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26 de junho de 2009 | N° 16012AlertaVoltar para a edição de hoje

“Teve gente que acendeu vela para o Brasil ser afetado”

Neste trecho da entrevista, o presidente fala sobre seu futuro político, a crise mundial e a CPI da Petrobras:

Zero Hora – O senhor tem dito que quer ser um cidadão do mundo depois de 2010. O presidente Barack Obama afirmou que o senhor é o cara. Ele seria o seu cabo eleitoral para ocupar um espaço na ONU ou no Banco Mundial?

Lula
– A minha maior pretensão agora é ver se eu pago a minha promessa que fiz para dona Marisa em 1978. Ela queria que eu deixasse o sindicato e prometi que era o último mandato e que depois eu ia me dedicar à família. Já se foram 31 anos e eu não consegui. Pretendo me voltar um pouco para a família. Também não quer dizer que eu vá deixar de fazer política. Gostaria de trabalhar muito essa questão de integração da América Latina, da África. Acho que nós precisamos cuidar com carinho da África, de fortalecer o processo democrático lá. O Brasil é muito bem conceituado no continente africano.

ZH – Mas com essa popularidade que o senhor está, será que na eleição de 2014 dona Marisa resiste? Pesa mais do que uma pressão para que o senhor volte a disputar a Presidência?

Lula –
Eu tenho de recusar discutir 2014, porque não seria benéfico para mim e não seria benéfico para quem eu quero eleger. Vamos supor que eu eleja a companheira Dilma candidata do PT e o povo brasileiro eleja Dilma presidente do país. Ora, qual é o meu papel? É trabalhar para que ela faça o máximo possível. E ela tem o direito de querer ser candidata à reeleição. Se eu não tiver essa consciência de que ela tem de fazer mais e fazer melhor, fazer o governo dela sem tutela e patrulhamento de ninguém, sem saudosismos, você tira a possibilidade de uma grande mulher fazer um grande governo neste país. Vou torcer para que Dilma possa fazer o melhor e ser candidata à reeleição. Se for um adversário que ganhar a eleição, aí sim pode estar previsto em 2014 eu voltar. Depende. Ficar aqui é muito difícil. Acho que governar é fácil. Cuidar dos pobres é a coisa mais extraordinária do mundo. Custa barato cuidar dos pobres, muito barato.

ZH – Há uma posição de que as pessoas beneficiadas com o Bolsa Família não saem do sistema. Estaria faltando um segundo passo, para as pessoas recuperem a cidadania?

Lula
– Essa visão elitista dos brasileiros é responsável por mais de um século de empobrecimento generalizado. Se vocês pegarem os números do Bolsa Família, uma mulher que cortava o lápis no meio e dava metade para cada filho, isso é pouca coisa para nós que jogamos uma caixa fora. Agora, com o programa, ela pode dar uma caixa de lápis para cada filho. Com o Programa Luz para Todos, 83% das pessoas que receberam energia compraram televisão, 79% compraram geladeira, 44% compraram aparelho de som, 44% voltaram a estudar à noite. Alguém que nasceu em Copacabana acha que R$ 80 é pouco, mas para um pobre é muito. Lógico que à medida que a economia vai crescendo as pessoas vão deixando o Bolsa Família. Já deixaram o programa 600 mil pessoas.

ZH – O senhor acha que a oposição torceu para que a crise afetasse o Brasil?

Lula
– Torceu e muito. Teve gente que até acendeu vela para o Brasil ser afetado. Uns queimaram a língua, outros queimaram os dedos. Quando deixar o governo, vou montar um grupo para pesquisar as análises econômicas que fizeram sobre o meu governo, para saber quem errou e acertou. Nós tivemos dois momentos da crise. Em setembro do ano passado eu estava no Panamá quando surgiram os primeiros sinais da crise. Voltei, fiz várias reuniões com economistas, analisamos o que significava e percebemos que a crise chegaria muito pequena no Brasil. Até que desapareceu o crédito no mundo inteiro. Tomamos todas as medidas necessárias e somos reconhecidos no mundo inteiro.

ZH – O senhor disse que era muito chique emprestar para o FMI. Muita gente não entendeu.

Lula
– A minha geração passou a metade do tempo carregando faixas dizendo “Fora FMI”. Então devolver dinheiro para o FMI, e depois ainda dizer que pode emprestar US$ 10 bilhões é uma coisa nobre. Mas o que é importante é que como o Brasil propôs no G-20 fortalecer o FMI, democratizar o FMI. Então, o Brasil não poderia ficar de fora.

ZH – O senhor acha que a população entende esse gesto do Brasil no cenário internacional?

Lula
– É a coisa mais ovacionada nas praças públicas. Que orgulho! Precisamos trabalhar com a autoestima do povo. Houve um tempo em que o povo brasileiro era induzido a se portar como se fosse uma coisa de segunda classe. O Brasil não tem de ser menor do que ninguém.

ZH – É por essa questão de orgulho que o senhor não quer que a Petrobras sofra uma CPI?

Lula
– Se tem um fato determinado, diga e faça a CPI. O que não pode é, de forma irresponsável, pegar a mais importante empresa do país e tentar, um ano antes das eleições, achincalhar essa empresa. O que se propôs não tem nada de seriedade.

ZH – O que incomoda o senhor na CPI: os investimentos da Petrobras, que podem ser prejudicados, ou o caráter eleitoral?

Lula
– Acho que CPI não pode ser feita para fins apenas de disputas eleitorais. A CPI é um instrumento da oposição em qualquer lugar do mundo. Não é no Rio Grande do Sul, na Paraíba, é um problema político. Estamos em uma crise econômica profunda, em que a Petrobras teve dificuldades para pegar dinheiro emprestado lá fora. Ora, se uma empresa como a Petrobras encontra dificuldades em arrumar dinheiro, fico imaginando se começar um processo de achincalhamento. O denuncismo é isso. Acho que a Petrobras devia ser investigada pelo Tribunal de Contas da União, pelo Ministério Público, pela Procuradoria-Geral da República.

ZH – Uma das obras mais importantes de seu governo para o sul do país é a duplicação do trecho da BR-101. Quando o senhor pretende inaugurá-la?

Lula
– Antes eu tenho um sonho: quero atravessar aquele túnel (em Maquiné) a pé. Nós temos um problema sério. O túnel já era para estar pronto. Teve problema ambiental, depois teve problema que era muita areia. Mas tenho fé em Deus que este ano ainda vou lá atravessar a pé e até o ano que vem vamos inaugurar a totalidade da BR-101.

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