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30 de julho de 2008 | N° 15678AlertaVoltar para a edição de hoje

Fome se impõe à globalização

Preocupações da Índia e da China com seus produtores e rigidez dos EUA resultam em colapso diplomático

Mesmo depois dos sinais de avanço na sexta-feira, fracassaram ontem as negociações abertas dia 21, na Suíça, para reduzir as barreiras ao comércio internacional.

O medo da fome se impôs às perspectivas de ganhos para ricos e emergentes e deixou mais incerto o futuro da globalização. O mais provável é que se intensifiquem acordos bilaterais e regionais, já que não foi possível avançar no consenso entre os 153 países da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Um detalhe imprevisto barrou as tratativas da Rodada de Doha para cortar subsídios agrícolas e tarifas de importação de produtos industrializados (veja quadro). Os Estados Unidos resistiram em aceitar limites mais baixos para a disparada de um gatilho de proteção à produção de alimentos em países emergentes. Por isso, Índia e China se retiraram da negociação. Alegaram a necessidade de proteger suas plantações de arroz, algodão e cana-de-açúcar. Também pediram maior corte dos subsídios agrícolas, que os EUA rejeitaram.

- A segurança alimentar teve prioridade - avaliou Tobias Reichert, integrante do grupo Germanwatch, que monitora as negociações da OMC.

O tema de discórdia era o 19º item de uma agenda que continha 20 pontos e sobre a qual já havia sido obtido consenso em 18. Ao cabo de nove dias de conversas que atravessaram madrugadas, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, lamentou o "doloroso fracasso". Os ministros começaram a abandonar Genebra ainda antes da confirmação do colapso feita pelo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy.

- É incrível, incrível que tenhamos fracassado por um só assunto - explicitou Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores.

Na avaliação de Amorim, é possível que as negociações não sejam retomadas antes de três ou quatro anos. Mesmo assim, lamentou o impasse que impediu vantagens para o Brasil na colocação de produtos agropecuários. A perspectiva de reforço aos acordos bilaterais para o país não é animadora, segundo José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), porque o país apostou tudo no âmbito multilateral:

- Não tínhamos plano B.

Fracasso põe em risco era de acordos multilaterais

Outros especialistas internacionais, como William Bernstein, alertaram que os constantes fracassos - foi o oitavo encontro ministerial - podem representar o fim dos grandes acordos multilaterais, que têm alcance planetário. Teoricamente, a Rodada de Doha ainda está viva. A representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, disse que os EUA permanecem comprometidos com a conclusão da etapa. E lamentou:

- Estávamos tão perto.

Mandelson havia advertido que um fracasso agora equivaleria a um "funeral" para as negociações. O esforço de Lamy será preservar os avanços obtidos em Genebra para tentar retomar as conversas, depois de consulta aos mais poderosos integrantes da OMC. Mas nem ele ousou traçar novos prazos:

- Vamos deixar a poeira assentar.

Frases
Peter Mandelson, Comissário de Comércio da União Européia
"(Foi um) doloroso fracasso (por culpa das) mesquinharias"
Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores do Brasil
"Se eu fosse o árbitro, mudaria os jogadores para ver se ainda há possibilidades de obter uma vitória"

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