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Em entrevista à Agência Estado, José Saramago falou sobre seu novo romance, Caim. Disse que Deus é o maior absurdo criado pela mente humana e que os católicos, se forem sensatos, não vão se meter com seu livro. Confira.
Pergunta – A ideia de Caim surgiu há alguns anos, mas o senhor já disse que a história só começou a tomar forma em dezembro do ano passado. Por que justamente nessa época?
Saramago – Não perguntamos a uma maçã por que amadureceu naquele momento e não noutro. Neste sentido, o escritor é uma maçã, tem uma ideia, desenvolve-a pouco a pouco, até que sente que está pronto para começar a escrever. O que há de mais complicado neste processo passa-se no subconsciente, um subconsciente que trabalha por conta própria e só depois apresenta os resultados.
Pergunta – O senhor já disse que utiliza seus romances como veículo para a reflexão sobre a vida. Em que aspecto a religiosidade é cabível na reflexão
proposta por Caim?
Saramago – Caim é um
livro escrito contra toda e qualquer religião. Ao longo da História, as religiões, todas elas, sem exceção, fizeram à humanidade mais mal que bem. Todos o sabemos, mas não extraímos daí a conclusão óbvia: acabar com elas. Não será possível, mas ao menos tentemo-lo. Pela análise, pela crítica implacável. A liberdade do ser humano assim o exige.
Pergunta – O senhor acredita que o tom antirreligioso de Caim provocará semelhante celeuma como aconteceu com O Evangelho Segundo Jesus Cristo? Ou os católicos já se acostumaram com Saramago?
Saramago – Não gostaria que se acostumassem, mas espero, se forem sensatos, que não se metam com um livro que não lhes diz respeito.
Pergunta – Se o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo despertou a ira de parte da comunidade católica mundial quando foi lançado, em 1992, o senhor acredita que o romance Caim provocará o mesmo entre os religiosos judeus?
Saramago
– É possível. Será necessária uma argumentação muito
retorcida para explicar e justificar os atos de barbárie de que a Bíblia está repleta. Em todo o caso, tenho a pele dura. Nada do que possam dizer me surpreenderá.
Pergunta – O senhor ainda sente necessidade de ajustar contas com Deus, mesmo acreditando que ele só existe na cabeça das pessoas?
Saramago – Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem. Pessoalmente, não tenho nenhuma conta a ajustar com uma entidade que, durante a eternidade anterior, ao aparecimento do universo nada tinha feito (pelo menos não consta) e que depois decidiu sumir-se não se sabe onde. O cérebro humano é uma grande criador de absurdos. Deus é o maior deles.
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