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30 de novembro de 2008 | N° 15805AlertaVoltar para a edição de hoje

Conselhos de um embaixador da fé

As portas do gabinete que já abrigou Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, no segundo piso do Palácio Piratini, se abriram no dia 19 de junho para um visitante de cabelos brancos e passos largos de colono. Com um sorriso que não disfarçava a tensão e o cansaço, Yeda Crusius deu boas-vindas ao recém-chegado e levou-o ao sofá junto à janela sul.

Passados mais de cinco meses do encontro, a governadora guarda a impressão que lhe causaram as palavras do convidado:

– Ele falou como um sacerdote.

Yeda tem uma relação peculiar com a religião. Gosta de lembrar que, filha do maçom Francisco e da anarquista Sylvia, era chamada de “herege” pelas freiras do colégio em que estudou em São Paulo. O insulto era um eco dos textos da Igreja que, desde o século 18, condenavam a maçonaria pelo culto do segredo, dos símbolos e da separação entre Igreja e Estado. Isso não impediu o casal Rorato de matricular os filhos em escolas católicas. Criada numa casa repleta de livros, Yeda se sentia pouco atraída pelos mistérios da fé e logo foi arrebatada pelo esporte. Mas as acusações de heresia acabaram por fazê-la tolerante com as diferenças religiosas. Mais do que conforto, a fala doce do visitante propiciou à governadora uma viagem ao passado justamente no momento em que se sentia emparedada num presente opressivo.

Yeda sentira o assoalho do Piratini vacilar sob seus pés no dia 6 de junho. Angustiado, o então chefe da Casa Civil, Cézar Busatto, lhe dissera que o vice-governador Paulo Afonso Feijó se preparava para divulgar a gravação de uma conversa feita sem seu consentimento. No áudio, obtido no dia 26 de maio, Busatto afirmava que Detran e Daer haviam sido “fontes de financiamento” de todos os governadores. A gravação foi recebida com estupefação pela CPI da Assembléia que, desde fevereiro, mantinha o Piratini sob pressão por conta do escândalo do Detran. No final da tarde, Busatto dizia em coletiva que Feijó era “mau-caráter”, “safado” e “baixo”, enquanto do lado de fora do palácio estudantes gritavam refrões contra o governo. A administração parecia ter chegado ao fundo do poço.

– Depois de ouvir a gravação na ala residencial do palácio, liguei para algumas pessoas com quem dialogo regularmente. Queria que me ajudassem a avaliar o dano – recorda Yeda.

Um desses interlocutores, agora sentado ao sofá do gabinete da governadora, é um arguto observador de crises políticas. No dia crucial de 1º de abril de 1964, tinha 27 anos e cursava o último ano de direito canônico na Universidade Gregoriana, em Roma. Era praticamente um romano – chegara à cidade quase 10 anos antes. Naquele dia, viu os vendedores de jornais gritarem nas ruas da capital italiana: “Estão se matando no Brasil”. Ele lembra:

– Quando as forças de Minas Gerais e do Rio se encontraram, cortaram-se as comunicações. Os italianos calculavam quantos teriam morrido. Não morreu ninguém. E eu tive de explicar a eles o jeitinho brasileiro.

Na visita à governadora, em vez de se deter nos idos de 1964, dom Dadeus Grings, arcebispo de Porto Alegre, recuou mais no tempo:

– O Dilúvio foi muito pior.

Seu antecessor na Arquidiocese, dom Altamiro Rossato, usava essa expressão para consolar os que passavam por momentos difíceis.

– Quando perguntavam “O senhor viu?”, ele respondia: “Me contaram” – complementou, e Yeda riu.

Discípulo de dom Vicente Scherer, arcebispo que por 34 anos guiou o rebanho da Capital, dom Dadeus, 72 anos, considera que sua missão em momentos de crise é atuar como “embaixador de Cristo”:

– Se na cúpula há tensões, isso se reflete irremediavelmente na base. É importante que a autoridade estabelecida seja respeitada e apoiada.

Para a governadora, o arcebispo é fonte de inspiração. Em seu discurso de posse, em 2007, ela ressaltou a importância do diálogo inter-religioso fomentado pela Cúria Metropolitana e se dispôs a promover algo semelhante no meio político. Na procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, em fevereiro deste ano, ela se admirou ao ver dom Dadeus, em meio a um e outro aceno aos fiéis, cutucar governantes que o acompanhavam:

– E as equipes do Programa Saúde da Família? São poucas, não?

Quem ouve o arcebispo discorrer sobre os assuntos da Igreja percebe que, sob o hábito, há um conselheiro político valioso. Quando o Papa Bento XVI foi escolhido, alguém lhe perguntou se o disciplinador que punira vozes discordantes da Igreja tinha sido a melhor opção. O arcebispo, que na condição de integrante da Secretaria de Estado do Vaticano conviveu com o cardeal Joseph Ratzinger, advertiu:

– Vocês conheceram o defensor da fé. Agora, vão conhecer o pastor. O pastor é aquele que sabe compadecer-se dos que ignoram e erram.

Ao se despedir da governadora, o arcebispo depositou em suas mãos um presente. Era uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Um padre lhe trouxera a lembrança de Roma um ano antes. O mimo repousa na mesa de Yeda no Piratini, ao lado de um estandarte de Ogum vindo de Salvador.

dione.kuhn@zerohora.com.br - luiz.araujo@zerohora.com.br

DIONE KUHN E LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
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