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Demorou 10 minutos no jogo Palmeiras 3x1 Fluminense, quarta-feira, para o goleiro Marcos perceber a mudança determinada pela Comissão de Árbitros da CBF que revolucionará o Brasileirão. O pentacampeão foi buscar a bola para cobrar o tiro de meta. Na volta, comentou com repórteres atrás da goleira:
- Esse aí é bom. Não dá qualquer "coisinha". Já dei o toque na rapaziada.
Marcos é o capitão do Palmeiras. Era mesmo sua função alertar os companheiros. Encenar uma queda poderia significar contra-ataque perigoso. Melhor ficar de pé e jogar. O "esse aí" era Leandro Vuaden. Até agora, o Brasil se derramou em elogios - e fez algumas críticas também - pelo fato de o gaúcho ter deixado o jogo de desenrolar em ritmo frenético, sem marcar faltas no primeiro ombro a ombro. O que não se imaginava é que Vuaden apitou assim por determinação da CBF. Seu desempenho faz parte de uma cruzada.
- A comissão de arbitragem fez proposta para adotarmos o estilo
sul-americano. É uma filosofia da Fifa, da
Conmebol. E, agora, da CBF. É uma cruzada que precisava acontecer. O cara esbarrou? Vai para o jogo - revelou Carlos Simon na sexta-feira, por telefone, de Assunção, onde participava de um curso da Fifa.
Talvez pelo alerta de Marcos, o Palmeiras venceu o Fluminense. O certo é que a elogiada atuação de Vuaden remete para uma discussão: os árbitros brasileiros terão condições de cumprir a nova diretriz. Há explicações de todos os matizes, mas pode-se dizer que tudo depende da "segurança do juiz no próprio taco", como diz Renato Marsiglia, representante brasileiro na Copa de 1994 e comentarista da Rede Globo. Se o árbitro é dono de forma física apurada para acompanhar de cima cada lance de um jogo mais veloz e confiança na sua rapidez de raciocínio, tem mais condições de deixar a bola andar.
- A questão crucial desse estilo de arbitragem é saber diferenciar virilidade e violência. Esta linha, que separa o choque normal da deslealdade, precisa ser clara na cabeça do
árbitro. Por um motivo: ele
precisa adotar o mesmo critério para os dois lados. Do contrário, os jogadores não cooperam - explica Marsiglia.
A circular 51 da CBF, deste ano, que mandou punir carrinhos de qualquer espécie e o uso excessivo das mãos nos lances, pode ter causado alguma confusão na cabeça dos árbitros. Mas não deveria. O objetivo da CBF não era o de mandar um recado para marcar mais faltas. O sentido era o de evitar a violência desmedida. Tanto que a Fifa é clara: os jogos patrocinados pela entidade devem ter, no mínimo, 65 minutos de bola rolando.
Na Ilha do Retiro, por exemplo, Paulo César Oliveira marcou 44 faltas - quase uma a cada dois minutos. Na Eurocopa deste ano, a média ficou entre 25 e 30, com algumas exceções. A final entre Alemanha e Espanha, por exemplo, registrou 41 faltas.
Mas nem todos se derretem pelo estilo de Vuaden. É o caso de José Roberto Wright, que apitou a Copa de 1990 e ostenta, no currículo, a partida em que expulsou cinco jogadores do
Atlético-MG no primeiro tempo, contra
o Flamengo, pelas semifinais da Libertadores de 1981.
- Apitar na Europa é mole. Os atletas jogam limpo. O brasileiro é desleal - defende Wright.
A cooperação dos jogadores, neste sentido, é fundamental. Pelo menos é o que dizem os especialistas. Marsiglia vai além: duvida que Vuaden consiga reeditar a atuação do Parque Antártica em todos os jogos. Sem percepções como a do goleiro Marcos, talvez fosse inevitável expulsar: um choque mal-interpretado pelo atacante, depois o revide desleal e pronto, confusão à vista.
- Correr mais ou menos o jogo não depende só do árbitro, mas dos jogadores. Prefiro o jogo bonito, com liberdade vigiada - diz Arnaldo Cezar Coelho, juiz da final da Copa de 1982.
Com ou sem a liberdade vigiada referida por Arnaldo, o certo é que a ordem agora é adotar o estilo Vuaden de apitar. E fazer do Brasileirão uma Libertadores.
( diogo.olivier@zerohora.com.br )
| Frases da polêmica |
| Renato Marsiglia, comentarista de arbitragem da Rede Globo |
| "Deixar rolar é uma coisa; violência é outra, bem diferente" |
| José Roberto Wright, comentarista de arbitragem da Rede Globo |
| "Se não conseguir controlar, expulsa. É muito simples. O árbitro tem que ser forte" |
| Arnaldo César Coelho, comentarista de arbitragem da Rede Globo |
| "A aplicação das regras não é uniforme no Brasil" |
| Carlos Simon, árbitro da Fifa |
| "O maior perdedor em um jogo de 80 faltas é o público" |
| Nilmar, atacante do Inter |
| "O Vuaden foi muito bem (em Palmeiras x Fluminense). Se marcar todas as faltas, o jogo não anda" |
| Veja os árbitros mais sorteados para apitar neste campeonato. |
| 1º) Jailson Macedo Freitas (BA) 7 jogos |
| 2º) Alício Pena Junior (MG) 6 jogos |
| 3º) Carlos Simon (RS) 6 jogos |
| 4º) Héber Roberto Lopes (PR) 6 jogos |
| 5º) Leonardo Gaciba (RS) 6 jogos |
| 6º) Paulo César Oliveira (SP) 6 jogos |
| 7º) Sálvio Spinola (SP) 6 jogos |
| 8º) Djalma Beltrami (RJ) 5 jogos |
| 9º) Evandro Rogério Roman (PR) 5 jogos |
| 10º) Sérgio da Silva Carvalho (DF) 5 jogos |
| 11º) Célio Amorim (SC) 4 jogos |
| 12º ) Giulliano Bozzano (DF) 4 jogos |
| 13º) Leandro Vuaden (RS) 4 jogos |
| Você sabia? |
| Segundo a Fifa, um jogo patrocinado pela entidade deve ter, no mínimo, 65 minutos de bola rolando. |
| Os campeões de faltas* |
| Grêmio - 25,4 faltas |
| Náutico - 23,6 faltas |
| Goiás - 22,8 faltas |
| Inter - 22,3 faltas |
| *No Brasileirão (média por jogo): |
| A favor: Ruy Carlos Ostermann, colunista de ZH |
| - Essa é a chamada arbitragem promissora. Promete um caminho para solucionar essas perturbações estéticas que pretendem que o futebol seja uma ação punitiva, intocada. O futebol, no entanto, é um jogo de conflito físico e de boas soluções para esse conflito. A arbitragem tem que favorecer aquilo que aparece como fragilidade ou simulação e que as pessoas confundem com futebol de qualidade. Digo que é promissora porque acho que é uma iniciativa deles (árbitros). |
| Contra: Fernando Calazans, em sua coluna de sexta-feira no jornal O Globo |
| - O tal juiz, o elogiado Vuaden, e sua elogiada atuação foram um desastre. A ponto de permitirem que o maldoso e mal-intencionado Kléber jogasse o tempo todo dando braçadas e cotoveladas na cara dos adversários. Já pode isso? Como disse muito bem nosso editor Toninho Nascimento, "o juiz inaugurou um novo estilo: não marca faltas e fica parecendo que o jogo não teve faltas". É como aquele velho caso do marido que tira o sofá da sala. Os jogos ficam maravilhosos sem faltas: basta não marcá-las. |
| zerohora.com |
| Ouça trecho da entrevista com o ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho |
| Ouça trecho da entrevista com o ex-árbitro José Roberto Wright |
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