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25 de outubro de 2009 | N° 16135AlertaVoltar para a edição de hoje

A luta pelo coração dos uruguaios

Hugo de León Ídolo gremista e candidato a vice-presidente

Um dos muitos anúncios veiculados nas emissoras de TV do Uruguai durante a campanha eleitoral mostrava um homem simples, de idade avançada, com roupas modestas, mexendo em uma plantação de couve na zona rural do país. O mesmo homem escreveu em seu blog que teria como projeto levar a sede do governo para “um lugar ventilado, com uma parreira sob a qual se possa sentar para tomar mate e com alguns cachorros para avisar da chegada dos ministros”.

O homem de 74 anos é El Pepe, o apelido pelo qual gosta de ser chamado o senador esquerdista José Mujica, líder tupamaro que, conforme as pesquisas, ficará em primeiro lugar neste domingo nas eleições – mas corre sério risco de enfrentar um segundo turno em novembro. Ele parece tudo, menos um presidente da República.

Treze anos de prisão por atividades guerrilheiras durante a ditadura, corpo perfurado por seis balas, uma candidatura construída contra a vontade do presidente e correligionário Tabaré Vázquez. Essas são algumas características que ajudam a entender o chacareiro que assusta a direita e redobra a esperança da esquerda.

– Será um governo do qual se pode esperar mais do mesmo – diz o deputado socialista Rafael Michelini, ao avaliar que Mujica irá aprofundar os avanços sociais da atual administração.

Não são apenas as raras aparições dentro de um terno que afastam Mujica do figurino tradicional dos governantes. Ele não tem papas na língua. A espontaneidade causou-lhe problemas quando declarações suas ofensivas aos argentinos foram divulgadas. Precisou pedir desculpas para evitar um desgaste maior. Companheiro de luta contra as ditaduras da América Latina, o conselheiro do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul Jair Krischke vê o tupamaro como “um velho militante político sem o discurso do político usual”:

– É uma pessoa encantadora, que não eleva a voz e não diz nada que possa assustar os setores conservadores.

Krischke classifica Mujica de “potável” e o compara ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma forma de espantar a ideia de que o líder uruguaio, se for eleito, venha a se aproximar da esquerda radical do venezuelano Hugo Chávez. Na torcida por uma vitória da Frente Ampla está o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS). Integrante do Parlamento do Mercosul, o socialista vê em Mujica a defesa do acordo regional:

– É uma figura simples, mas isso é uma virtude que o identifica com o povo e o faz um homem sem maquiagem.

Mujica está muito longe de ser uma unanimidade. Candidato a vice-presidente pelo Partido Colorado, o ex-jogador de futebol do Grêmio Hugo de León duvida que as pessoas mudem e condena o passado guerrilheiro do favorito. Segundo colocado nas pesquisas, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995), 68 anos, de centro-direita, aproveitou seu último comício para lançar um alerta aos uruguaios.

– Uma presidência de Mujica será fria, radical, vulgar, pouco séria e enfrentará profundas divergências internas – afirmou o candidato do Partido Nacional (Blanco).

Para vencer já neste domingo, Mujica precisa fazer a metade mais um de todos os votos dos eleitores que comparecerem às urnas (veja pesquisas). Isto inclui brancos e nulos. Se houver segundo turno, será realizado no dia 29 de novembro, o que pode ser um cenário perigoso para o candidato governista.

A estratégia da Frente Ampla apostava que seria mais fácil obter vitória no primeiro turno do que derrotar Lacalle em um segundo turno – uma polarização entre esquerda e direita, em que a tendência é o acirramento das diferenças. Com discurso nacionalista, Lacalle levaria para a próxima etapa os votos do terceiro nas pesquisas, o colorado Pedro Bordaberry.


zerohora.com
Confira o resultado e acompanhe a repercussão das eleições uruguaias

ANDRÉ MACHADO | Enviado Especial/Montevidéu
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