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Foram necessárias duas semanas de contatos telefônicos e de viagem para Zero Hora encontrar, escondido no mato, entre as cidades de Nonoai e Planalto, Nelson Xangrê, o cacique caingangue que em 1978 liderou a guerra contra os agricultores que viviam ilegalmente nas terras da Reserva Indígena de Nonoai.
Além de devolver aos caingangues as terras de suas reservas, o conflito ajudou a escrever na Constituição de 1988 o direito dos indígenas a áreas que pertenceram aos seus antepassados. Xangrê não desfrutou da fama que ganhou com o episódio. Preferiu fugir para o mato. Hoje, aos 62 anos, é um homem solitário e doente. A seguir, trechos da entrevista:
Zero Hora - Em 1978, o senhor liderou o maior conflito da história gaúcha entre agricultores e índios. Ao terminar a guerra, o cacique Xangrê era uma personalidade. Em vez de desfrutar a fama, o senhor desapareceu. Ficou com medo de represália?
Nelson Xangrê
- Não. Fiquei 15 meses como cacique e fiz o que
muitos que ficam anos e anos não fazem. Tirei os brancos das nossas terras e assegurei o futuro do nosso povo.
ZH - Por que o senhor desapareceu?
Xangrê - Na época em que a guerra foi dada por encerrada, ainda tinham áreas na reserva para serem retomadas. O Parque Florestal Estadual (20 mil hectares) que o governo havia tomado posse. Para mim, a guerra só terminaria quando essa área voltasse para os caingangues. Mas os nossos líderes se deixaram convencer pelos funcionários da Funai de que era hora de parar. Então, fui embora.
ZH - O senhor se considerou traído?
Xangrê - Não vejo assim. O que aconteceu é que comecei a ser motivo de divisão da tribo, porque queria uma coisa, e os líderes, outra. Se a tribo se dividisse naquela hora, estaria aberta a porta para a volta dos intrusos, e seria o nosso fim. Então, resolvi
partir.
ZH - Para muitos, foi uma fuga.
Xangrê -
Não fugi. Primeiro fui para Chapecó (SC), onde os caingangues estavam envolvidos em uma luta pela retomada de uma área invadida pelos brancos. Nestes anos todos, sempre estive, de uma maneira ou outra, discutindo os rumos das lutas dos índios.
ZH - O senhor assumiu como cacique em 15 de outubro de 1977, sete meses antes da guerra. Tentou convencer os intrusos a sair da área pacificamente?
Xangrê - Fui eleito com a promessa de tirar os brancos da nossa terra. Eles não queriam conversar. Acreditavam que poderiam tomar conta da reserva como tinham feito em outras áreas.
ZH - Como foi preparada a guerra contra os brancos?
Xangrê - Tomei três providências: mandei um grupo de índios impedir que novos intrusos se estabelecessem na área, vigiando os acessos a reserva. Dei ordem para que os colonos fossem desarmados. E mandei
avisar que estava proibido derrubar mato.
ZH - Como os índios conseguiram desarmar
os agricultores?
Xangrê - Nós sabíamos quem eram os valentes. Então, pegávamos eles de surpresa quando andavam pela área. Recolhemos quatro revólveres, algumas espingardas e bastante bala (munição).
ZH - Por que colocaram fogo nas escolas? Elas não poderiam ser usadas pelos filhos dos índios?
Xangrê - Estavam vazias durante a madrugada. Portanto, não haveria risco de ninguém morrer.
ZH - Há documentos do Conselho Indigenista Missionário e da Comissão Pastoral da Terra mostrando que, em 1974 e 1975, eles o apoiavam.
Xangrê - São pessoas que ensinaram muito a líderes de 1978. Mas sempre tive o meu pensamento de como conduzir a luta. Eles não fizeram a guerra. Fomos nós.
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