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27 de maio de 2009 | N° 15982AlertaVoltar para a edição de hoje

A cara do novo

Mistura de referências, passagem por oficinas literárias e edição independente caracterizam a geração 80 de escritores

Os autores da nova safra literária não recusam ou desconsideram nenhum tema ou técnica, misturam referências de qualquer procedência, visando unicamente suas intenções estéticas e não algum estatuto de bom gosto. É, o que parece a característica mais forte da atual geração, embora queiram levar seus leitores a zonas inexploradas, em nenhum momento aceitam o rótulo (ou a postura) de ilegíveis.

– Escrevo para compartilhar algo, seja uma sensação, um momento ou uma forma de ver o mundo, e não simplesmente para confundir o leitor (embora uma dose de confusão seja necessária). Posso até dar um quebra-cabeça para o leitor, mas sou honesto e forneço todas as peças – diz Diego Grando, autor de Desencantado Carrossel, livro de poemas narrados em primeira pessoa.

Grando também flerta com procedimentos que foram comuns como programa político da modernidade poética do século 20, como a criação de poemas-objeto (como um balão com o poema impresso ou um cubo poético com versos em todos os lados). É uma das características estéticas comuns da atual nova geração: uma inquietação para cruzar temas e linguagens, referências e inspirações, teatro, arte, música, cinema, arquitetura, alta literatura, o universo da cultura pop, mas sem filiação a nenhum deles.

– Às vezes busco o ritmo dos quadrinhos, uma estética visual – diz Samir Machado de Machado, autor de O Professor de Botânica. – Dependendo do que estou escrevendo, cerco meu espaço de trabalho de imagens que remetam àquilo. É impossível para um escritor hoje ignorar o universo de cultura pop e do entretenimento que o cerca.

Mesmo a produção da obra pode surgir de uma experiência de cruzamento, como no caso de Telma Scherer, que antes de publicar o livro O Rumor da Casa apresentou os poemas em performances e leituras durante anos, refinando-os de acordo com a reação do público. Diz Telma:

– No meu trabalho, é importantíssima a performance. Trabalhando o poema com o público eu também aprendo sobre ele. O poema também é uma partitura, então a pessoa tem de dominar a técnica de apresentar aquilo, ler e encontrar o ritmo.

A nova geração também cava seu espaço. Inspirados, novamente, no exemplo da Livros do Mal, fundada por Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla em 2001, muitos dos novos autores se associam em editoras independentes, pequenos coletivos que servem para editar não só a produção de seus associados. Marcelo Spalding, autor de Crianças do Asfalto, que transforma em contos relatórios de pesquisas sobre menores em situação de risco, é um dos sócios da Casa Verde. Xerxenesky, Samir e Rodrigo Rosp – que em 2007 publicou os bem-humorados contos de A Virgem que Não Conhecia Picasso, são parceiros na Não Editora. Não há, contudo, uma postura alternativa ou “marginal”. A publicação independente é um primeiro estágio para chamar a atenção para o autor. Carol Bensimon, que lançou seu primeiro livro, Pó de Parede, pela Não, terá o romance Sinuca Debaixo d’Água, publicado pela Companhia das Letras.

Para esses novos autores, também já ficaram para trás discussões célebres: a dicotomia literatura x internet ou “blog é literatura?” – até porque muitos nem blog têm, e os que têm não vinculam sua produção literária a ele. A internet é mais um veículo para divulgar o que escrevem e até mesmo cativar público. Outra controvérsia aposentada pela nova geração é sobre a validade ou não de se cursar uma oficina literária. A maioria já cursou uma oficina em algum momento.

– Sempre houve um equívoco na questão da formulação da pergunta, sobre se “uma oficina ensina um autor a escrever”. A gente tem de pensar: um escritor aprende a escrever? Claro que aprende, ninguém nasce sabendo. A questão é como se aprende? Com muita leitura, muito ouvir a opinião dos outros, muito escrever. E a oficina sistematiza tudo isso – comenta Assis Brasil, um dos pioneiros em ministrar oficinas no Estado.

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