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As maternidades cederam lugar às estradas como espaço onde as transformações populacionais ocorrem no Rio Grande do Sul. O declínio do número de filhos por mulher, combinado com fenômenos maciços de transferência de população entre cidades, está redesenhando a distribuição dos gaúchos pelos pagos. Entre 2000 e 2007, pela primeira vez na história, diminuir de tamanho tornou-se a regra, e não a exceção para as regiões do Estado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 271 dos 496 municípios 1397059140 55% do total 1397059140 encolheram.
Em muitos casos, a redução foi dramática. Engenho Velho, exemplo da sangria de gente experimentada pelas pequenas cidades rurais do norte gaúcho, viu um quarto de seus moradores evaporar em sete anos. Ao Sul, núcleos tradicionais do Pampa, como Santana do Livramento e Alegrete, minguam ao ritmo anual de mil pessoas. A contrapartida do fenômeno é o aparecimento, no Interior, de polos que crescem a índices alucinantes – caso
de Caxias
do Sul, 6 mil novos moradores por ano. Para lá transferiram suas esperanças, perdidas na sua Rosário do Sul, os primos Rodrigo e Diego Fontoura.
– Aqui dá para escolher emprego – diz Rodrigo.
A disparidade se explica por um fator que assumiu força renovada na demografia do Estado: a migração. Só crescem as cidades que conseguem atrair migrantes – enquanto as que expulsam gente diminuem, por não haver mais a reposição garantida no passado pela abundância de nascimentos. O número de filhos por mulher, de 5,2 entre as gaúchas em 1950, despenca década a década.
Em 2000, estava em 2,1, taxa que ainda garantia a reposição de habitantes. Foi para 1,7 em 2005. A regra agora é importar gente ou morrer.
– Sempre houve transferência de gaúchos entre cidades, mas na última década, com o despencar das taxas de fecundidade, a migração se tornou o principal elemento de mudança populacional – analisa o economista Pedro Silveira Bandeira, da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Umas
poucas cidades industrializadas – como Caxias, Passo Fundo e Erechim – viraram sorvedouros da população que foge de centenas de municípios em franco declínio. Os gaúchos estão se concentrando em uns poucos núcleos com oferta farta de emprego urbano – e a novidade é que eles não são mais apenas da Região Metropolitana. É uma concentração de renda e de riqueza. Enquanto o peso da população das 25 maiores cidades passou de 51,9% para 52,8% no total do Estado de 2000 a 2007, o Produto Interno Bruto (PIB) destas localidades saltou de 53,4% para 59%. Municípios com economia baseada na agricultura são as vítimas.
– É um problema de desenvolvimento. Começa a faltar gente, que é o fator mais importante para ele ocorrer. As comunidades rurais estão cada vez com menos pessoas. Vai chegar um ponto em que elas desaparecerão – avalia o professor Nedio Piran, que investiga fenômenos migratórios.
A tendência de queda apareceu de forma pronunciada na Contagem Populacional de 2007,
realizada pelo IBGE. No
Brasil, 32% dos municípios perderam gente, na comparação com o Censo de 2000. Houve questionamentos sobre a precisão da Contagem, mas mesmo que ela tenha falhas, restam poucas dúvidas de que o Estado e o país estão em transição para um novo modelo demográfico.
As reviravoltas provocadas por essa equação populacional são o tema desta série de reportagens, que será publicada de hoje a quarta-feira. Zero Hora mostrará como os novos movimentos estão deixando comunidades em ruínas, esvaziando de jovens municípios pequenos, transformando metrópoles em cidades-dormitório, mudando o perfil de regiões, mergulhando na solidão cidades que foram símbolo da pujança gaúcha no passado e anuviando perspectivas de futuro.
– Ficam só os velhos, sem força – diz Jairo Cima, que encerrou mandato de prefeito de Benjamin Constant do Sul, 17% de população a menos desde 2000.
No primeiro dia da série, ZH revela a nova onda migratória que, na esteira da transferência de
riqueza do campo para as fábricas, inchou
as cidades da Serra ao custo da desocupação do Pampa. Segundo uma estimativa baseada em dados do IBGE feita pelo economista Pedro Silveira Bandeira, os municípios serranos receberam em torno de 47 mil migrantes nesta década. No período, a Campanha e a Fronteira Oeste, os maiores fornecedores de gente do Estado, expulsaram 63 mil.
itamar.melo@zerohora.com.br - silvia.lisboa@zerohora.com.br
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