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10 de julho de 2009 | N° 16026AlertaVoltar para a edição de hoje

ANESTESIA ÉTICA

A falta de disposição do Senado de tomar alguma atitude objetiva diante do impasse criado pelas denúncias relacionadas ao seu presidente, José Sarney (PMDB-AP), e a absolvição em definitivo do deputado Edmar Moreira (sem partido, MG) pelo Conselho de Ética da Câmara revelam o descompromisso de integrantes do Congresso com a moralidade na política. Quando até mesmo líderes do Legislativo, que deveriam dar o exemplo e cumprir à risca a atribuição de zelar pela retidão dos atos do Executivo, parecem se aproveitar de uma espécie de letargia nacional para acobertar seus pares e fingir que nada está ocorrendo de irregular, a sociedade tem ainda mais razões para se preocupar. A particularidade de serem tantas as denúncias e tão corriqueiros os sinais de despreocupação em relação a elas não pode servir para reforçar uma espécie de cansaço entre a população, nem para passar a ideia de que a corrupção está em todo lugar e que é difícil vencê-la, pois não está e deve, sim, ser derrotada.

Alguns dos casos mais recentes na esfera dos desvios na política são particularmente ilustrativos de até onde podem chegar os desmandos e a impunidade nessa área. Um deles é a absolvição, pelo Conselho de Ética da Câmara, do deputado Edmar Moreira. O parlamentar, mais conhecido por ser dono de um prédio em forma de castelo avaliado em R$ 25 milhões, é acusado pelo uso de recursos da chamada verba de representação de seu gabinete na contratação de serviços de segurança de empresas de sua propriedade. O outro episódio envolve o próprio presidente do Senado, contra o qual as acusações surgidas a cada dia reforçam o perfil de quem fez da política uma plataforma para a privatização dos espaços públicos em benefício próprio, de familiares e de um círculo de amigos, sem que nenhuma das tantas denúncias pareça capaz de abalar sua reputação, muito menos colocar seu cargo em risco. A mais recente de uma rotina de novas irregularidades é a denúncia de desvio de verbas da Petrobras para a Fundação José Sarney, por meio de empresas-fantasmas e outras da família em nome de um projeto que nunca saiu do papel.

De alguma forma, essa situação em que as acusações se sucedem, sem merecer reações à altura por parte de quem deveria apurá-las para posterior punição, também se repete no Estado e se mantém por ser conveniente para quem aposta no tempo e na saturação como estratégia de relegar os fatos ao esquecimento. No caso específico envolvendo integrantes do governo gaúcho, a quantidade de fatos, de pessoas envolvidas, de versões, de investigações e de processos em diferentes instâncias têm se revelado tão grande, que ao final tudo parece se confundir e se mostrar mais do mesmo, perdendo força, quando não há razões para isso.

Em qualquer dessas situações, o conformismo será sempre a pior atitude. A sociedade precisa reagir aos maus políticos, a um Senado que não pune e a uma Câmara disposta a desmoralizar até mesmo seu Conselho de Ética, pois essa é a forma de contribuir para o fortalecimento da democracia.

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