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19 de outubro de 2009 | N° 16129AlertaVoltar para a edição de hoje

Uma remada performática

No primeiro fim de semana da Bienal, a Capital teve a chance de conferir ações como a do artista argentino Diego Melero

De óculos escuros, o sujeito possante, cabelos bem aparados, quase grisalhos, discursa em frente ao Margs, na Praça da Alfândega, Centro de Porto Alegre. Veste uma camiseta do tipo regata, vermelha, os braços fortes à mostra, calças pretas e tênis prateados, todos da Nike. Dá dois passos à frente, um ou dois para trás, continuamente, a fim de marcar o ritmo da fala. É difícil entender o que diz: as palavras vêm rápidas e em castelhano. São frases de ordem contra a sociedade de classes, o sistema financeiro internacional, a centralização do poder.

– Somos todos negros – anuncia.

Cada frase, em tom firme, é seguida de um mesmo gesto: com a mão livre, ele toma a folha de papel que está mais acima no maço de folhas que carrega na outra mão. Consulta a folha, como se fosse um documento, e joga essa folha – com raiva – para trás ou para o alto:

– Contra a divisão do trabalho!

Quando o maço de papel termina, ele toma duas garrafas de água mineral de 500 ml, uma em cada mão. Flexiona as pernas e simula que está remando, as garrafas são os remos:

– Uma remada, outra, mais outra... Vamos todos nós, gauchos, até o Rio de Janeiro, vamos até Brasília. Vamos conquistar o poder – convida. – Vou pela Lagoa dos Patos, vou subindo... Passo pelo Rio, vou a Fortaleza...

Por fim, ele sugere que o público veja as garrafas como metáforas do capital e da força de trabalho. Convida todos a se servirem. Há dezenas de garrafas disponíveis. Está encerrada a performance, uma das mais de 30 que a 7ª Bienal do Mercosul ofereceu neste fim de semana, gratuitamente, na capital gaúcha. O público aplaude, alguns mais efusivamente. Um certo espírito Fórum-Social-Mundial acompanha a ação. O espanhol é a língua dominante. Entre os presentes, estão a curadora-geral da Bienal, Victoria Noorthoorn, e a curadora pedagógica, Marina De Caro, ambas argentinas. Grande parte desta Bienal, especialmente as obras em exibição nos armazéns do Cais do Porto, explicitam ou pelo menos evocam um certo caráter político, contestador – à esquerda. O conceito norteador da mostra sugere que os artistas são atores sociais, autores de reflexão sobre o real, sobretudo agentes críticos com potencial força de transformação, e não apenas produtores de coisas belas.

O autor da performance da Praça da Alfândega é conterrâneo das curadoras. Chama-se Diego Melero, vive e trabalha em Buenos Aires, tem 49 anos. Uma assistente sua, produtora da Bienal do Mercosul, distribui entre o público uma folha de papel que sintetiza, graficamente, o discurso de Melero. Relaciona temas como formas de governo, a cidade e o Estado, a propriedade privada, o capital, a academia e o indivíduo.

O próprio artista ajuda na distribuição. Oferece em seguida, em fotocópias, os Capítulos IV a XIX do clássico da ciência política O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. São aqueles em que o pensador italiano discute, por exemplo, como o governante deve se comportar para evitar o desprezo e o ódio de seus súditos.

Melero distribui também – mas, nessas alturas, a maior parte do público, pouco mais ou menos de 40 pessoas, já havia se dispersado – um texto breve sobre a Revolução Haitiana, de 1804, a chamada Revolução Negra, aquela em que os ex-escravos lideraram a campanha pela independência do país.

Sentado em um banco da Praça da Alfândega, Melero faz um balanço de sua participação na Bienal do Mercosul. A performance do fim de semana, que não terá durado mais do que 15 minutos, entre as frases iniciais e a distribuição das fotocópias, foi o encerramento de uma série de atividades, iniciadas semanas antes da Bienal propriamente dita, inaugurada oficialmente na noite de sexta-feira. Melero intitula suas ações de Aulas de Ginástica e Filosofia. Ele deu aulas dessas na Escola Superior de Educação Física da UFRGS, no curso de Antropologia, também da UFRGS, em uma escola de Ensino Médio em Canoas e em uma praça da cidade de Montenegro.

As aulas combinam exercícios anaeróbicos, que vão trabalhando de forma progressiva as musculaturas das pernas, costas, braços e peito (“Igual ao que se faz nas academias de musculação”, sublinha Melero), e a leitura de textos teóricos da área de humanidades.

– Acho que há um preconceito da sociedade: o corpo vai para um lado, e o pensamento vai para o outro. As pessoas que estudam muito em geral deixam os exercícios físicos de lado.

O artista diz que baseou essas aulas em sua própria experiência. Formado em Sociologia pela Universidade de Buenos Aires, a UBA, trabalhando com desenho e pintura desde os anos 1980, ele conta que faz mais ou menos 15 anos que passou a dar mais atenção a seu preparo físico. Imaginou então atividades que conjugassem a exigência corporal e a exigência do raciocínio crítico.

– Passei a trabalhar melhor. Aumentou minha concentração – garante.

Ele chegou a realizar uma performance desse tipo na Documenta XII, na cidade alemã de Kassel, mostra reconhecida internacionalmente como a mais importante do mundo em termos de arte contemporânea.

EDUARDO VERAS
PROGRAME-SE
Inaugurada na sexta-feira, a 7ª Bienal do Mercosul se estende até 29 de novembro. Pode ser visitada – sempre com entrada franca – de terças a domingos, incluindo feriados, das 9h às 21h. As principais exposições estão no Margs (Praça da Alfândega, s/nº), no Santander Cultural (Avenida Sete de Setembro, 1.028) e nos Armazéns A3, A4, A5 e A6 no Cais do Porto de Porto Alegre (Avenida Mauá, 1.050, com entrada na altura da Avenida Padre Thomé). Performances e outras intervenções na cidade serão realizadas ao longo da Bienal. Confira programação no site oficial do evento: www.bienalmercosul.art.br.
Saiba mais
Forma híbrida de expressão, a performance combina, na maior parte das vezes, elementos das artes visuais e cênicas. Não chega a ser uma representação como as de teatro, mas costuma seguir algum roteiro prévio e pressupõe a existência de um público. A performance tem quase sempre algum caráter de urgência. As primeiras foram aquelas ligadas às chamadas vanguardas modernas, na virada do século 19 para o 20. Foi, porém, a partir de fins da década de 60 e ao longo de toda a década seguinte, que as performances entraram para o repertório dos artistas plásticos. A arte conceitual estava no pico, e as performances eram frequentemente a materialização de ideias.
Um dos pioneiros da performance no Brasil foi o arquiteto e artista fluminense Flávio de Carvalho (1899 – 1973), lembrado nesta 7ª Bienal do Mercosul justamente como uma série de fotografias, no Margs, que rememora sua mais célebre performance. Em 1956, em plena Avenida Paulista, ele desfilou com o que acreditava que seria o traje ideal para um homem usar em um países tropical como o Brasil, uma blusa leve e uma saia plissada, acima do joelho (foto).

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