Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
- Magri, o Xangrê vai expulsar os agricultores.
O fonograma que chegou em maio de Brasília, do gabinete do correligionário e deputado federal Odacir Klein, finalmente fez o prefeito Gervásio Magri (MDB) entender que o que ouvia nas ruas de Nonoai era mais do que um boato. Nelson Xangrê, o cacique da Reserva Indígena de Nonoai, estava pronto para atacar os colonos e expulsá-los das terras.
Os índios só não haviam desencadeado o confronto porque Xangrê queria saber antes se o Exército não iria impedir. Enviou seu braço-direito, Amandio Vergueira, o Kacrê, a Santo Ângelo para conversar com o general José Eduardo Lopes Teixeira. O oficial não se opôs ao movimento. Mas exigiu ser informado 24 horas antes de começar a ação.
Depois de receber o sinal verde do general, Xangrê marcou o início das hostilidades para a madrugada de 4 de maio. Tão logo o clarão das sete escolas incendiadas pelos caingangues iluminou a madrugada, a notícia de que tinha começado uma
guerra correu entre os 3 mil
agricultores que viviam na área.
- Mandei a mulher e as crianças embora. Peguei uma espingarda, um revólver 38 e muita munição e fiquei acantonado perto do chiqueiro, com a intenção de receber os bugres à bala - recordou Ademar Bento da Silva, 59 anos, o Cachimbo, que havia comprado uma propriedade de 40 hectares em Porongos.
O agricultor não precisou esperar muito. No final da manhã, índios chefiados por Nisio da Silva e que tinham entre seus guerreiros Mario Belin chegaram.
- Vi aquele bando de índios chegando. Creio que eram uns 300. Então resolvi sair do esconderijo com as mãos para cima - diz Cachimbo.
O homem foi cercado pelos caingangues. Furiosos, os índios se preparavam para maltratá-lo. Foi quando, no meio dos indígenas, ouviu-se uma voz:
- Parem, parem, não matem o homem. Ele é o meia-esquerda do nosso time. E joga bem.
Assustado, Bento foi transformado em amigo. Não só escapou de uma
surra como recebeu um prazo razoável para sair da reserva com parte dos
seus bens.
Funcionários da Funai cobravam comissão
Atílio Vieira, vizinho de Cachimbo, teve uma orelha cortada e apanhou dos índios. Os dias que se seguiram foram de violência. Os caingangues chegavam e cercavam as casas dos agricultores. Os homens fugiam para o mato e deixavam a mulher e os filhos na residência. A família recebia um prazo de meio dia para abandonar tudo - plantação, animais e bens - e sair da área. Para mostrar que falavam sério, os caingangues faziam uma demonstração de força: matavam um porco a pauladas na frente da mulher.
No final da primeira semana de conflito, o quadro era de desolação, lembra o agricultor Lauro Rufino Pinheiro, que em 1978 tinha uma gleba de 20 hectares na área indígena onde vivia com a mulher Durnelda. Hoje, a família está assentada em Ronda Alta. A exemplo de outros intrusos, Pinheiro pagava, com 20% da produção, pelo arrendamento das terras para os funcionários da Funai.
Recordou que, na época, os responsáveis pela Funai na
área indígena avisavam que quem pagasse a comissão não seria importunado pelos caingangues.
- Os funcionários da Funai mentiram. Na hora da guerra, o contrato não valia nada. A gente mostrava o papel para os índios e eles respondiam que não sabiam ler.
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