipos presentes nos marcadores de livros, totens, camisetas e campanhas institucionais, a imagem de um par feminino de pernas, voltadas para o ar, que vestem cinta-liga e meias 7/8, onde se lê: “Tem sempre uma emoção esperando por você”.

Não será grotesco que, para a multiplicação de leitores, se caia na vulgaridade de tomar a mulher como mero objeto da sexualidade masculina? É certo que a vulgaridade atingiu a política, a televisão e tenta arrombar as portas da literatura. Muito menos o patrono da 55ª Feira, um poeta lírico e criativo, dedicado à excelente criação da literatura infanto-juvenil, merecia essa demonstração de vulgaridade explícita. Sequer o termo “você” é típico da linguagem oral ou escrita neste Estado.

Não precisamos desses apelos para garantir o seu êxito. Ler é compreender a alma humana em sua totalidade. Não proponho, como compensação, que, em evento futuro, faça-se o inverso, pondo-se a mulher a mergulhar com pés de pato, logotipo escolhido para representar o homem. A riqueza de tudo aquilo que o livro, o ser humano e a Feira representam deve ser protegida contra esses rasgos de vulgaridade e de machismo.

Não importa a profissão da mulher, se operária, juíza ou escritora. Ela pode ser fêmea e pensadora. Com esse gesto, Susan Sontag, Rosa Luxemburgo, Madame Blavatsky e tantas outras não foram convidadas para esta Feira, nem nós.

*Doutora em Direito, advogada e professora universitária
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