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Responsável pela mais controversa investigação da Polícia Federal (PF) na Era Lula, o delegado Protógenes Queiroz está com os dias contados dentro da corporação.
Acusado de montar uma rede de espionagem clandestina que bisbilhotou autoridades dos três poderes da República, advogados e jornalistas, Protógenes deve ser indiciado pelos crimes de interceptação telefônica sem autorização judicial e violação de sigilo funcional. Se condenado, pode pegar até seis anos de prisão. Seu destino na PF, porém, já está selado.
– Ninguém mais quer trabalhar com ele aqui dentro – assinala um dos chefes do delegado.
Oito meses após deflagar a Operação Satiagraha, na qual levou à cadeia o banqueiro Daniel Dantas, o especulador Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, o delegado hoje vaga pelo edifício-sede da PF em Brasília. Transferido da Diretoria de Inteligência, segue lotado na Coordenação Geral de Segurança Institucional da PF.
Com
as atribuições esvaziadas pelos superiores, na
prática Protógenes apenas cumpre expediente. Seus compromissos mais frequentes são as palestras que tem ministrado em universidades e sindicatos, verborragia que a PF quer estancar. Em breve, ele não será mais autorizado a deixar o trabalho para pregar contra o governo, a oposição, a polícia, a Justiça, a imprensa e, claro, contra Dantas, a quem só se refere como “banqueiro bandido”.
A irritação com Protógenes é antiga na cúpula da PF. Por conta do temperamento neurótico, o delegado sempre sonegou informações aos superiores sobre o andamento da Satiagraha. Na véspera das prisões, em 7 de julho do ano passado, ele se negou a fornecer detalhes considerados imprescindíveis, como os alvos, os locais de busca e até mesmo acesso às decisões judiciais que respaldavam a operação.
Diretor-geral da Polícia Federal se considera traído
Seu maior desafeto é o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa. Ele se considera traído pelo subalterno e
pelo principal padrinho do delegado na corporação,
o ex-diretor-geral Paulo Lacerda. Tão logo passou o comando da PF a Corrêa, em 2007, Lacerda fez um único pedido ao sucessor: que mantivesse Protógenes à frente da Satiagraha. Corrêa aquiesceu, mas desde então não esconde o arrependimento.
Corrêa não tolera que Lacerda, então na chefia da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), tenha cedido arapongas à Satiagraha. Com a ajuda de Protógenes, os agentes ingressavam na Diretoria de Inteligência, uma das áreas mais restritas da sede da PF em Brasília e para a qual sequer Corrêa dispõe de senha de acesso. Até na redação do relatório da Satiagraha houve interferência de Lacerda.
– Foi um festival de mentiras. Primeiro eram cinco ou seis arapongas, depois eles falaram em 56. Hoje temos depoimentos de 84 agentes da Abin confirmando envolvimento na operação – desabafa um delegado que acompanha as investigações.
Documentos e HDs apreendidos na casa de Protógenes no final do ano passado revelam que ele
grampeou inclusive superiores. Um dos
arquivos de áudio de posse da CPI dos Grampos contém oito minutos de gravação de uma conversa do delegado com o então chefe da Divisão de Repressão aos Crimes Financeiros da PF, Paulo de Tarso Teixeira. Num único pen drive, foram encontrados 21.763 arquivos, desde escutas e vídeos a pastas criptografadas, cujo conteúdo a CPI ainda não conseguiu acessar.
Desde novembro do ano passado, quando a PF começou a desvendar as irregularidades cometidas na Satiagraha, o governo decidiu isolar Protógenes. Por decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lacerda ganhou uma saída honrosa. Desde dezembro do ano passado, ele ocupa o posto de adido policial na embaixada brasileira em Portugal. Já Protógenes tem os passos vigiados de perto pelo governo.
– Vem coisa muito mais grave por aí. O Protógenes se mata sozinho. É um fanfarrão, a “lenda” – ironiza um frequentador assíduo do Ministério da Justiça, em alusão ao título da autobiografia que o delegado estaria
escrevendo.
fabio.schaffner@gruporbs.com.br
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