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24 de julho de 2008 | N° 15672AlertaVoltar para a edição de hoje

"Olha aquela carreta em ziguezague"

O estudante Rafael Hartmann dos Santos, com a inquietude dos seus 17 anos, não conseguia dormir na viagem do ônibus 456 da Viação Ouro e Prata.

Primeiro, em função de uma goteira que insistia em molhar o seu assento, o 38. Ele mudou para o 41, mas aí o que o incomodou foi o ar-condicionado, enregelante. Decidiu reclamar ao motorista, Gerson Rodrigues Machado. Não tinha como adivinhar que seria testemunha dos últimos instantes de vida do condutor do veículo.

- Olha aquela carreta, em ziguezague. Está com problema - disse Machado.

O estudante, em pé ao lado do motorista, conferia a hora no celular. Olhou para a rodovia e deparou com um monte de luzes vindo direto contra o ônibus, na mesma pista. O motorista do ônibus guinou para a direita, tentando evitar a colisão, mas estava entrando numa ponte e não havia espaço para fuga. A carreta, um Iveco 450 da Transportadora Giovanella, bateu de frente no coletivo, rasgando o lado esquerdo. O impacto fez com que Rafael atravessasse o pára-brisa do ônibus e caísse no asfalto. Acordou quando era socorrido. Está com os joelhos e um pé fraturados.


Depoimento do sobrevivente Edison Egmar Pires, que fala sobre as cenas de horror e heroísmo que testemunhou



Rafael, que saiu de Boa Vista do Buricá para visitar um afilhado em Porto Alegre, deve se transformar em testemunha decisiva da Polícia Civil para esclarecer o acidente. Outros passageiros confirmam que ele estava na cabine. A colisão que enlutou o Rio Grande, às 4h19min de terça-feira, matou 13 pessoas e deixou 20 hospitalizadas. Todos os atendidos nos hospitais de Estrela e Lajeado já foram liberados.

A polícia precisa da perícia nos veículos e dos exames de sangue dos motoristas para precisar as causas do acidente. O cilindreiro Dilceu Martines estava sentado na segunda fileira de poltronas, no corredor, e ouviu o motorista gritar: "Vamos bater!"

O estudante de Educação Física Eliseu Martins Júnior, de Palmeira das Missões, aproveitava as férias para visitar um amigo em Novo Hamburgo. Comprou passagem para outro ônibus, mas como o motorista parou no boxe errado, perdeu a viagem. Ele e uma mulher com o filho, que também haviam perdido o ônibus, foram recolocados no 456. Acomodou-se no lado esquerdo, atrás do motorista.

Em Lajeado, duas poltronas do lado direito foram liberadas e Eliseu se deitou sobre elas. Acredita que isso foi sua salvação. Cochilava quando ouviu o estouro da batida. Acordou no susto e foi um dos primeiros a sair.


Gráfico animado em 3D simula o acidente



Muitos trocaram de assento e creditam a isso sua sobrevivência. A aposentada Lucila Justen, 81 anos, ocupava a poltrona 9, atrás do motorista. Incomodada com o barulho dos carros que ultrapassavam o ônibus, foi sentar no lado direito. O vigilante Paulo Rodrigo Frank, 28 anos, comprou passagem para a poltrona 26, atrás do motorista. Em Lajeado, decidiu ocupar duas poltronas do lado direito, que vagaram. Foi acordado pelos gritos.

A impressão dos passageiros é confirmada pelos fatos. Dos 13 sobreviventes entrevistados por ZH que conseguiram lembrar os locais que ocupavam, oito sentavam-se em poltronas do lado direito.

Outros quatro estavam no lado esquerdo, o mais atingido pela colisão. Mas sentavam ao fundo, que foi mais poupado.

( humberto.trezzi@zerohora.com.br )

HUMBERTO TREZZI
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