clicRBS

Buscar

">ZERO HORA.com

none
  •  | 
  • imprimir
  •  | 
  •  | 
  • letra A - | A +
20 de julho de 2008 | N° 15668AlertaVoltar para a edição de hoje

"Só marco o que vejo como falta"

Nem todos entenderam e, entre dezenas de elogios, o árbitro gaúcho Leandro Vuaden também recebeu algumas críticas pela atuação em Palmeiras 3x1 Fluminense, quarta-feira. A exemplo dos também gaúchos Leonardo Gaciba e Carlos Simon, e dos sul-americanos e europeus, Vuaden deixou o jogo correr, sem marcar falta em qualquer encontrão, e ajudou para que fosse uma das melhores partidas do Brasileiro. Quem não conhecia Vuaden pode ter estranhado, mas esse estilo ele traz desde que saiu do curso de arbitragem da Federação Gaúcha, em 1997. Foi só aprimorar ao longo do tempo. Aos 33 anos, casado com Jaqueline, pai de Felipe, 11, e Pedro Luís, nove meses, ex-vendedor de uma rede de lojas e atual representante comercial, Vuaden é um dos aspirantes ao quadro de árbitros da Fifa e ocupa o 14º lugar no ranking da Comissão Nacional de Arbitragem (os 10 primeiros são os da Fifa). Hoje, ele praticamente dedica todo o seu tempo à arbitragem - na preparação, no estudo dos jogos, na análise do que fez em campo. Sobre o que fez quarta-feira, Vuaden está realizado: agiu com sabedoria, foi compreendido pelos jogadores, reduziu as simulações e ajudou para a normalidade da partida.

- Este é o papel do árbitro, colaborar para que o jogo seja um espetáculo - diz o gaúcho.

Zero Hora - Você se destacou quarta-feira por deixar o jogo correr. Como o país ainda não está habituado com o estilo, você teme ser incompreendido?

Leandro Vuaden - O amadurecimento da arbitragem passa também pela imprensa, que tem função importante. O jogador exerce papel fundamental no espetáculo, mas cumpre também o de tentar enganar a arbitragem. Cabe ao árbitro ter inteligência para ler bem o jogo, deixar o futebol fluir. É preciso dar liberdade, mas cuidando para que não descambe para a violência.

ZH - De onde vem esse estilo?

Vuaden - Há uns dois anos tenho este rótulo no meio da arbitragem gaúcha de ser um árbitro sul-americano. Além disso, na nossa pré-temporada em Salvador do Sul, foi pedido que fôssemos mais arrojados, deixássemos o jogo andar mais. Como já fazia isso, foi só aprimorar. É preciso fazer com que os próprios jogadores entendam que cada árbitro tem um jeito próprio. Fiz isso também no jogo entre São Paulo e Ipatinga.

ZH - Mas por que dessa vez chamou atenção?

Vuaden - Porque era clássico, todos assistiram pela TV e os jogadores pensaram apenas em jogar. Aí, ficou uma maravilha. Mas isso tudo é efeito também da evolução da arbitragem brasileira. Temos apoio da comissão nacional e das federações e, com isso, o árbitro trabalha tranqüilo. Sabe que tem apenas a obrigação de atuar bem, dar confiança. O espetáculo melhora.

ZH - Tem a ver com a escola gaúcha de arbitragem?

Vuaden - Acho que sim. Fico feliz em dizer isso. Trabalho assim inclusive na segunda divisão gaúcha. É um pouco diferente, claro, a gente enfrenta algumas resistências, mas aos poucos os jogadores entendem. Eu não posso ser egoísta, pensar apenas em mim. Gosto é de pensar em como contribuir para melhorar o futebol.

ZH - Por que os demais árbitros brasileiros têm tanta dificuldade para agir assim sempre?

Vuaden - Depende de cada um, do momento. É difícil falar dos outros. Sei por que faço assim. Sou tranqüilo, sossegado. Passei o dia do jogo, por exemplo, com o celular desligado, concentrado, pensando nos jogadores dos dois times, no jeito de cada um. A arbitragem exige que a gente viva o futebol Eu gosto do futebol bem jogado.

ZH - Como foi a reação dos jogadores ao perceberem que você não marcaria qualquer falta?

Vuaden - Todos entenderam. No intervalo, o Marcos (goleiro do Palmeiras) veio falar comigo e me cumprimentar pela atuação, como fizera o Rogério Ceni contra o Ipatinga. O mesmo fizeram Kléber, Thiago Neves e Conca, jogadores de mais habilidade. Eles perceberam que não marcaria falta em qualquer contato físico, que só controlaria o antijogo. O Valdívia é um jogador habilidoso, força muito, cai, mas nem sempre é falta. Em certo momento, ele quis contestar, mas apontei para a cabeça e pedi que ficasse atento. Ele aceitou. Agora, na próxima partida os jogadores já saberão como é o meu estilo e saberão que não adianta simular. Só marco o que vejo como falta. A primeira do Fluminense, por exemplo, em toda a partida, só foi marcada por volta dos 30 minutos do segundo tempo.

ZH - Você recebeu muitos cumprimentos?

Vuaden - Inúmeras ligações. Minha caixa postal ficou lotada. Mas o mais importante é minha própria avaliação. É preciso ter todo cuidado, manter a rotina, usar os elogios como motivação, mas sem tirar os pés do chão.

ZH - No jogo de quarta-feira houve lance em que o braço do Granja acertou o pescoço do Júnior César, que caiu. Você percebeu que não era grave?

Vuaden - Houve apenas contato, sem maldade. Em lances assim, é normal o jogador abrir o braço, mas nada justificava aquela reação do Júnior César. Fui até olhar de perto porque do jeito que ele caiu parecia que tinha levado um soco. Em um lance logo depois, o Granja entrou firme no Júnior e aí levou cartão.

ZH - O tempo de bola rolando no jogo ficou perto de 60 minutos, o ideal preconizado pela Fifa.

Vuaden - Estou superfeliz, tranqüilo, consciente de que dei pequena parcela de colaboração para que a partida fosse boa, bem disputada. Ganhou quem foi ao estádio e também quem viu pela TV.

MÁRIO MARCOS DE SOUZA
Mais
Leandro Vuaden trabalhou em 4 jogos e apita SP x Botafogo neste domingo

  •  | 
  • imprimir
  •  | 
  •  | 
  • letra A - | A +

Grupo RBSDúvidas Frequentes | Fale conosco | Anuncie - © 2000-2007 RBS Internet e Inovação - Todos os direitos reservados.