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O Rio Grande do Sul está sendo governado à distância desde o início da tarde de quinta-feira. Para surpresa de integrantes do governo e da Assembleia Legislativa, a governadora Yeda Crusius viajou para San Francisco, nos Estados Unidos, para passar o feriado de Páscoa ao lado do filho Cesar Augusto Crusius, da nora e das duas netas – mas não transmitiu o cargo às autoridades que ficam na linha de substituição. A volta da governadora à Capital está prevista para a noite de domingo.
Como o vice-governador Paulo Afonso Feijó está em Punta del Este, no Uruguai, também desde quinta-feira, a missão de assumir o governo seria do petista Ivar Pavan, presidente da Assembleia.
Para evitar a entrega do cargo máximo do Executivo para o desafeto Feijó ou para o maior partido de oposição, o Piratini se ampara em um parecer de sete páginas da Procuradoria-Geral do Estado. O documento, produzido em 2007, menciona a evolução tecnológica como argumento para que o governador exerça seu
mandato de qualquer parte
do mundo. Além disso, uma liminar de 1992 retirou da Constituição Estadual a previsão de perda do cargo pelo governador que deixar o país sem transmiti-lo.
Yeda embarcou para São Paulo em voo de carreira e, de lá, para os Estados Unidos. Mesmo no governo, poucos sabiam da jornada de Yeda para os Estados Unidos até o dia da viagem. Na agenda de quinta-feira, não havia referência ao deslocamento.
Era final da manhã quando ela comunicou o chefe da Casa Civil, José Alberto Wenzel, de que sairia do país. Yeda pediu a ele que encaminhasse o aviso à Assembleia. Em nenhum momento, conforme o secretário, a governadora cogitou transmitir o cargo. Como não havia expediente no parlamento na tarde de quinta-feira, Wenzel resolveu ligar para Pavan, que estava em Erechim.
– Do ponto de vista legal, ela não precisava passar o cargo. Do ponto de vista político, é uma escolha que não cabe a mim discutir – disse o presidente da Assembleia.
Outros
colaboradores comentaram que ficaram sabendo da
viagem na manhã de quinta-feira, no Piratini, durante a solenidade de entrega da Medalha Negrinho do Pastoreio ao major-brigadeiro-do-ar Raul José Ferreira Dias, comandante do 5º Comando Aéreo Regional de Canoas.
Depois da solenidade, Yeda não foi mais vista no palácio. No final da tarde, quando o Piratini costuma publicar em seu site a agenda da governadora para o dia seguinte, não havia compromissos previstos para sexta-feira.
– A governadora não comunica onde ela vai. Mas sei porque teve uma solenidade no palácio, condecoração na quinta-feira pela manhã, e ela nos disse que estaria indo para a California. Foi passar a Páscoa com netos. Vi que ela comentou isso – disse o secretário da Fazenda, Ricardo Englert.
Para oposição, Assembleia foi desprestigiada pelo Piratini
Por meio de assessores, o vice-governador disse não estar disposto a se manifestar sobre o fato. Segundo a assessoria, Feijó avisou o Piratini na
segunda-feira de que estaria no Uruguai – mas não foi
informado da viagem de Yeda.
Na manhã de ontem, o secretário do Planejamento, Mateus Bandeira, se surpreendeu com a ausência da governadora. Ele havia conversado com ela por telefone na quinta-feira e não fora informado da viagem.
Outros nomes do primeiro escalão, como Englert, viram a viagem com naturalidade.
– Não acho estranho porque tenho certeza de que, se precisar falar com ela, ligo para o celular e falo em 30 segundos. Hoje, esse princípio de estar ou não estar muda muito com a tecnologia. Yeda pode não estar fisicamente aqui, mas está ao alcance da gente. Não vejo nenhum problema nisso – disse o secretário da Fazenda.
O próprio Wenzel diz ter conversado com a governadora por telefone duas vezes depois do embarque.
– A governadora Yeda precisava destes dias para ela. Ela chegou à Califórnia, no horário local, por volta das 14h. Está mantendo contato por telefone e e-mail, e tudo está fluindo normalmente –
disse o chefe da Casa Civil.
Na oposição, além da
surpresa em saber que o Estado estaria sem governador durante o feriadão, a avaliação foi de que a relação conflituosa de Yeda e Feijó atrapalha institucionalmente o Estado.
– Eles não conseguem trabalhar em conjunto. E essa incapacidade inviabiliza uma convivência republicana – comenta o líder de bancada Elvino Bohn Gass (PT).
Para Adão Villaverde (PT), a Assembleia foi desprestigiada porque o Piratini enviou o comunicado na tarde de quinta-feira, quando não havia expediente:
– Além do desprestígio a Feijó e Pavan, foi desprestígio ao Estado de direito, já que deixou o Rio Grande do Sul sem comando. E se ocorre uma emergência?
adriano.barcelos@zerohora.com.br
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