Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
As portas do gabinete que já abrigou Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, no segundo piso do Palácio Piratini, se abriram no dia 19 de junho para um visitante de cabelos brancos e passos largos de colono. Com um sorriso que não disfarçava a tensão e o cansaço, Yeda Crusius deu boas-vindas ao recém-chegado e levou-o ao sofá junto à janela sul.
Passados mais de cinco meses do encontro, a governadora guarda a impressão que lhe causaram as palavras do convidado:
– Ele falou como um sacerdote.
Yeda tem uma relação peculiar com a religião. Gosta de lembrar que, filha do maçom Francisco e da anarquista Sylvia, era chamada de “herege” pelas freiras do colégio em que estudou em São Paulo. O insulto era um eco dos textos da Igreja que, desde o século 18, condenavam a maçonaria pelo culto do segredo, dos símbolos e da separação entre Igreja e Estado. Isso não impediu o casal Rorato de matricular os filhos em escolas católicas. Criada numa casa repleta de livros,
Yeda se sentia pouco atraída pelos
mistérios da fé e logo foi arrebatada pelo esporte. Mas as acusações de heresia acabaram por fazê-la tolerante com as diferenças religiosas. Mais do que conforto, a fala doce do visitante propiciou à governadora uma viagem ao passado justamente no momento em que se sentia emparedada num presente opressivo.
Yeda sentira o assoalho do Piratini vacilar sob seus pés no dia 6 de junho. Angustiado, o então chefe da Casa Civil, Cézar Busatto, lhe dissera que o vice-governador Paulo Afonso Feijó se preparava para divulgar a gravação de uma conversa feita sem seu consentimento. No áudio, obtido no dia 26 de maio, Busatto afirmava que Detran e Daer haviam sido “fontes de financiamento” de todos os governadores. A gravação foi recebida com estupefação pela CPI da Assembléia que, desde fevereiro, mantinha o Piratini sob pressão por conta do escândalo do Detran. No final da tarde, Busatto dizia em coletiva que Feijó era “mau-caráter”, “safado” e “baixo”, enquanto do lado de fora do palácio estudantes
gritavam
refrões contra o governo. A administração parecia ter chegado ao fundo do poço.
– Depois de ouvir a gravação na ala residencial do palácio, liguei para algumas pessoas com quem dialogo regularmente. Queria que me ajudassem a avaliar o dano – recorda Yeda.
Um desses interlocutores, agora sentado ao sofá do gabinete da governadora, é um arguto observador de crises políticas. No dia crucial de 1º de abril de 1964, tinha 27 anos e cursava o último ano de direito canônico na Universidade Gregoriana, em Roma. Era praticamente um romano – chegara à cidade quase 10 anos antes. Naquele dia, viu os vendedores de jornais gritarem nas ruas da capital italiana: “Estão se matando no Brasil”. Ele lembra:
– Quando as forças de Minas Gerais e do Rio se encontraram, cortaram-se as comunicações. Os italianos calculavam quantos teriam morrido. Não morreu ninguém. E eu tive de explicar a eles o jeitinho brasileiro.
Na visita à governadora, em vez de se
deter nos idos de 1964, dom Dadeus Grings,
arcebispo de Porto Alegre, recuou mais no tempo:
– O Dilúvio foi muito pior.
Seu antecessor na Arquidiocese, dom Altamiro Rossato, usava essa expressão para consolar os que passavam por momentos difíceis.
– Quando perguntavam “O senhor viu?”, ele respondia: “Me contaram” – complementou, e Yeda riu.
Discípulo de dom Vicente Scherer, arcebispo que por 34 anos guiou o rebanho da Capital, dom Dadeus, 72 anos, considera que sua missão em momentos de crise é atuar como “embaixador de Cristo”:
– Se na cúpula há tensões, isso se reflete irremediavelmente na base. É importante que a autoridade estabelecida seja respeitada e apoiada.
Para a governadora, o arcebispo é fonte de inspiração. Em seu discurso de posse, em 2007, ela ressaltou a importância do diálogo inter-religioso fomentado pela Cúria Metropolitana e se dispôs a promover algo semelhante no meio político. Na procissão de Nossa Senhora dos
Navegantes, em fevereiro deste ano, ela se admirou ao ver dom Dadeus, em meio
a um e outro aceno aos fiéis, cutucar governantes que o acompanhavam:
– E as equipes do Programa Saúde da Família? São poucas, não?
Quem ouve o arcebispo discorrer sobre os assuntos da Igreja percebe que, sob o hábito, há um conselheiro político valioso. Quando o Papa Bento XVI foi escolhido, alguém lhe perguntou se o disciplinador que punira vozes discordantes da Igreja tinha sido a melhor opção. O arcebispo, que na condição de integrante da Secretaria de Estado do Vaticano conviveu com o cardeal Joseph Ratzinger, advertiu:
– Vocês conheceram o defensor da fé. Agora, vão conhecer o pastor. O pastor é aquele que sabe compadecer-se dos que ignoram e erram.
Ao se despedir da governadora, o arcebispo depositou em suas mãos um presente. Era uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Um padre lhe trouxera a lembrança de Roma um ano antes. O mimo repousa na mesa de Yeda no Piratini, ao lado de um estandarte de Ogum vindo de
Salvador.
dione.kuhn@zerohora.com.br - luiz.araujo@zerohora.com.br
Grupo RBSDúvidas Frequentes | Fale conosco | Anuncie - © 2000-2007 RBS Internet e Inovação - Todos os direitos reservados.