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A música pop também sobrevive das piadas que de tempos em tempos surgem para dar graça e colorido à indústria. Mika poderia ser mais uma, não fosse ele diferente de tantos outros artistas engraçadinhos que derretem o glitter depois de poucas horas sob as luzes.
O cantor inglês nascido no Líbano é cria de si próprio e não um marionete a serviço de um produtor esperto. Por trás da figura espalhafatosa, que anda de mãos dadas com Freddie Mercury e Brüno, existe um compositor talentoso e um cantor com potencial raro.
A inescapável prova do segundo disco não se mostrou tão penosa para Mika, 26 anos, que está de volta com The Boy who Knew Too Much. Como mostra a primeira faixa de trabalho, We Are Golden, Mika investe outra vez na feliz combinação de ópera rock setentista com o clima “chansonnier” dos antigos cabarés, gênero que teve no saudoso Freddie Mercury sua imagem mais icônica – não por acaso, muitos fãs do Queen sonham em ver Mika à frente dessas reuniões celebratórias
que os ex-integrantes
da banda britânica promovem vez que outra.
Como em Life in Cartoon Motion (2007), o novo disco mostra Mika como a estrela, o grande entartainer de um universo próprio, decorado com plumas e muito brilho. Não apenas pelas capas, os dois discos são muito parecidos, mas em The Boy who Knews Too Much ele não parece tão interessado em fazer o povo ferver nas pistas. As 12 faixas (veja no destaque) são embaladas como um grande musical da Broadway em celebração à juventude. Mika encarna um Peter Pan de botas douradas – como se vê no clipe de We Are Golden, com ele pulando e cantando no quarto bagunçado –, o porta-voz de dilemas adolescentes como corações partidos, conflitos com os pais e a hora de sair de casa.
Embora menos dançante, o disco revela um Mika ainda mais versátil na exploração de seus dotes vocais. Se o seu incrível registro em falsete não é mais um elemento surpresa, ele se mostra econômico no recurso, investindo em timbres mais variados. Aposta, sobretudo, na
sua versatilidade como um
compositor que continua a beber nas referências óbvias do glam rock do passado – Elton John é outro que parece se debruçar sobre o piano de Mika – mas bastante atento para os rumos e humores da música do século 21.
| As faixas |
| 1) We Are Golden Em tom de ópera rock, Mika celebra a adolescência como um grande circo onde os jovens devem brilhar. |
| 2) Blame it on the Girls A vida poderia ser mais simples se a gente não a complicasse tanto quando adultos, canta Mika. |
| 3) Rain Lembra Relax, Take it Easy, um dos hits dançantes do disco anterior, até no grudento refrão em falsete. |
| 4) Dr. John Ao piano e estalando os dedos, Mika evoca lembranças da infância como um trecho de musical da Broadway. |
| 5) I See You Bela balada em que a lembrança de Freddie Mercury remete ainda a Kate Bush dos anos 1970. |
| 6) Blue Eyes Tempero caribenho lembra o coração partido por um par de olhos azuis. |
| 7) Good Gone Girl Entre a pista de dança e o cabaré, fala dos sonhos e perigos que rondam uma adolescente de 17 anos. |
| 8) Touches You Mika oferece conforto aos corações solitários: Eu quero ser seu irmão, quero ser também seu pai, quero ser sua irmã, quero ser também sua mãe. Lembra o George Michael dos anos 1990. |
| 9) By The Time A versatilidade vocal de Mika numa baladinha com camadas de vozes sobrepostas. |
| 10) One Foot Boy Pouco inspirada, parece saída da linha de montagem de produtores da hora como Timbaland. |
| 11) Toy Boy Poderia estar na trilha de um desenho da Disney mais moderninho. Um boneco lamenta seu esquecimento pelo dono que cresceu. |
| 12) Pick Up off the Floor Coloque seu coração novamente no bolso. Em outra faixa sobre coração partido, Mika senta-se ao piano para sublinhar sua fixação em Freddie Mercury. |
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