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08 de dezembro de 2008 | N° 15813AlertaVoltar para a edição de hoje

Solidariedade de mão em mão

De mão em mão, a ajuda chega às vítimas da calamidade em Santa Catarina. A rede de solidariedade desencadeada pelos desmoronamentos e cheias que provocaram a morte de mais de uma centena de pessoas e deixaram milhares desabrigadas reúne uma multidão de rostos anônimos em todo o país.

Para retratar a rota da ajuda ao Estado vizinho, ZH acompanhou o deslocamento de uma doação feita na quarta-feira à tarde em Porto Alegre. Depois de serem entregues pelo psicólogo Thiago Gomes de Castro, 25 anos, quatro galões de água mineral – um total de 20 litros – viajaram 604 quilômetros até Daniela Fernanda Tomson, uma dona de casa de 30 anos moradora de Gaspar, um dos municípios mais atingidos.


Em vídeo, acompanhe a viagem da doação
de Porto Alegre até Gaspar


Alojada com a mãe depois de ter a própria casa condenada por um deslizamento, Daniela não pode beber água da torneira pelo risco de contaminação. A rede de abastecimento do município foi afetada.

Além dos quatro galões, o 55° veículo a partir com donativos do Rio Grande do Sul rumo a Santa Catarina transportou sete toneladas de leite, água mineral, arroz e agasalhos. Nas 25 horas entre a origem e o destino, o produto passou por pelo menos cinco intermediários, mãos que afagam os flagelados catarinenses.

Quarta-feira- 14h48min – Doar

Comovido com as imagens da destruição do Vale do Itajaí a que assistiu na TV, o psicólogo Thiago Gomes de Castro (abaixo, à E), 25 anos, decide ajudar os desabrigados de Santa Catarina.

Em um supermercado de Porto Alegre, compra 20 litros de água mineral e entrega na Central de Doações da Defesa Civil, no Centro Administrativo. Além de agasalhos e alimentos, a maioria dos atingidos não tem acesso à água potável. Os deslizamentos de terra e as cheias dos rios atingiram os pontos de captação e, em alguns locais, contaminaram a água, trazendo risco da leptospirose, doença transmitida pela urina do rato.

– É algo que poderia ter acontecido com qualquer pessoa. Temos de ajudar – afirma Castro, que ainda mobiliza colegas para ampliar as doações.

Os quatro galões são acondicionados na carreta por Rafael de Oliveira Medeiros, 22 anos, auxiliar administrativo do Comitê de Ação Solidária do Gabinete da Governadora. Ajudar os outros faz parte de suas atribuições, seja na Campanha do Agasalho ou em mobilizações a municípios atingidos por desastres.

Quarta-feira- 17h – Transportar

Carregada com caixas de leite, bombonas de água mineral e fardos de arroz, a carreta cedida pela transportadora Rodoviário Nova Era, de Canoas, deixa a Central de Doações sob chuva.

É o primeiro carregamento de donativos a desabrigados em 27 anos de estrada para o motorista Luiz Antonio da Silva Bitencourt (abaixo), 49 anos.

– Nunca passei por uma situação igual a dessas pessoas, mas em Nova Santa Rita, onde moro, já vi pessoas perdendo tudo em enchentes. Esta é uma viagem diferente, é o caminhão da solidariedade – diz, a caminho de Gaspar.

O proprietário da transportadora, Gilmar Alberto Michellon, emprestou veículo e motorista e desembolsou combustível atendendo à solicitação da Defesa Civil gaúcha. No primeiro fim de semana de chuvaradas e desabamentos, ele teve cerca de 10 caminhões retidos nos bloqueios da BR-101.

Por isso, na condução da carreta, utilizada pela primeira vez em viagens para fora da Região Metropolitana, Bitencourt redobra o cuidado com o veículo. Depois de uma parada na sede da empresa, em Canoas, a carreta segue rumo a Gaspar. À 0h15min, é feita uma parada para dormir. A viagem é retomada às 6h de quinta-feira.

Em vários trechos, a velocidade precisa ser reduzida a 20 km/h por causa da buraqueira na qual se transformou a BR-101 na área catarinense. A carga especial percorre 604 quilômetros sem contratempos. A chegada ao Centro de Captação de Donativos ocorre às 11h50min de quinta-feira.

Quinta-feira- 13h34min – Retirar

Estacionada no pátio do Ginásio Prefeito João dos Santos, transformado no Centro de Captação de Donativos de Gaspar, a carreta estimula os voluntários:

– Vamos precisar de mais gente para descarregar. Vou fazer um pedido à rádio da cidade – informa o coordenador do centro, Marcelo Schmitz.

Em minutos, começam a chegar moradores dispostos a ajudar. Entre os voluntários estão o zelador de escola Joel Alves dos Santos, 40 anos, e o assessor parlamentar Tiago Bratkowski, 21 anos, que chegara no dia anterior de São Miguel do Oeste (SC). São eles que carregam para dentro as garrafas de cinco litros doadas pelo psicólogo 24 horas antes em Porto Alegre.

Morador de Gaspar, Santos foi um dos atingidos pela cheia do Rio Itajaí-Açu e, mesmo assim, ajudou:

– Na minha casa, a água atingiu 1m70cm. Só não perdi geladeira, fogão e freezer. A casa rachou de cima a baixo. Graças a Deus, ninguém da família se feriu.

Quinta-feira- 14h40min – Distribuir

Depois de cumprir seu expediente das 7h15min às 13h15min na prefeitura de Gaspar, o operador de máquinas Moacir Lamin (abaixo), 38 anos, passa a compor o quadro de voluntários que reergue o município. A exemplo dos caminhões-pipa, a missão dele é levar água potável aos moradores de áreas afastadas.

Lamin, que não foi atingido pelo desastre mas viu familiares perderem tudo, enche a carroceria com bombonas de água mineral. Nela vai a doação feita por Thiago Gomes de Castro em Porto Alegre. O plástico que envolve os galões de água se rompe parcialmente ao passar por várias mãos, mas não é o bastante para separá-los.

Agora os galões estão prontos para ser entregues a uma das famílias desabrigadas que formam fila de quase uma quadra em frente ao Centro de Distribuição de Donativos, no bairro Sete de Setembro, na fragilizada Gaspar.

Quinta-feira- 16h10min – Receber

Sob sol forte, a dona de casa Daniela Fernanda Tomson, 30 anos, aguarda autorização para entrar no ginásio onde estão sendo distribuídos os donativos procedentes de todo o país. A fila, composta na maior parte por mulheres e crianças, se estende por quase uma quadra. A Polícia Militar protege a área para evitar saques.

Por volta das 16h, é atendida. Apresenta identidade e informa suas necessidades. Além de água para beber e cozinhar, ela precisa de alimentos e produtos de higiene pessoal e limpeza. Entre os itens recebidos estão os quatro galões de água mineral doados por Castro.

– Tudo isso vem de anjos. É muito importante para todos nós – comenta, ao deixar o ginásio com três sacolas de doações, além da água.

Impedida de voltar para casa no bairro Gasparzinho, Daniela, os três filhos e o marido estão alojados temporariamente com a mãe. Atingida por lama, a moradia da família foi condenada pela Defesa Civil.

– O morro que fica junto à minha casa veio abaixo, derrubando um poste e jogando muita lama para dentro. Quando o muro caiu, decidi sair com meus filhos. Caí no asfalto com minha filha de nove meses nos braços e fui ajudada por vizinhos. Era uma gritaria na rua, todos saindo de suas casas sem saber o que fazer. Achei que ia morrer. Nunca senti tanto medo na minha vida – conta a dona de casa.

MAICON BOCK | De Porto Alegre (RS) a Gaspar (SC)
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