Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
No segundo dia da série sobre a transformação populacional que o Estado atravessa, com diminuição da maioria das cidades, ZH mostra como os pequenos municípios estão ficando ainda menores, pela migração.
o solo dos pequenos municípios das regiões norte e noroeste do Estado, o que mais brota são migrantes.Em um fenômeno de despovoamento de proporção inédita, as menores cidades ficaram ainda menores nesta década.
Famílias inteiras vão alimentar a voracidade de polos em expansão, lavouras viram mato, casas tornam-se taperas e de comunidades numerosas só restam ruínas. Entre 2000 e 2007, 271 municípios, 55% do total, encolheram. Dos cem que mais perderam gente, 90 têm menos de 10 mil habitantes.
A foto da formatura, em 2006, de uma turma de Ensino Médio de Barra do Rio Azul, cidade que encolheu 16% em sete anos, é um retrato da debandada. Dois anos depois da entrega dos diplomas, sete dos 13 estudantes flagrados pela câmera já não podem ser
encontrados no cenário. Dos que ficaram, dois
faziam planos de também ir embora.
O sugadouro de gente é Erechim, que aumenta em um ritmo quase duas vezes maior do que a média do Estado em uma região onde todos os outros municípios diminuíram de tamanho. Dos 13 colegas da Escola Estadual Cardeal Leme, seis estavam lá no final do ano. Alexandra Zorzi, 19 anos, não esperou: mudou já em janeiro de 2007, para fazer faculdade e trabalhar. Foi embora para não voltar porque em Barra do Rio Azul, tirando a roça e os empregos da prefeitura, não há trabalho.
– Meu desejo sempre foi ficar em casa, mas não queria ser sustentada pelos pais e descobrir, aos 30 anos, que perdi minha chance. Ou ficava naquele mundinho ou saía para viver. Valeu muito a pena, pelo que vejo dos que ficaram lá. Não há perspectiva além da roça. Mas sinto muita saudade. Eu e minha mãe gastamos mais em telefone do que em qualquer outra coisa – conta.
O colega Felipe Vanzetto aguentou quase dois anos na propriedade dos pais, ajudando com
vacas leiteiras. No final do ano,
finalmente realizou o plano de procurar emprego em Erechim. Foi chamado no mesmo dia, contratado em três e enviado a Porto Alegre para um treinamento uma semana depois. Na Capital, onde foi localizado por Zero Hora, impressionou-se com os 37 mil colorados – 18 vezes a população de sua cidade – que encheram o Beira-Rio na partida entre Inter e Boca, sua primeira. Perdeu a voz de tanto gritar.
– Não é que lá em Barra não tem muita alternativa. Não tem nenhuma. Fazia praticamente dois anos que eu não via a hora de pôr o pé na estrada –diz.
Dos colegas de aula que ficaram na Barra, a maioria não teve opção. Luana Vicentini, 19 anos, queria estudar e trabalhar na cidade grande, mas faltou dinheiro. Casou e foi ajudar na propriedade rural dos sogros. Acorda às 6h30min para a ordenha:
– Vontade de ir para a cidade todos têm. É uma vida mais fácil. Não vai trabalhar na roça debaixo do sol quente o dia inteiro. Eu, que fiquei, sinto falta de gente da minha
idade.
Caçula de oito irmãos,
Agostinho Santore, 19 anos, foi o único a permanecer em casa. Os pais são idosos, e ele abriu mão do sonho de ir para a cidade para não deixá-los sozinhos na lavoura. Na casa onde moravam 10, agora sobra espaço. Ele é o único na sua faixa etária em toda sua comunidade:
– É bem solitário. A maioria se foi. Mas eu não posso deixar o pai e a mãe sozinhos.
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