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24 de agosto de 2008 | N° 15705AlertaVoltar para a edição de hoje

“Minha função é social, apenas compro para os amigos”

Entrevista: traficante de ectasy

Ele é um jovem de classe média com nível superior. Depois de experimentar a droga pela primeira vez, começou a comprar de traficantes e a revender para os amigos mais próximos. Morador de Porto Alegre e militar do Exército, ele não se classifica como traficante porque consegue os comprimidos de pessoas que buscam grandes quantidades em outros Estados. Para a polícia, porém, o ato de revender para os amigos já configura tráfico. Confira os principais trechos da entrevista concedida a Zero Hora:

Zero Hora – Com quem você consegue o ecstasy?

Traficante
– Com um dos dealers (palavra do inglês que significa negociante, reven­dedor e traficante de drogas) daqui. O traficante de bala não se intitula dessa forma, não gosta de ser chamado de traficante. Ele é o dealer, é o nome bonitinho.

ZH – Mas significa a mesma coisa.

Traficante
– Traficante está envolvido com o crime. O dealer não, ele é um cara popular.

ZH – E ele consegue com quem?

Traficante
– Isso vem da Europa, chega para eles ou no Rio ou em São Paulo a um preço bastante barato, tipo R$ 11 ou R$ 12 cada. Eles vão até São Paulo ou Rio e trazem de avião para Porto Alegre. É o meio mais perigoso, mas como é muito pequeno pode estar num potinho de remédio. Em um pequeno espaço, você consegue trazer uma grande quantidade. No bolso da calça jeans você coloca mil balas sem chamar atenção.

ZH – E quem são eles?

Traficante
– São garotos de classe média, freqüentam as festas, usam também. Não há aquele conceito ruim de tráfico de drogas. Não se consideram traficantes.

ZH – Quem usa não consegue mais ir a festa sem usar?

Traficante
– Consegue, você vai fazer festa, mas é outro propósito. Mas não é algo que cria dependência química, você não sente a falta. A dependência é psicológica, você está na festa e pensa: “Putz, essa festa merecia uma bala”.

ZH – Qual foi a maior quantidade que você já comprou?

Traficante
– Umas 12, 14 balas. No meu caso, não tem um fim comercial. Sou um intermediário entre o dealer e o usuário.

ZH – Você compra por quanto e vende por quanto?

Traficante
– Quando compro antes da festa, por R$ 30. Repasso aos amigos pelo mesmo preço. Minha função é social, sou apenas o cara que compra para os amigos. Passo relativamente de graça, nem sempre cobro.

ZH – É uma forma de captar clientes?

Traficante
– Não, não tem essa visão de “ah, vamos viciar o maior número de pessoas que a gente conseguir”.

ZH – Você não recebe nada do dealer?

Traficante
– Não, não tenho participação nenhuma nos lucros dele. Até deveria ter (risos). Ao contrário, você quer que o seu amigo esteja na mesma onda que você, na mesma vibe. Se ele está sem grana, daí você financia ele naquela festa, e numa próxima, não tem problema, ele vai te financiar.

ZH – Você tem idéia de quantas pessoas experimentaram a primeira bala contigo?

Traficante
– (Hesita) Acho que 15 ou 16.

ZH – E o que você acha disso?

Traficante
– Eles são muito agradecidos pela experiência. Não me sinto minimamente culpado. Sinto que foi muito bom para eles também. Não sei por que bala é proibida. Os riscos, para mim, são mínimos. Não vejo a bala como um mal social, vejo o tráfico. O uso é menos danoso do que o do álcool ou o do cigarro.

ZH – Pela sua profissão, que impacto teria se você fosse descoberto?

Traficante
– (Hesita) Seria bastante desagradável porque comprometeria... Enfim... A noção que eu tenho do uso da bala, que é extremamente permissiva, é completamente diferente da noção que a sociedade tem.

A rave
ESTRUTURA
Protegida por tapumes pretos, a área da rave é um amplo descampado. Em um palco central, DJs produzem a música que emana de potentes caixas de som. No entorno, bares, banheiros químicos, guarda-volumes, estacionamento e lonas para proteção em caso de chuva (que seriam insuficientes para abrigar todos). Segundo a organização, atuaram 200 seguranças, mas a reportagem não viu nenhum deles circulando no meio da área de dança.
DROGAS
O consumo de drogas é generalizado. Concentrados em pequenos grupos, jovens retiram dos bolsos pequenos recipientes ou sacos plásticos com os comprimidos. Sem aparente preocupação em serem vistos, os jovens ingerem as balas com tranqüilidade.
– Tu tem bala? – perguntam os repórteres a um jovem que acaba de engolir um comprimido, tirado de um saco plástico do bolso.
– Não – responde o jovem, desconfiado.
– Sabe quem tem? – insiste a repórter.
– Tem um amigo meu que tá chegando daqui a pouco e vai trazer.
– Ah, e sabe quanto é?
– É R$ 35. É copa cinza (um tipo de ecstasy).
Apesar da venda em raves, a maioria dos jovens leva a sua própria bala de casa, para evitar o preço mais alto e ter um controle maior sobre a procedência do comprimido – como é difícil saber a composição da pílula, há rumores de que traficantes oferecem até aspirina para enganar. O ecstasy entra escondido em bolsos, bonés e roupas íntimas. Outras drogas, como o LSD, também circulam – por serem parecidas com chips de telefones celulares, pequenas unidades entram nas festas camufladas dentro dos aparelhos.
TRÁFICO
Por meio de indicações de amigos ou da simples observação, é fácil reconhecer os traficantes. Próximo a um dos bares, um jovem de cerca de 25 anos, bem vestido, com moletom azul, faz a negociação com um casal. O rapaz dá dinheiro ao traficante, que se agacha em um ponto iluminado para contar as notas e em seguida entrega os comprimidos.
No minuto seguinte, abordado pelos repórteres, que simulam o interesse em comprar a droga, enumera os tipos de comprimidos de que dispõe e os preços.
– Faço a bala por R$ 50. Tenho doce (LSD) também, por R$ 25 – informa.
– Que tipo de bala é? – pergunta a reportagem.
– Infinity – responde.
Em seguida, ele se irrita ao ser questionado sobre a quantidade vendida por noite:
– Eu não pergunto quantas balas tu toma por noite. Então, tu não pergunta quantas eu vendo – diz, antes de sumir entre a multidão.
REVISTA
Os freqüentadores passam por uma revista feita pela equipe de segurança. Devido ao grande número de pessoas, o trabalho não é minucioso a ponto de barrar a entrada de comprimidos de ecstasy, de tamanho inferior a uma aspirina.
Ao perceber a existência de revista, metros antes da entrada, dois jovens demonstram preocupação:
– O que a polícia tá fazendo lá na frente? – pergunta um deles, ao avistar os seguranças.
– Ah, eu fiquei preocupado – responde o amigo.
– Ih, só o que falta.
– É, e se pedirem para fazer um teste do bafômetro?
OS USUÁRIOS
Garrafa de água na mão, pirulito na boca, óculos escuros e uma disposição para pular horas a fio são as principais características dos jovens que consomem ecstasy nas raves. A água é a aliada contra a desidratação, o pirulito controla o ranger dos dentes e os óculos camuflam a dilatação das pupilas, reações ao consumo da droga. O aumento da temperatura corporal, outro dos efeitos, leva a situações inusitadas, como rapazes sem camiseta sob uma temperatura de 8°C, enquanto o vento faz os repórteres tremerem de frio. Quando o dia amanhece, um jovem caminha pelado entre os freqüentadores e é detido por um segurança.
EU TE AMO
Conhecida como “pílula do amor” por estimular a produção de serotonina no cérebro (substância responsável pela sensação de prazer), o ecstasy incentiva abraços, afagos e beijos acalorados. Para amigos, namorados e simples colegas de balada, pronuncia-se com freqüência “eu te amo”. Com o corpo mais sensível a estímulos, também é popular entre os jovens o uso de descongestionantes nasais, para “abrir” a respiração.
– O ar fica melhor quando entra – explica uma das usuárias.
BAR
Diferentemente de outras festas, a venda de água mineral supera a de bebidas alcoólicas e refrigerantes.
MAL-ESTAR
À medida que a madrugada avança, os efeitos do uso se intensificam. Vários jovens passam mal, vomitam e ficam sentados no chão. Aos amigos mais próximos, cabe acompanhar a situação até que o mal-estar passe.
POLÍCIA
Durante a festa, apenas um policial militar é avistado circulando entre os freqüentadores. Não é visto revistando ninguém. A festa do ecstasy se estende até as 15h. Em uma faixa na saída da rave, os jovens são convidados a continuar a diversão em um sítio próximo dali, em uma festa que se estenderia até a madrugada de segunda-feira.
Contraponto
O que diz Diego Cruz Zimmermann, um dos produtores da rave realizada no dia 9 de agosto, em Viamão
Normalmente, nesse tipo de festa, a galera costuma usar (ecstasy). Nossa segurança é orientada a, toda vez que identificar o comércio ou o consumo, apreender o produto e excluir a pessoa da festa ou encaminhar a um posto da Brigada e do Denarc, que sempre fazem parceria conosco. Eles normalmente levam de 10 a 12 agentes à paisana para monitorar todo o evento. Como são 8 mil pessoas, não temos conhecimento nem como controlar a todos. O que é apreendido na revista ou dentro da festa é encaminhado aos agentes do Denarc. Não tenho a quantidade apreendida nessa festa.
É bastante difícil (coibir o consumo de drogas) porque, de 8 mil pessoas, podemos dizer que 6,5 mil já usaram ou estão lá com o intuito de usar. O que podemos fazer, fazemos, mas é como qualquer evento.

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