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Na literatura, o fabular é mentir ou alcançar uma verdade mais profunda, fora do alcance da mera objetividade? A pergunta, reflexão central do fazer narrativo, é também o eixo no qual se assenta a história de amor e mentiras que a escritora gaúcha Manoela Sawitzki tece em Suíte Dama da Noite, seu segundo romance.
Nascida em Santo Ângelo, formada em jornalismo e autora de um romance (Nuvens de Magalhães, publicado pela Mercado Aberto em 1999) e de uma peça vencedora do Açorianos de Dramaturgia em 2006 (Calamidade), Manoela apresenta em Suíte Dama da Noite (Record, R$ 34,90) uma mulher que se debate contra a realidade externa inventando para si uma frágil história pessoal de amor eterno. Um artifício que, incluído no centro de um romance, por si só o terreno da invenção, produz uma interessante armadura metaficcional para a própria estrutura de uma história de amor – e desamor.
Suíte Dama da Noite narra a história de Júlia – ou Júlia Capovila, como ela gosta de repetir
para si mesma como forma
de encontrar na declinação do nome completo um conforto para sua identidade perdida no mundo. Órfã de mãe e com um pai vítima de derrame, desde criança vicia-se em inventar para os vizinhos e parentes pequenas mentiras, que vão se tornando fantasias mais complexas à medida que a menina cresce. A mais trágica, uma paixão inventada por um colega de infância, Leon, adolescente que se muda para sua pequena cidade quando ela tem 10 anos – ele é um pouco mais velho. Crescem juntos, numa proximidade dolorosa para Júlia, e, quando Leon sai da cidade, ela esconde-se numa monotonia cinza à espera do reencontro, algo que só vai ocorrer 10 anos depois, quando ele está noivo.
Numa ciranda sombria, a noiva do amado é irmã de Klaus, homem apagado e banal que nutre por Júlia um afeto rastejante e que um dia, vencendo-a no cansaço, consegue que ela aceite seu pedido de casamento. É a tensão entre Klaus, o marido afetuoso que lhe serve como zona de conforto, e Leon, que não oferece a paz amorosa com que
Júlia sonhava
mesmo quando consumam a relação e se tornam amantes em um caso longo e acidentado, que se debate a consciência de Júlia. Fiandeira de mentiras desde a infância, ela pensa se encontrar no amor idealizado por Leon, e mesmo a entrega revela não a completude que almejava, e sim uma nova ausência: o sentimento não se basta para ser vivido na sombra, o que levará a um trágico desfecho.
Segundo romance de Manoela, Suíte Dama da Noite é radicalmente diverso de sua estreia. Se em Nuvens de Magalhães o que sustentava o conjunto era uma linguagem barroca e suntuosa, aqui a autora se contém, substitui o fluxo e o caudal da obra anterior por uma prosa mais consciente, refletida, concisa, em que, justamente, por mais raros, os momentos poéticos brilham com mais força, em passagens como “sorrir ultimamente me tem cortado a boca” ou “Restava-lhe algo menos que viver e ainda mais imponderável que não viver”.
Se há o que objetar no monólogo doloroso de Júlia é justamente sua onipresença:
arquitetado todo em
torno da imagem que a protagonista tenta projetar em confronto com suas inseguranças, o romance não deixa muito espaço para as vozes de Leon e Klaus, ambos bidimensionais cada qual em seu fascínio e fraqueza. Como se fossem eles próprios personagens ficcionais da narradora Júlia. Ou talvez seja essa a intenção original de Manoela, e, nesse caso, se Júlia sofre por não saber quem é dentre as mil faces que inventou para si, a autora reserva para os personagens masculinos sua crítica da própria protagonista. Inventiva com sua identidade e passado, Júlia talvez não tenha a criatividade de entender os homens que sustentam sua sede de fantasia.
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