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01 de novembro de 2009 | N° 16142AlertaVoltar para a edição de hoje

A primavera perigosa e dolorida das abelhas

A época é de floradas, e as abelhas estão em trânsito, à procura de novos ninhos. Veja como isso se dá e os problemas que seus pousos de emergência em áreas urbanas provocam

Não se engane com a mistura agradável do amarelo com o preto, a pintura chamativa que caracteriza uma simpática abelhinha. Nem com as boas histórias que logo surgem na lembrança do pequeno inseto, um dos preferidos de crianças e adultos. Há, no mínimo, centenas de contos infantis que contam as façanhas, a meiguice e a extraordinária força de trabalho desses bichinhos. Eles também podem ser perigosos, principalmente nesta época da primavera e suas grandes floradas, quando os enxames estão em movimento e podem atacar quem lhes atravessar o caminho.

Não é o caso da pequena Zuzu, personagem de um desses contos, que não fez mais na sua curta existência de 42 dias do que espalhar compreensão. Aconteceu que Zuzu nasceu toda branquinha, diferente das outras, o que logo chamou a atenção de Margarida, que a cuidava no pátio. A pequena Margarida chegou a criar um alfabeto próprio para se comunicar com a amiga. O ciclo de vida diverso fez com que Zuzu se tornasse adulta muito antes. Um dia, ao perceber que seu tempo se esgotava, resolveu perguntar à abelha rainha a origem de sua cor. A sábia majestade explicou-lhe, então, que a fizera diferente para cuidar de uma flor solitária no jardim. Era Margarida. Zuzu ponderou que em breve morreria, mas a rainha acalmou sua corajosa abelhinha: “Não se preocupe, antes disso sua amiga será vista e colhida pelos humanos”. Diante disso, Zuzu deixou suas preocupações de lado e voltou a curtir alegremente o tempo que as duas ainda tinham.

É uma historinha simpática que serve para mostrar as boas relações que temos com as abelhas e que não serão afetadas por mais que tenhamos de nos proteger delas às vezes. É o caso daqui até o verão. Para isso é preciso entender como funciona a vida dessas produtoras de mel neste período do ano. Atrás do pólen e do néctar, as famílias aumentam. São milhares de abelhas, demais para um ninho só, as famílias devem se separar. Então, começam os preparativos para a velha rainha deixar sua herdeira reinando e partir em busca de um novo lar. Aí começa o perigo.

Várias batedoras recebem a missão de localizá-lo. Volta à colmeia com a escolha feita e reúne as outras operárias para ensinar-lhes como chegar lá. É interessante conhecer esse processo. Tudo se dá por meio de uma dança, a dança do requebrado. A abelhinha toma como referências a posição do sol e da nova moradia e passa a se movimentar em suaves passinhos que vão formando o ângulo que as retirantes deverão seguir na jornada próxima. O grupo de partida já está selecionado, porque tudo na vida das abelhas é organizado nos mínimos detalhes. Mesmo antes de nascerem seus destinos estão definidos. A velha rainha vai partir com operárias, zangões, a equipe de segurança e as batedoras, um séquito de cinco a 10 mil integrantes. Pode ser uma longa viagem, especialmente quando têm de atravessar as maiores cidades. O enxame está em deslocamento para o local definitivo e por várias razões faz um pouso de emergência. Neste caso, preferem os ramos de árvores, postes e arames de cercas ou outro suporte qualquer, onde podem permanecer por alguns minutos ou horas até retomarem viagem.

Ferroada marca inimigo e aciona mais combatentes

Foi num desses pousos de emergência que a família do vigilante Jamir dos Santos Magdalena foi atacada recentemente no bairro Espírito Santo, zona sul de Porto Alegre, onde novos casos têm sido registrados nos últimos dias. No saldo, os dois filhos pequenos feridos e dois cachorros mortos. A sorte é que Jamir estava em casa e pôde socorrê-los, levando-os para o Hospital de Pronto Socorro. Mas os cães, que estavam amarrados, não tiveram chance. O problema é que tudo acontece rapidamente. Algum movimento ou cheiro e mesmo ruído detonaram o sistema de alerta do grupo. Imediatamente, a segurança foi acionada para detectar o perigo. A primeira ferroada marcou o inimigo com o cheiro, e milhares de combatentes foram mobilizados para seguir no ataque. Não é que os insetos tenham se tornado mais agressivos. Por volta de 1956, como lembra o engenheiro agrônomo e professor de apicultura da UFRGS há 20 anos Aroni Sattler, as africanas e as europeias se misturaram no Brasil e deram origem a um tipo mais defensivo, as africanizadas. Desde então, o comportamento não mudou. As abelhas não ficaram neuróticas. Apenas algumas confusões vez em quando, como neste ano em que as floradas de primavera estão abundantes e por isso as colmeias cresceram rapidamente. Elas não dão ferroadas por maldade, tanto que ao fazerem isso estão se condenando à morte, pois junto ao ferrão rompe-se uma parte do abdômen. A ação é para proteger sua comunidade.

O melhor é sair de fininho na hora do ataque

Aliás, não se deve pensar numa agressividade natural quando se está diante de uma sociedade tão organizada como a da abelhinha Zuzu. A missão delas é produzir mel, trabalham a vida toda e morrem por esse objetivo. Metade de seu tempo passam na própria colmeia em atividades para as quais foram preparadas desde o nascimento. Como se sabe, uma abelha sai do alvéolo já pronta. Nos últimos dois dias de trabalho interno, já tendo aprendido todas as artes e com a experiência da idade, é destinada à segurança. Só depois vai passar os últimos 21 dias no campo, coletando néctar, pólen, água e resinas de plantas.

Tudo completamente organizado e previsto, até os possíveis imprevistos. Está determinado, por exemplo, que a rainha ponha cerca de 10 ovos maiores do que os outros e abastecidos com mais geleia real. São as chamadas realeiras. A primeira a nascer será a futura rainha e para confirmar a condição deve matar as outras. Se alguma sobreviver, a alternativa é lutar pelo posto, também numa dança marcada por ferroadas letais. É pelo reconhecimento a essa organização fantástica e a sua utilidade que se tenta retirar os enxames vivos de onde se tornaram ameaças.

Portanto, atenção: as companheiras de Zuzu são mesmo essa maravilha toda e por isso devem ser respeitadas e entendidas, até na hora de um ataque involuntário se alguém penetrar em seu perímetro de segurança. Se isso acontecer, o melhor é sair de fininho, invisível se for possível. Mas isso é improvável porque a engenharia genética delas também é extraordinária, tanto que têm olhos específicos para as curtas distâncias. Busque um abrigo em silêncio e, se não bastar, o socorro. Boa sorte e paciência. Os números de ocorrências aumentam até o fim do verão, mas depois o problema diminui, e as abelhas continuam a render boas histórias.

mauro.toralles@zerohora.com.br

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Veja casos recentes de ataques de enxames em Porto Alegre

MAURO TORALLES
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