Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
Marcelo Rech Diretor-geral de Produto do Grupo RBS
Você provavelmente conhece a historieta. Em maio de 1897, incomodado ao deparar com o próprio obituário no New York Journal, o escritor Mark Twain corrigiu-o com um bilhete irônico:
O relato sobre minha morte é exagerado.
Pois mais de um século depois, agora é a vez de os jornais impressos poderem achar graça dos presságios sobre sua morte, como o emitido por Ted Turner, fundador da CNN. Em 1981, ele previra o desaparecimento dos jornais em 10 anos. Sorry, Ted, mas 18 anos após a data fatídica não só folhas continuam jorrando de rotativas como também no mês passado a Associação Mundial de Jornais revelou que a circulação de jornais impressos pagos segue em alta: 1,3% em 2008 e nada menos que 8,8% nos últimos cinco anos. O crescimento não é uniforme. A circulação caiu 3,7% no ano passado na América do Norte, leia-se Estados Unidos, e 1,8% na Europa. Em contrapartida, os jornais mostraram vigor na Ásia, África e América Latina, onde o número de exemplares subiu espetaculares 16,4% desde 2004.
Se a circulação, que é o sangue vital da relevância dos jornais, ainda cresce na média mundial, então por que há relatos de seu estado terminal? Porque, de fato, alguns jornais, em alguns mercados, sobretudo o norte-americano, foram mesmo para o beleléu. E como tudo que acontece nos EUA reverbera pelo planeta, por vezes de forma desproporcional, a sensação desencadeada pelo fechamento de três ou quatro jornais norte-americanos é de que todos os jornais em papel estão em vias de se desmilinguir.
Equívoco. Na década de 80, pelo menos quatro diários fecharam apenas em Porto Alegre, mas naquela época nenhuma voz se aventurou a vaticinar o fim dos jornais como meio de comunicação. O diagnóstico era mais certeiro. Morreram porque se atolaram em dívidas, porque tinham sérios problemas de gestão ou porque, simplesmente, não contavam com a preferência dos leitores. Agora, quando um jornal faz um mau negócio, endivida-se até a última gota de tinta e, espremido pela queda da publicidade em meio à maior crise em 70 anos, entra em concordata em Chicago, as vozes do além auguram: é a nuvem da catástrofe se espalhando pelo território do jornalismo impresso.
Aposentando o Super Constellation
Jornais malogram não porque a TV, o rádio, a internet ou o celular os estejam sufocando. Morrem porque não souberam se antecipar às mudanças causadas por outros meios, porque se acorrentaram a glórias do passado, porque se meteram em delírios econômicos e não se adaptaram aos novos hábitos, desejos e necessidades do público. Ou seja, tão somente eram mal administrados. Nada diferente de uma cadeia de varejo ou de uma companhia aérea. Imagine a performance de uma companhia que ainda voasse para os Estados Unidos com aviões Super Constellation. Há 50 anos, este era o máximo de requinte e prazer no ar. Mas que passageiro, em 2009, toparia enfrentar quatro escalas e levar 25 horas de São Paulo a Nova York pagando preço de primeira classe para viajar de econômica?
A companhia entraria em colapso (como muitas entraram), mas ninguém diria que o público desistiu de andar de avião ou de viajar para os EUA. Alguns jornais, porém, ainda decolam todo dia seus Super Constellation e, desconcertados por resultados magros, não se renovam, ceifam qualidade, mutilam a credibilidade e ajudam a propagar a idéia de que a perda de leitores e exemplares é consequência de um mundo que rejeita jornais.
Não é nada disso, como prova este exemplar que você tem em mãos agora, na semana em que, apostando num futuro venturoso dos jornais em papel, o Grupo RBS inaugurou em Porto Alegre o moderníssimo Parque Gráfico Jayme Sirotsky. A envergadura do complexo, e seus benefícios aos leitores, você pode conferir no meticuloso caderno especial sobre o parque gráfico encartado nesta edição. A concepção editorial e visual do caderno é uma amostra da vanguarda que permeia ZH.
O Exterior de olho aqui
Muito antes de a palavra internet ser dicionarizada, Zero Hora já havia constatado que devia perseguir um caminho que fosse além da mera reprodução de notícias ocorridas no dia anterior. O jornal estabeleceu rigorosos critérios éticos e de independência, investiu em reportagens e em grandes nomes para seus espaços de comentário e análise, valorizou os conteúdos jovens, detectou tendências e aprofundou-as em uma bateria de cadernos, evoluindo constantemente o texto atraente e o visual cativante. Além de, literalmente, imprimir mais qualidade a seu jornal em papel, Zero Hora renovou neste sábado seu visual, mantendo-o em sintonia com a dianteira mundial no desenho gráfico de periódicos. O fato é que, em acordo com a filosofia da RBS para seus veículos, ZH não se acomoda.
Em setembro de 2006, a revista britânica The Economist trouxe uma capa com o título Quem Matou os Jornais? mais uma bola de cristal desfocada, como se constata quase três anos mais tarde. De qualquer forma, a reportagem, bem mais sóbria que a capa, apresentava Zero Hora como um dos veículos impressos que haviam encontrado novos caminhos ao ouvir diariamente seus leitores para identificar o que de fato os interessava.
A atenção no Exterior para o que se passa com um diário no extremo sul do Brasil se tornou relativamente comum. No mês passado, por exemplo, em um congresso em Barcelona, Martha Stone, diretora do projeto Moldando o Futuro dos Jornais, exibiu a representantes de 51 países a estratégia de Zero Hora de atender a seu universo de leitores com a oferta, paralela ao caderno principal, de uma alentada série de cadernos, encartes, produtos associados e eventos, a chamada cauda longa aplicada à marca do jornal.
Internet sopra a favor
Na contramão do senso comum, a internet tem sido um bálsamo para ZH. Mas não por acaso. A conjugação de zerohora.com com o jornal em papel segue um enredo pelo qual os relatos de fatos que acabaram de ocorrer são divulgados via online. Ao jornal da manhã seguinte cabe remontar os significados e iluminar os bastidores, oferecendo ao leitor o que se pode batizar de visão de raio X sobre a informação do dia anterior ou sobre fenômenos de nosso cotidiano. Esse jornal é mais difícil de se fazer, e exige profissionais de alta capacidade, mas, por isso, é um produto melhor e mais útil para o leitor.
Ao complementarem a notícia de acesso grátis e universal com a informação aprofundada e ainda mais qualificada, Zerohora.com e a edição em papel formam um casal perfeito. Sabendo dominá-la, a nova equação não ofusca o jornal impresso. Com seu ciclo de produção de 24 horas, ele enfrenta melhor a corrosão da atualidade que penaliza as revistas e, diferentemente dos meios instantâneos, conta a seu favor as horas necessárias para a decantação de versões, para a captação de dados com maior abrangência e para a adequada reflexão sobre acontecimentos recentes.
Traduzida por uma cadeia de qualidade que vai do planejamento de coberturas à entrega do exemplar debaixo da porta, a concepção de um jornal combinado à web, pensado e executado para atender as necessidades de seu público, afronta os profetas do apocalipse do mundo em papel. De janeiro a maio deste ano, por exemplo, a circulação de Zero Hora cresceu 3,7% sobre o mesmo período do ano passado. Em época de crise, é uma notícia e tanto para empresas em qualquer parte do planeta e, no caso dos jornais, outro sinal de futuro a perder de vista. Então, diante desta robustez, só resta escrever em letras bem impressas por rotativas estalando de novas:
Que nos desculpem os obituaristas, mas as notícias sobre a morte do jornal têm sido amplamente exageradas.