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25 de outubro de 2008 | N° 15769AlertaVoltar para a edição de hoje

Horror em tempo real

O caso de Eloá morta pelo ex-namorado lembra a ação de Sandro com uma arma na cabeça de uma refém no ônibus 174 e permite discutir o verdadeiro papel da imprensa em situações de alto risco

Gente que não vai a velório de vizinho foi ao enterro da menina Eloá, na última terça-feira, em Santo André. Quem nunca teria outra chance de aparecer na TV foi visto e se viu depois, por segundos, nos telejornais da noite como um rosto, um singular naquela massa. Mais uma vez, a força da mídia havia coletivizado a comoção, a curiosidade, a sensação de que de alguma forma e por pelo menos um dia todos eram amigos ou parentes de Eloá Cristina Pimentel, morta pelo ex-namorado Lindemberg Alves com um tiro na cabeça. O pesquisador de mídia Manuel Chaparro, doutor em Comunicação, ex-professor da Universidade de São Paulo (USP), percebeu assim o que aconteceu no cemitério:

– Foi um ato show. Todos queriam estar lá.

No dia seguinte, boa parte desse povo se interrogava sobre o que fazia no velório. E boa porção da mídia se submetia a um constrangimento: que limites teriam mais uma vez sido rompidos, a ponto de permitir não só a espetacularização do drama da menina, do início do cativeiro até sua morte, mas também de cometer erros grosseiros em nome do jornalismo e do direito à informação? Os que foram ao velório sem saber direito por que estavam ali podem recorrer ao consolo de qualquer desculpa. A mídia não tem esse consolo.

Chaparro é crítico do cenário montado pelos jornalistas ao redor do apartamento em que Eloá e a amiga Nayara Rodrigues Vieira da Silva, ambas de 15 anos, foram mantidas por quatro dias. Mas faz uma ressalva. Quando fala de mídia, refere-se aqui especificamente à televisão:

– TV e jornal têm relações diferentes com seus públicos e isso resulta em comportamentos diferentes quando de uma cobertura.

Em Santo André, a TV teria se superado em relação a um caso emblemático, a cobertura em tempo real do seqüestro do ônibus 174, no Rio. No dia 12 de junho de 2000, o ex-menino de rua Sandro do Nascimento apoderou-se do ônibus durante um assalto. Ao final, a professora Geisa Firmo Gonçalves foi atingida por tiros de Sandro e da PM e morreu. Sandro foi morto por asfixia numa viatura da polícia. O terror daquele dia é abordado no filme Última Parada 174, de Bruno Barreto, em cartaz na Capital.

A imagem assustadora de Sandro com uma refém transformou-se em ícone da violência mostrada ao vivo durante quatro horas ininterruptas pela TV. A imagem de Eloá – na janela do apartamento em que morava, sob a ameaça do ex-namorado de 22 anos –, não a substitui. Junta-se ao acervo de imagens de dramas em que as deficiências da polícia convivem com os erros dos que estão ali, ou mesmo longe dali, sob o pretexto de que tudo deve ser devassado em tempo real.

Chaparro foi repórter. Compreende todas as tarefas do jornalismo, a relatividade de seus limites em situações de risco e os efeitos que provoca quando da cobertura de crueldades transformadas em acontecimento midiático. Mas diz:

– A mídia eletrônica atende nessas situações às demandas do emocional. Como essa demanda não é por informação, cai em exageros. A preocupação deixa de ser a de passar conhecimento, mas de passar o mórbido. Corre-se o risco da imprudência. É uma onda criada pela mídia e na qual ela também se afoga.

O professor aposentado da USP observa que as falhas da imprensa podem ser o excesso ou a omissão. Recorda que, por um pacto da mídia norte-americana, a população deveria ser poupada de ver as imagens dos caixões com os soldados mortos no Afeganistão e no Iraque. Omitiu-se a imagem, em nome da auto-estima e do patriotismo, para tentar desinformar. No caso de Eloá e de tantos outros, a desinformação deu-se pelo excesso de imagens.

Chaparro não tem dúvida de que, assim como o povo correu ao cemitério porque não poderia perder o velório que outros veriam, as TVs promoveram, em nome da audiência, um movimento de manada em direção às zonas mais sombrias da cobertura do caso de Santo André. Foi assim que se deu não só a transformação de um drama em espetáculo, como invariavelmente ocorre em episódios como esse, não só no Brasil. Foi pior. A mídia passou a interferir diretamente. Apresentadores e repórteres confrontavam-se para ver quem teria o poder de persuadir Lindemberg a soltar as adolescentes.

O ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), do Rio, Rodrigo Pimentel, 37 anos, assustou-se quando viu a apresentadora Sônia Abrão, da Rede TV, assumindo ao vivo, no dia 15, as negociações com Lindemberg. Falava com o rapaz pela TV. O seqüestrador a assistia no apartamento e respondia pelo celular. Sônia o orientava. O repórter Luiz Guerra, da mesma Rede TV, chegou a tentar convencer Lindemberg de que era amigo da família.

– Isso não é normal. Mediação e negociação não exigem apenas talento para conversar, envolvem tática, técnica. A TV contribuiu para o que aconteceu ao atormentar o rapaz e as reféns – diz o ex-militar.

Pimentel sabe do que fala. Foi soldado de elite do Bope por 12 anos. É o roteirista do filme Tropa de Elite. A história do personagem principal, o atormentado capitão Nascimento, inspira-se na vida do próprio Pimentel:

– Estive em ação em vários casos com reféns. A mídia geralmente ajuda, quando o seqüestrador exige sua presença para garantir sua integridade física. Por que foram tão perversos agora? Será que foi por ingenuidade, ou sabiam o mal que estavam fazendo?

Para Pimentel, poucos safaram-se da tentação de tentar salvar as garotas. Segundo ele, as redes Bandeirantes e SBT não entrevistaram o rapaz. Record, Rede TV e Globo cometeram o erro. A repórter Zelda Mello entrevistou Lindemberg por telefone para o Mais Você, de Ana Maria Braga, na quinta-feira, véspera do desfecho. Ao vivo, Ana Maria alertava o rapaz:

– Você viu como é a cadeia?

O ex-policial lembra do que ocorreu em 1972, quando do assalto a um banco de Nova York, depois contado no filme Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, na primeira grande atuação de Al Pacino, como o assaltante Sonny. Dois ladrões cercados pela polícia são atormentados, dentro do banco, por telefonemas da imprensa.

A TV conta ao vivo que Sonny fez o assalto para financiar a troca de sexo de um namorado. A cobertura de casos com reféns nunca mais foi a mesma nos Estados Unidos depois daquele assalto.

– Cometemos o mesmo erro aqui, 36 anos depois – lamenta Pimentel.

Co-produtor de Ônibus 174, documentário de 2002 sobre o seqüestro do Rio, Pimentel comprou imagens da cobertura da TV. Admite, constrangido, que o filme só se viabilizou com tomadas de câmeras que não deveriam estar ao lado do ônibus. A polícia não isolou o local e falhou ao impedir que ficassem tão próximos. O ex-capitão diz:

– Faço uma analogia de Santo André com o desfile de Carnaval e o futebol. Por que os jornalistas não invadem campos de futebol e a passarela de um desfile? Porque obedecem a regras. Mas como interferem numa situação de vida ou morte? A mídia precisa se auto-regulamentar. Não falo de leis impostas, mas de auto-controle, de regras para situações como esta.

O professor Jacques Wainberg, especialista em comunicação, da PUC-RS, observa que, apesar de seguir normas, a imprensa muitas vezes se transforma, tragicamente, em protagonista, como ocorreu em Santo André. Wainberg lembra:

– Quando a mídia televisiva interfere, a polícia passa a fazer raciocínios políticos, não reflete tecnicamente, e isso causa uma pressão adicional ao negociador. E o seqüestrador começa a atuar.

Wainberg lembra que violência, claro, dá audiência:

– O emissor (a TV) se nutre disso, com todos os elementos dramatúrgicos. Do ponto de vista do receptor (o espectador), as pessoas passam a se relacionar com os personagens. Eloá é vista como se fosse uma filha, um parente. Fazem um luto coletivo.

O professor resume o efeito disso tudo:

– Violência é um prato diário da mídia. Violência é show, é a desensibilização da audiência. As pessoas querem doses maiores de violência. A mídia as contempla com espetáculos cada vez mais mórbidos.

A psicóloga Patrícia Gugliotta, 35 anos, de Campinas, não acompanhou a cobertura do caso de Eloá, mas teve que se inteirar do que aconteceu depois de ver o desfecho pela TV:

– Meus clientes, adolescentes, passaram a relatar que se identificavam com um ou outro personagem, com o rapaz ou com a menina.

Patrícia, mestre em psicologia pela Unicamp com uma tese sobre mulheres vítimas de violência doméstica, destaca: ninguém pode querer defender restrições ao direito da imprensa de transmitir informação. Mas não vê como esta tarefa possa ser cumprida sem limites:

– A reportagem de casos como esse é válida, porque ajuda principalmente as famílias a refletir sobre nossas relações. Mas desta vez a TV extrapolou. E não foi só a TV, foi a internet também.

Que se resgate uma lição dos tempos de repórter de Manuel Chaparro:

– Precisamos de compromisso com valores, com a ética. A prática do jornalismo ainda é pouco protegida por compromissos sociais. O jornalismo é um bem público, um bem da sociedade. Se não for responsável, os processos sociais também fracassam.

O dilema do editor

Se, por um lado, há consenso de que coberturas como a do caso Eloá passam dos limites, também é preciso reconhecer que estar na pele do editor ou de quem comanda uma cobertura não é tarefa simples. Os fatores que pesam na hora de tomar uma decisão são muitos, nem todos completamente racionais. A jornalista paulista Cristina Valéria Flausino trabalhou 15 anos em redações de jornais e telejornais. Autora de artigos críticos como Choro Gratuito: a Violência no Telejornalismo Brasileiro, hoje, na sala de aula, como professora da Universidade Anhembi Morumbi, sente obrigação de alertar os alunos para os excessos e erros. Na hora de baixar uma página ou planejar uma cobertura, o tempo nem sempre esteve a favor. Durante a lida frenética, o editor tem uma informação inquietante: há milhares de espectadores e leitores querendo consumir mais e mais daquele assunto. Suprir ou não esta demanda é um dilema clássico do jornalismo.

– Sinceramente, até hoje não consegui chegar a uma conclusão sobre isso. Como jornalista, sei como você sofre pressão. Me senti pressionada a fazer coisas que depois olhei e pensei: “puxa, que falta de ética”. Estive no lado do jornalista pressionado por aquilo e entendo que o público quer consumir. Mas que não deveria ser assim – reflete Cristina.

Um componente decisivo é a pressão do tempo, e no caso da TV este aspecto é ainda mais relevante, como explica a professora:

– A preocupação é realmente de cobrir ao máximo. Dimensionar aquilo da melhor maneira, colocando gente em vários lugares, levantando hipóteses. É esse o papel da imprensa, mas ninguém pára muito para raciocinar. Essa produção de sentidos, o exagero, é totalmente irracional.

A questão se torna mais complexa e foge da lógica maniqueísta quando se aborda os aspectos positivos de uma cobertura exaustiva, como a do caso Eloá. Segundo a especialista, a intensa cobertura de um fato força diversos elementos, bons ou ruins. Discute-se se a cobertura teria motivado o seqüestrador a cumprir suas ameaças. Mas há uma segunda conseqüência que deve ser levada em conta.

– Se ficar comprovado que houve uma má ação da policia, a mídia ajudou. Vai ser impossível os culpados escaparem. Este é o outro lado. A mídia vai forçar as autoridades a responder por isso.

O drama é o do público

Para o psicanalista gaúcho Mário Corso, o que se vê neste tipo de episódio – e ele inclui o caso de Isabela Nardoni no grupo – é um “casamento infeliz” entre a demanda de um público que gosta de ver e se emocionar com uma tragédia ao vivo com uma mídia que está preocupada com o seu lugar no mundo, diante da queda no número de leitores de jornal e de audiência, no caso da televisão.

– Há um ambiente de tensão que ajuda a imprensa a se perder nos limites éticos – alerta Corso.

Do outro lado da tela, no sofá da sala, garante o psicanalista, não há nada de novo. O fascínio que o drama exerce sobre o ser humano pode até ser retroalimentado pela imprensa, mas é, essencialmente, inato. Corso arrisca uma análise do comportamento de Lindemberg para ilustrar como o drama dele pode ser o de qualquer um que está assistindo:

– É um jovem que leva um pé na bunda e fica totalmente desestruturado. Acontece muito com homens jovens, muito inseguros. A única certeza que ele tem de ser homem é ter uma mulher do lado. Essa mulher é um espelho da sua sexualidade. Ser um homem para ele era uma coisa complicada, como é para muitos. Há uma incapacidade de aceitar a rejeição, não é uma rejeição amorosa, é uma rejeição da identidade. Ele vira zero, vira nada.

Segundo o psicanalista, é um erro achar que esse interesse pelo drama é especificidade do Brasil, com sua gigantesca produção de telenovelas. Novelas ou programas de televisão de qualidade questionável são fenômeno no mundo todo.

– Ao assistir a isso, as pessoas se identificam com este drama, que é um drama nosso. Todo mundo fica ali torcendo. Não somos anjos. Assistimos ao vivo a este big brother. É uma espécie de peça de teatro em que as pessoas se questionam sobre ser ou não ser amado, ser abandonado, o que é dor etc.

* Colaborou Gabriel Brust

MOISÉS MENDES*
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