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08 de maio de 2009 | N° 15963AlertaVoltar para a edição de hoje

O desprezo pela opinião pública

Relator do processo contra o deputado do castelo no Conselho de Ética da Câmara, o deputado federal Sérgio Moraes (PTB-RS) mostrou exemplarmente a distância que separa muitos representantes do povo da opinião e dos sentimentos de seus representados. Ao sugerir que irá pedir o arquivamento do expediente no qual seu colega deputado Edmar Moreira (sem partido-MG) é citado como dono de um castelo de R$ 25 milhões, que não consta na declaração de seus bens, e como suspeito de usar a verba indenizatória de maneira irregular, o relator deu-se o direito de, em tom debochado, revelar seu desprezo pela opinião pública. O deputado não se limitou à declaração de que não há como comprovar a veracidade das denúncias. Até aí, seria uma declaração compreensível. Seu complemento é que foi absolutamente equivocado e revelador da separação entre os interesses e as preocupações da sociedade e o comportamento de seus representantes: Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês (jornalistas) escrevem. Vocês batem, batem, e nós nos reelegemos assim mesmo.

Vindo de um deputado que já foi presidente do Conselho de Ética, essas declarações não podem ser vistas senão como o sinal de uma distorção no próprio sistema pelo qual a população é representada, além de revelar a precariedade das instituições criadas no Congresso para controlar a ética com que os parlamentares agem. Em vez de se ater à análise dos fatos que levaram à suspeita de que o deputado poderia ter incorrido na quebra da ética e do decoro, o relator optou por descartar de plano a ocorrência de irregularidades. Preferiu ver naquela suspeita um esquema persecutório promovido pela imprensa, que teria escolhido o deputado do castelo como “boi de piranha”.

O desprezo pela opinião da sociedade e a quase certeza que esses políticos têm de que serão reeleitos mesmo quando réus de processos criminais revelam a fragilidade de instituições tão fundamentais como são as casas legislativas para a democracia. Nos procedimentos do Conselho de Ética, o que está em causa não é a existência de crimes, pois estes teriam que ser investigados e julgados pelo Supremo Tribunal Federal. Está em causa, sim, a ocorrência de fatos antiéticos ou a quebra de decoro parlamentar, mesmo que não necessariamente criminosos. O fortalecimento desses mecanismos de fiscalização e controle do comportamento parlamentar não deve ser visto unicamente como uma resposta do Congresso à opinião pública, mas como uma ferramenta de aperfeiçoamento das mais democráticas instituições de um sistema representativo, que são as casas legislativas. Infelizmente, vozes como a do deputado Sérgio Moraes não colaboram para melhorar a imagem dos políticos. Tanto quanto as ocorrências de irregularidades, o que desprestigia o Congresso é ver que um suicida espírito corporativo as tolera ou, pior ainda, as defende, preferindo atribuir culpa a um hipotético e delirante complô dos meios de comunicação.

DESPRESTÍGIO
Tanto quanto as ocorrências de irregularidades, o que desprestigia o Congresso é ver que um suicida espírito corporativo as tolera ou, pior ainda, as defende.

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