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20 de abril de 2009 | N° 15945AlertaVoltar para a edição de hoje

Musa por trás das câmeras

Atriz Fanny Ardant estreia como diretora

Lapidando Cinzas e Sangue (Cendres et Sang), projeto que marcará sua estreia como diretora de longas-metragens este ano, Fanny Marguerite Judith Ardant, símbolo sexual francês que pôs o cinema a salivar de desejo ao estrelar A Mulher do Lado (1981), de seu então marido François Truffaut (1932 – 1984), hoje vê a arte que a consagrou em estado de letargia.

– Ninguém produziria Pasolini, Marco Ferreri nem mesmo Antonioni hoje em dia. Se o cinema quiser uma nova Nouvelle Vague (movimento que modernizou o audiovisual francês a partir de 1959, com diretores como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e o próprio Truffaut), ele precisa de uma nova geração de produtores independentes da televisão. TV é segurança, acomodação. Cinema é angústia – diz a atriz de 60 anos, em entrevista por telefone, explicando por que viajou a Israel para atuar em Segredos Íntimos (Ha-Sodot), de Avi Nesher, que teve pre-estreia recente no Rio de Janeiro.

Eleita um dos rostos mais bonitos do planeta na década de 1980, a ex-estudante de Relações Internacionais que debutou nos palcos em 1974 interpreta Anouk, testemunha da opressão contra a mulher no ortodoxo Israel de Segredos Íntimos, uma reflexão sobre fé e amizade entre mulheres.

– É um erro reduzir uma cultura como a de Israel a um único padrão de comportamento. A tolerância e a repressão convivem lá como em qualquer outro lugar onde exista um processo democrático, com o agravante dos conflitos políticos locais – observa a atriz. – O acerto de Avi Nesher em Segredos íntimos é de abordar aquela sociedade sob o ponto de vista da juventude. Jovens não carregam peso sob as costas, por isso eles podem salvar a cultura.

Falando do compromisso das novas gerações com a esperança, Fanny evoca a atitude revolucionária que marcou Truffaut e seus contemporâneos de Nouvelle Vague. Com o cineasta, que a dirigiu ainda em De Repente, num Domingo (1983), filme pelo qual ela veio ao Rio na década de 1980, a atriz teve lições de encantamento.

– Truffaut era como Proust (autor de Em busca do Tempo Perdido). Quando se lê Proust, temos a sensação de que ele está falando de nós, falando para nós. Truffaut criou uma estrutura de filmar que era assim, direta. Tenho a sensação, revendo o cinema francês, de que, por mais dura que a vida seja, filmes como os de Truffaut, Louis Malle e Alain Resnais tornam as coisas mais prazerosas – diz Fanny, que constrói seu primeiro filme como cineasta em alusão à literatura de Ismail Kadaré, autor de Abril Despedaçado.

Produzido pelo português Paulo Branco tendo como meta o Festival de Cannes, que começa no dia 13 de maio, Cinzas e Sangue acompanha a saga de Judith (a israelense Ronit Elkabetz) e seu retorno à sua Romênia natal anos após o assassinato de seu marido. Fanny se debruça sobre sua nova experiência estética cheia de críticas acerca da produção cinematográfica e da situação política de seu país.

– Na França, hoje, nada acontece. Eu não sou a pessoa mais inteirada dos fatos, mas, em relação a (o presidente francês Nicolas) Sarkozy, há uma ala satisfeita, e outra não. Eu não sei muito sobre Lula, mas tenho a imagem dele como a de um homem corajoso. Talvez Sarkozy tenha tido seus gestos de coragem. Mas me parece mais que seu governo hoje tira proveito da insegurança do povo diante de possíveis ameaças terroristas. O novo filme de Costa-Gavras dá uma ideia do que estamos vivendo – diz a atriz, citando o papa do thriller político, que a dirigiu em Conselho de Família (1986).

Eden à l’Ouest, o novo filme de Costa-Gavras, é, segundo Fanny, um retrato de um dos maiores dramas da realidade francesa: a explosão do fluxo migratório de estrangeiros da África, da Ásia ou do Leste Europeu.

– Quando Costa fala de imigração, ele aponta uma situação que tem agravado a desigualdade social na Europa. Talvez por isso hoje se fale pouco do cinema de Costa-Gavras, porque ele é honesto. Com Truffaut, a questão é outra. Se as pessoas não falam dele, talvez seja porque tenham dificuldade de encarar o amor da maneira como ele o encarava – diz a atriz, que se surpreende ao saber do êxito de produções francesas no circuito brasileiro.

Sorrisos fartos são sua reação à notícia de que A Culpa é do Fidel, de Julie Gavras, permaneceu um ano em cartaz nas telas do Brasil.

– O cinema tem uma peculiaridade que a TV nunca vai desfrutar: às vezes, um filme que é tratado sem valor algum em seu país de origem ganha asas no mercado internacional e vira um sucesso – diz a atriz, que está no elenco de Visages, o novo longa do taiwanês Tsai Ming-Liang (O Buraco), ao lado de Jean-Pierre Léaud, “muso” de Truffaut.

Embora guarde boas recordações do Brasil, ela anda desatualizada em relação ao cinema nacional.

– Paris é uma cidade onde você pode ver filmes de todas as partes do mundo. Mas não vi as novas produções brasileiras – diz a atriz, que estranha o espanto que ainda gera por sua beleza. – É um doce quando me chamam de musa, embora ache que estão falando de outra pessoa.

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