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30 de setembro de 2009 | N° 16110AlertaVoltar para a edição de hoje

Gaúchos culpam Chávez

Pessoas que trocaram o Estado pelo país centro-americano dizem que imagem brasileira ficou arranhada

A crise política em Honduras transforma rapidamente o olhar de saudade dos Pampas de Walney Gonçalves da Silva. A expressão muda. Ele fica sério. Os discursos e ações do presidente deposto Manuel Zelaya deixam contrariado o porto-alegrense, que há 14 anos vive em Tegucigalpa.

– O problema dos hondurenhos é Hugo Chávez – define.

Desde que Zelaya recebeu abrigo na embaixada do Brasil, há mais de uma semana, Walney tem se assustado com a hostilidade contra os brasileiros.

– Cheguei a escutar dizerem “brasileiro de m.” e encontrei folhetos nas ruas perguntando por que não vamos embora – conta.

Walney trocou Gramado, onde tem uma residência, pelo calor da capital hondurenha para trabalhar como representante comercial de uma empresa de ferramentas da Serra. Nesses anos todos em Honduras, nunca sobrou dinheiro para voltar ao Rio Grande. Mata a saudade apenas pelo chimarrão. Algumas vezes, a situação apertou tanto que ele precisou vender o carro. Mas em poucas situações a vida esteve tão difícil quanto agora.

– Ninguém mais quer comprar ferramentas. Há três meses que não faço um pedido para o Brasil. Os clientes querem primeiro uma solução para a crise – afirma.

Críticas ao uso da embaixada brasileira

Crítico do governo Zelaya, ele acredita que o presidente deposto queria transformar Honduras em uma Venezuela de Hugo Chávez. Porém, Walney critica também a maneira como o presidente foi tirado do poder. Na sua opinião, Zelaya deveria ter sido preso por ter violado a Constituição, ao buscar uma reeleição. Mas ação militar, à noite, retirando-o de sua casa e expulsando-o para outro país, abriu margem para que o mundo visse o episódio como um golpe.

Como a grande maioria dos cerca de 90 brasileiros na capital hondurenha, ele questiona o abrigo dado por Lula:

– Zelaya está fazendo da embaixada um quartel-general.

– Ele (Zelaya) é mandado por Hugo Chávez – diz a também gaúcha Lenir Coltro de Sosa, 47 anos.

Natural de Nova Prata, ela mudou-se para Honduras em 1987, após casar-se com um hondurenho que tinha ido estudar Arquitetura na UFRGS, em Porto Alegre. Em Tegucigalpa, abriu a primeira clínica de nutrição no país centro-americano. Aprendeu espanhol, criou três filhos e agora, depois de ser acolhida com carinho pelos hondurenhos, tem uma dúvida:

– Não sei se tiro a bandeirinha do Brasil do vidro do carro.

Ela compartilha a opinião de Walney de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou ao abrigar Zelaya.

– O povo hondurenho tem um carinho especial pelos brasileiros. Esta situação deixou a todos nós muito mal.

Para Lenir, as eleições de novembro colocarão um fim à crise. Mas percebe que, sem uma força a mais, não será possível:

– As igrejas nunca estiveram tão cheias. É fé em Deus e esperar a eleição.

Rezar. É o que faz também Walney, que, como a maioria dos hondurenhos, coloca o futuro nas mãos de Deus.

– Oramos por Honduras – diz.

E, para não restar dúvidas, posa para a foto ao lado da Oração do Gaúcho.

RODRIGO LOPES | Enviado Especial/Tegucigalpa
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