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12 de janeiro de 2009 | N° 15846AlertaVoltar para a edição de hoje

A vida de quem fica

Do salão de baile onde Jovelino e Sirleide Pertuzzati se conheceram e dançaram pela primeira vez, quatro décadas atrás, restou só parte do piso. A lembrar a capela de tantas missas assistidas, ficaram uns poucos tijolos quebrados. A escola dos filhos virou mato. No cemitério onde repousam seus antepassados, cruzes apodrecidas e túmulos quebrados se enfileiram.

As ruínas são quase tudo o que sobrou do tempo em que a Linha Caçador, no interior de Barra do Rio Azul, era uma comunidade numerosa, com quase 40 famílias. Hoje, o casal tem apenas três vizinhos, o mais próximo a três quilômetros. O lugarejo rural esvaziou-se ao longo desta década, sacrificado pela migração maciça. Dos cerca de 50 Pertuzzati que viviam na linha, restam Jovelino, 55 anos, Sirleide, 53 anos, e a mãe dele, Gentília, 79 anos. O trio ficou ilhado por terras sem cultivo e taperas.

– Na comunidade, tinha missa, bailezinhos, festas. Era o centro do convívio. Quando destruíram, foi uma tristeza. Agora parece que estamos abandonados aqui, sem amigos. Foram todos embora. Decerto é melhor na cidade – especula Sirleide.

A morte da Linha Caçador é exemplo do que ocorre por toda parte nos municípios pequenos. Desiludidos com a agricultura e atraídos pela promessa de emprego com salário certo na cidade, colonos estão deixando a roça. Em comunidades antes cobertas de lavouras, restam agora punhados de idosos, que não dão conta de conter o avanço do mato. Na Linha Rakaloski, em Itatiba do Sul, município 13% menor desde 2000, Cassemiro Boiareski, 76 anos, sobe mais de um quilômetro de morro para chegar ao seu roçado e se esfalfar segurando a junta de bois na plantação. Ele ficou só com a mulher na propriedade de 10 hectares. Dos filhos e netos, raros seguem na agricultura. Com os braços já cansados e sem ajuda, ele só suporta lavrar uma área 10 vezes menor do que quando os filhos estavam em casa:

– O último filho tentou trabalhar com vaca de leite, mas não deu certo. Ele veio me dizer: “Pai, vou experimentar a cidade”. Foi para Chapecó e se deu bem.

A persistência de Boiareski não é a regra. Nesta década, quase metade da comunidade foi embora. Perto da sua fazenda, restam poucos vizinhos. Os mais próximos já anunciaram a saída. Erci e Lurdes Santa Catarina, 61 e 56 anos, venderam a terra para comprar casa em Erechim e ficar perto dos filhos.

– Aqui não dá mais para viver. Temos de dar os ovos para os cachorros, porque eles não têm preço. Os mais novos foram trabalhar e estudar na cidade. Os velhos seguem atrás, para não ficar sozinhos – diz Lurdes.

Em Benjamin Constant do Sul, 17% menor em sete anos, Neri Biazzi e a mulher, Amélia, ambos de 53 anos, perderam os quatro filhos para cidades de indústria florescente. Dois estão em Chapecó (SC) e dois em Erechim. Na comunidade onde resistem, a maioria dos moradores se foi. Eles moram com a neta Eluana, 10 anos, em uma casa sem telefone e com fogão à lenha, abastecida com água de sanga. Neri não pretende sair porque ainda faltam nove anos para terminar de pagar seus 13 hectares.

– A gente encurta a boia para pagar a prestação do banco. Agora que fiz a dívida, tenho de baixar o lombo e trabalhar.

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Saiba mais sobre as razões para o esvaziamento dos pequenos municípios:

- Crise na agricultura levou a declínio

- O dilema dos encolhidos

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