Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
Esta província do sul do Brasil, patagônica nos meses de julho a agosto, e meio platina no resto do ano, deve muito a um artista e jornalista que desembarcou em Porto Alegre no verão de 1960. Vinha de uma breve passagem pelo Rio de Janeiro, paraíso invejado pelos compatriotas argentinos e já então referência do Brasil em inovação jornalística. Desde a chegada, Anibal Bendati encantou amigos, colegas e, depois, alunos, tanto pela paciência para ensinar sua pioneira arte de diagramar páginas de jornal quanto pela graça de escutá-lo falar – da política ao jornalismo – em um portunhol jamais aperfeiçoado. Sua morte, aos 78 anos, em agosto passado, provoca reflexão sobre o aprimoramento da forma dos jornais. O legado de Bendati é mais do que prova da múltipla interação entre Brasil e Argentina em padrões culturais, emocionais e intelectuais. Alcança o estético, especialmente na definição do que é um tabloide, formato consagrado hoje.
As páginas dos jornais eram laboratório de muitas inovações
no centro do
país, nos anos 50. O projeto editorial do Diário Carioca recém definira a maneira nova de escrever com seu primeiro Manual de Redação. Mas foi o lançamento posterior da Última Hora que abriria caminho para uma técnica precursora.
Para criar o visual de UH, em junho de 1951, seu fundador, Samuel Wainer, contratou Andrés Guevara, reconhecido pelo trabalho de criação gráfica do Clarín, em 1945, e consultor por toda a América Latina. Os argentinos já haviam feito escola gráfica com Crítica, um periódico das primeiras décadas do século passado. Guevara era artista plástico, nascido no Paraguai, formado na pintura, e um especialista em artes gráficas, preocupado com a economia de tempo e de matéria-prima dos impressos nos tempos de pós-Guerra.
Naqueles dias, os jornais eram paginados e não diagramados. Eram uma miscelânea de letras de vários modelos e tamanhos, linhas de separação, colunas e textos com inevitáveis “continua na página tal”. Páginas eram montadas em chumbo e
embaladas em madeira e até
com barbante. Era o tempo dos poderosos chefes de oficina, e os jornalistas da redação terminavam a noite com várias matérias “ficadas”. Essa quantidade de textos que sobrava era parte da rotina. Guevara espalhou sua técnica, economizou espaços de textos e definiu a estética que mudou os impressos.
Bendati captou o estilo UH e adotou a cultura funcionalista pós-Bauhaus de Guevara. Veio para Porto Alegre para ajudar no lançamento do projeto de regionalização da rede nacional do vespertino. Foi a ancoragem definitiva para quem precisava trabalhar, após perseguição sofrida na turbulenta Argentina. Publicações satíricas em que ele atuava como ilustrador e chargista foram fechadas pelos militares.
Na versão gaúcha de UH seguiu essa trilha, mas fez mais. Orientou colegas e implantou a diagramação em um jornal que já foi pensado em formato tabloide, diferente do nacional. Com isso, Wainer respeitava um forte hábito de leitura local. O tabloide tem a gênese na Folha da Tarde,
vespertino de 1936,
criado a partir dos modelos ingleses para serem lidos nos bondes. Os que circulavam em Londres haviam sido a inspiração do fundador Breno Caldas, como registrou o jornalista Walter Galvani em seu livro Olha a Folha. A FT, o vespertino da cidade, foi um sucesso editorial que consolidou a praticidade e o arranjo gráfico do tabloide.
No Rio Grande do Sul, circulavam os rivais Correio do Povo e Diário de Notícias, mais Jornal do Dia e A Hora, entre outros. A Hora já era influenciada pelos ventos criativos da UH carioca, além de composta por uma equipe que valorizava o visual, como também historiou Lauro Schirmer em seu livro A Hora, Uma Revolução na Imprensa.
Bendati expandiu fórmulas de diagramação, tabelas de títulos, horários de fechamento, combinada com a visão de artista em UH. O tabloide era editado com organização, fotos grandes e retocadas, espaços em branco e visual dinâmico, diferente dos jornalões que, no entanto, ele nunca deixou de admirar e falar das
qualidades.
Com o
fechamento de UH, Bendati deu continuidade ao trabalho pioneiro quando desenhou Zero Hora, exatos 45 anos atrás, para suceder UH pós-64. Ele narrava como criou, com seus companheiros, o primeiro logotipo com letras montadas a partir dos tipos da máquina de escrever, na cor azul ciano.
Depois de deixar ZH, Bendati participou como criador do visual da Folha da Manhã, da mesma editora de Correio do Povo e Folha da Tarde, uma proposta original que circulou de 1968 a 1980 e valorizou as reportagens.
– O projeto da Folha da Manhã era ousado, com uma primeira página de impacto, começando pelo logotipo de fundo vermelho, característica principal que diferenciava o jornal da concorrente Zero Hora – relembra Léo Tavejnhansky, editor de arte de O Globo e discípulo do mestre.
Segundo Léo, com diagramação arrojada, títulos de linhas de larguras diferentes, a FM passava imagem dinâmica e jovem que foi harmonizada com o inédito projeto
editorial.
Com suas teorias gráficas, Bendati passou a dar
aulas de planejamento gráfico nas faculdades de Jornalismo da PUC e da UFRGS. Segurando páginas e mais páginas de jornais amareladas, explicava a melhor disposição de textos e fotografias e a maneira certa de seduzir o leitor.
Era a época da impressão em cores, especialmente das fotografias, e de competição com revistas e até com a televisão. O uso da cor passou a ser recurso diário a partir de 1986 e renovou os conceitos sobre uso de fotos e a importância da clareza gráfica para o impresso.
Até o fim dos anos 80, os jornais foram desafiados a fechar as oficinas que ainda resistiam e entrar na era do computador. Redações tumultuadas e barulhentas viraram locais silenciosos. Máquinas de escrever acabaram aposentadas, e tabelas e cálculos de medidas foram simplificados, para alegria dos jornalistas. A entrada da diagramação eletrônica foi acompanhada pela clareza no trabalho do diagramador. Nos últimos 10 anos, as empresas começaram a reduzir os formatos de standard para
tabloide em forte
estratégia de posicionamento diante da internet. A ideia de jornais pequenos e práticos alcançou o resto do Brasil e alguns países. O gosto do leitor gaúcho pelo tabloide virou tendência mundial, 70 anos depois da FT.
As lições de Bendati deixaram de ser “ditadura da diagramação” para serem argumentos de atração de novos leitores.
A chegada de um guru internacional do design a Porto Alegre despertou o mestre para a infografia. O cubano Mario Garcia, contratado para redesenhar ZH, nos 25 anos, encheu de curiosidade o guru dos projetistas nativos. Bendati testemunhava uma geração nova de planejadores gráficos conquistar espaço junto a repórteres, editores e fotógrafos.
Zero Hora foi sempre observada por um leitor atento que alertava para excessos, como tipografias mal escolhidas. Crítico, aproveitava para encaixar suas piadas prontas sobre os “artistas plásticos” e ajudava a corrigir imperfeições na condição de assinante
especializado.
Manteve sempre a característica que mereceu de
Ruy Carlos Ostermann, ex-diretor da Folha da Manhã, a definição de “poeta do espaço gráfico”. No convívio diário, Ostermann aprendeu e ensinou a valorizar esse espaço:
– Anibal Bendati com certeza foi um dos reinventores do jornalismo de jornal. A diagramação exigiu concisão, uma forma ao menos elegante de se expressar. Ele não dava palpite sobre texto, mas tinha a página desenhada como um aliado e censor estético.
Gracias, Anibal.
*Editor de Arte dos jornais do Grupo RBS e ex-aluno de Anibal Carlos Bendati
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