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Aos 86 anos, Henry Kissinger dedica-se a sua firma de consultoria, a Kissinger Associates, em Nova York, e tem uma participação episódica na política americana e mundial. O que ele teria a dizer sobre o conturbado cenário latino-americano, no qual o impasse em Honduras lembra o mundo da Guerra Fria no qual ele consolidou sua carreira? Que conselhos teria a dar a Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva?
– Obama é como um jogador de xadrez que joga várias partidas simultâneas e abriu seus jogos com uma abertura incomum. Agora ele terá de jogar conforme o jogo de seus adversários. Não tivemos até agora mais do que o movimento de abertura. Eu não tenho restrições à jogada de abertura – afirmou à revista alemã Der Spiegel, em junho.
O governo George W. Bush estava cheio de adversários de Kissinger. Homens como Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz e Richard Perle, em ascensão no final dos anos 70, viam o duelo com a União Soviética como uma luta de vida ou morte. A
expressão “Império do
Mal”, usada pelo presidente Ronald Reagan para definir a superpotência comunista, era um reflexo dessa linha de pensamento. A abordagem de Kissinger era oposta. Dependendo das circunstâncias, ele poderia considerar a possibilidade de fazer acordos pontuais com os soviéticos, com monarquias absolutistas ou com ditaduras militares de direita – desde que os interesses de segurança americanos saíssem ganhando. A política de aproximação com os países médios – entre os quais se encontrava o Brasil – era também uma forma de criar um sistema de amortecimento para as pressões soviéticas. Esse sistema poderia ser um air-bag democrático ou uma porta blindada ditatorial. Essa é uma das razões pelas quais Kissinger simpatiza com Obama e sua abordagem por vezes heterodoxa das relações internacionais.
Na atitude americana diante da crise em Honduras há um pouco do estilo Kissinger. Até o momento, a Casa Branca evitou chocar-se com a tática ofensiva do governo Lula, que abrigou na embaixada em
Tegucigalpa o
presidente deposto Manuel Zelaya. O máximo que o embaixador americano na Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmou foi que a volta de Zelaya a Honduras foi “irresponsável”. Condescendência? Talvez. Nos anos 70, Kissinger fez o possível para não sacrificar a parceria com o vizinho promissor do Sul em razão de diferenças táticas. “O Brasil usou suas ligações no Terceiro Mundo não para enfraquecer os Estados Unidos, mas para conquistar status de grande potência para si mesmo”, disse Kissinger anos mais tarde sobre as desavenças com o governo Geisel.
Um dos pecados que Kissinger não tolera num estadista é a tendência a agir de forma gratuita, sem levar em conta objetivos estratégicos _ algo de que os críticos do governo Lula têm acusado o Itamaraty com frequência. “A frivolidade é um prazer que tem um custo elevado para um estadista, e seu preço deve ser eventualmente pago. Ações desencadeadas pelo estado de espírito do momento e desvinculadas de qualquer estratégia global não podem
ser
sustentadas indefinidamente”, afirmou em sua obra máxima, Diplomacia.
No mundo atual, porém, o pensamento de Kissinger certamente reservaria um lugar para o Brasil. Ele escreveu em Diplomacia: “No mundo pós-Guerra Fria, (...) o relativo poder militar dos Estados Unidos irá gradualmente diminuir. A ausência de um adversário bem definido produzirá uma pressão doméstica para utilizar recursos da defesa em outras prioridades – um processo que já começou. Quando não existe mais uma ameaça única e cada país percebe os seus perigos a partir da sua própria perspectiva nacional, aquelas sociedades que haviam se abrigado sob a proteção americana se sentirão compelidas a assumir uma responsabilidade maior no tocante à sua própria segurança”.
O homem que já foi associado a algumas das mais ferozes ditaduras do mundo vê em Obama a chance inédita de um governo americano que não seja obrigado a recorrer à guerra.
– Eu acredito que Obama tem a chance única de
conduzir uma política externa americana
pacífica. Eu não vejo nenhum conflito entre esses países maiores, China, Rússia, Índia e os Estados Unidos, que justificariam uma solução militar. Então, há oportunidade para um esforço diplomático. Mais do que isso, a crise econômica não permite que os países dediquem uma percentagem histórica de seus recursos ao conflito militar – afirmou em junho à Der Spiegel.
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