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11 de janeiro de 2009 | N° 15845AlertaVoltar para a edição de hoje

O Pampa se esvazia

A chamada final para o embarque soa na rodoviária de Rosário do Sul. Agarrado à mãe até o último instante, Rodrigo Trindade de Souza, 19 anos, escuta as derradeiras palavras de despedida, recebe um abraço mudo do pai e sobe os degraus do ônibus, levando para Caxias do Sul um endereço rabiscado em um papel e um sonho que está embalando uma geração de jovens do pampa gaúcho.

Noite após noite, a linha da empresa São João deixa Santana do Livramento e recolhe pelo caminho levas de migrantes que, como Rodrigo, trocam a falta de perspectivas no sul do Estado pelas promessas de emprego farto na Serra. A linha Livramento-Caxias é o símbolo da sangria populacional em uma região que, no passado, movia o desenvolvimento gaúcho com a riqueza de suas pastagens e frigoríficos. Hoje, estagnada, sem indústrias ou empregos, só exporta gente.

As grandes cidades do Pampa estão definhando. A estimativa é de que a Campanha e a Fronteira Oeste expulsaram mais de 63 mil pessoas entre 2000 e 2007. Livramento encolheu em 7,3 mil habitantes, uma queda de 8%. À debandada nas planícies corresponde a efervescência de um novo eldorado no topo do Estado. Alimentados pelas hordas que desembarcam a cada dia em suas rodoviárias, os municípios da Serra receberam 46 mil migrantes no mesmo período.

ZH embarcou com Rodrigo no expresso da migração no final do ano. Cada uma das poltronas do ônibus contava um pouco da história que está transformando o mapa demográfico gaúcho. Dos 13 passageiros, seis trocaram o Pampa pela Serra, seis visitariam parentes que foram embora e o último era um migrante frustrado, organizando o retorno à terra natal. A São João, que tornou a viagem diária há quatro anos, por causa da demanda, estima que levou para morar na região serrana 6 mil pessoas desde então.

Na poltrona ao lado do jovem, senta uma personagem que se multiplicou nas cidades minguantes ao sul: o da mãe que perdeu a prole para a pujança da Serra. Ledi Medeiros da Silva, 52 anos, viaja pela primeira vez a Caxias para averiguar com os próprios olhos a situação dos filhos, Cleber e Cristiene, que saíram de casa três meses antes para se juntar a parentes que já haviam migrado.

– Eu sinto muita saudade do entra-e-sai deles pela casa. Mas se é para ficarem aqui parados, prefiro que estejam longe e trabalhando – comenta.

Quartos vazios como os de Cleber e Cristiene multiplicam-se pela faixa que vai de Itaqui a Bagé, passando por Livramento e chegando até Cachoeira do Sul. Leontina Therezinha da Rosa, 50 anos, chora à noite a saudade do tempo em que 18 pessoas da família dividiam o mesmo lar em Alegrete. Aos poucos, ao longo de uma década, a casa foi ficando grande, e a família, pequena. Hoje, 14 dos 18 foram embora, incluindo os dois filhos, Ana Paula, 27 anos, e Luciano, 22 anos. Os netos de Leontina já são caxienses.

– Quando vi, todo mundo havia ido embora. Entrei em depressão, não saía da cama. Alegrete está sumindo. Todo dia, a gente pergunta por alguém da vizinhança e escuta: "Foi embora para Caxias" – relata.

O declínio econômico já enfileira casas vazias em bairros que eram ícones de prosperidade. O Armour, em Livramento, nasceu a partir do frigorífico de mesmo nome, que chegou a empregar 5 mil pessoas. Nos final dos anos 90, a empresa quebrou, como outras da cidade. Sem ter onde bater para arranjar trabalho, moradores trancaram a casa e ganharam a estrada. O comércio morreu, o hospital foi fechado, do clube social sobrou só um portão enferrujado. Em outro bairro operário semiabandonado, o Parque São José, Suzi Guedes, 31 anos, ficou com as filhas enquanto o marido cava dinheiro na Serra para levar o resto da família.

– Meu marido liga e chora, querendo voltar. Eu morro de saudade, mas digo para ele aguentar mais um pouco – conta ela.

No amanhecer do dia seguinte à viagem, Rodrigo Trindade de Souza desperta dentro do expresso da migração, alertado pelas luzes da grande cidade. Depois do abraço triste da mãe e do pai, em Rosário, oito horas antes, espera-o à porta do ônibus o cumprimento alegre do primo Diego Fontoura, 23 anos, um ano de Serra, modelo do que o mais novo habitante de Caxias espera para si: emprego bem-remunerado, apartamento em zona nobre e mobília brilhando de nova.

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