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A tolice é a rainha das inutilidades. Sabe reinar como ninguém, com aquele poder despótico que já nenhum monarca tem e disfarça o absolutismo fazendo que a idiotia inútil soe como necessidade premente e ingente.
A tal de reforma ortographyca, agora imposta sob o pretexto de “unificar” o idioma nos países lusófonos, é a primeira grande tolice do novo ano, preparada durante duas décadas com o mesmo afinco inútil dos inventores da água morna. Sim, pois há muitos séculos só havia água fria e água fervente, até que – num daqueles descuidos comuns na ciência – deixaram o tacho quente à intempérie e acabaram descobrindo a água morna!
A ortografia não é invenção a esmo, mas o lado visível do processo histórico da linguagem. A correta ortografia é a que se repete e tem raízes na tradição do repetir-se. Os sabichões daqui e de além-mar que inventaram a nova reforma ortographyca esqueceram-se disso e, reis absolutos, impuseram inauditas e frívolas normas que complicam o
cotidiano e atravancam o ensino
do próprio idioma.
Unificaram o quê? E para quê? A riqueza está na diversidade que leva à unidade, não na unificação!
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Na caminhada do idioma, primeiro os acentos definiam a etimologia das palavras, mostravam de onde vinham. Até o “acordo ortográfico de 1943”, escrevia-se “bôa” para que o circunflexo marcasse que ali se abolia uma letra e que já não mais se dizia “bona”. O francês conserva até hoje essa regra e na França escreve-se melhor do que aqui e, lá, eles são mestres no raciocínio. (Isso é fruto da matemática cartesiana – dirão –, mas se expressa em palavras.)
Nos últimos 60 anos, a fonética (ou formas de dizer) passou a pesar na ortografia, junto à etimologia das palavras.
A recentíssima reforma ortographyca, porém, priorizou o vácuo, ou o vento. Aboliu mil tremas e inventou outras tantas. Esmerou-se em cortar o hífen e inventou rr ou ss duplos em palavras compostas, oficializando a
tolice de escrever-se “autorretrato” ou “antissocial”.
Adiantou-se na idiotice e aboliu o trema que marcava o histórico “u” sonoro em “freqüente”, “lingüiça”, “bilíngüe” e similares. Com isto, a rainha tola modificará pela força a fonética do idioma: no futuro, dirão “frequente”, “linguiça” ou “bilingue” como hoje pronunciamos “quente”, “enguiço” ou “guerra”.
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Se retirar acentos universalizasse o mundo, não haveria matanças na Faixa de Gaza, pois o hebraico e o árabe não têm acentos gráficos!
A reforma ortographyca esquece que a etimologia e a fonética dão vida à língua e à cultura.
Hoje, já não se sabe sequer o significado das palavras e o vocabulário empobreceu-se. Mas isto não preocupou os doutos sabichões. A TV, o rádio e a imprensa cada vez usam menos termos e menos ideias ao narrar situações. E a pobreza chega à literatura. Para substituir o pauperismo fonético (pois a escrita é reprodução da fonética), apelam-se às imagens corriqueiras, não à diversidade de
termos, ou de ideias.
Entre os políticos, a
torpeza de vocabulário faz usar o futebol como metáfora em tudo. Mestre nisso é o presidente Lula da Silva e, agora, a governadora Yeda Crusius. Ao anunciar a renúncia do secretário da Fazenda, a governadora nos tranquilizou, assegurando que temos “vários Ronaldinhos e muitos goleiros” ou até “um time completo” com “campeãs mundiais de futebol”.
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Sempre que se deparava com algum pedante autointitulado “escritor” ou “intelectual”, meu pai perguntava-lhe educadamente: “Qual é sua média de vírgula por página?”. Se o “escritor” titubeasse por alguns segundos ou respondesse com números, meu pai sabia que estava à frente de um farsante. Ou de um ignorante (às vezes inteligente, até) em busca de notoriedade.
E se os sábios doutores da gramatiquice decidirem, agora, sobre a média de vírgulas?
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