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20 de julho de 2008 | N° 15668AlertaVoltar para a edição de hoje

O comandante

Muito embora fosse filho de José Juvencio, um antigo líder da tribo dos caingangues de Nonoai, Nelson Xangrê foi um cacique polido pelos padres da Teologia da Libertação, ala da Igreja Católica ligada aos pobres.

Entre 1974 e 1977, ele participou de várias reuniões da Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), na região de São Miguel das Missões. Um dos seus tutores era o padre Antônio Cecchin, 80 anos. Em 1977, Xangrê estava pronto para assumir a liderança. Não teve dificuldade de vencer as eleições do então cacique Peuí, um idoso que tinha fraqueza por bebidas alcoólicas, generosamente oferecidas pelos brancos.

Ao assumir, Xangrê formou uma espécie de Estado Maior - os índios se organizam usando estrutura militar. Escolheu como coronel, o segundo em comando, Amandio Vergueira, Kacrê, um homem experiente e respeitado por ser valente. Nomeou como um dos seus capitães o cunhado José Orestes Nascimento, Zé Lopez, atual cacique de Nonoai.

Na época, os 2 mil índios estavam divididos em três aldeias que existem na Reserva de Nonoai: Bananeiras, Pinhalzinho e Posto Central. Cada uma dessas aldeias é dividida em 15 comunidades, pequenos povoados. Zé Lopez recebeu de Xangrê a missão de organizar grupos formados por 30 guerreiros em cada uma das aldeias. Esses grupos ficaram sob comando de um tenente que se reportava a Zé Lopez.

- Conseguimos alguns revólveres velhos, umas espingardas e facões e fizemos lanças, arcos e flechas - recordou Vergueira.

Xangrê sabia que iria enfrentar agricultores armados e dispostos a lutar pelos seus bens. Também tinha conhecimento de que, se houvesse muitas mortes, perderia o precioso apoio dos padres. Daí, determinou um procedimento que deveria ser adotado em todos os grupos de guerreiros na hora do enfrentamento com os brancos: os índios deveriam chegar gritando, cercar a casa, saquear alguns bens e fazer uma demonstração de força na frente da família, abatendo um animal a pauladas.

- Era para parecer que éramos muitos. Nós mandamos os guerreiros ficarem entrando e saindo do mato em lugares diferentes para impressionar os agricultores - contou Vergueira.

O cacique se articulou com organizações não-governamentais da época, como a Associação Nacional de Apoio ao Índio (Anai), para que os jornalistas tivessem acesso à área sem serem detidos nas barreiras da Brigada Militar.

Em fevereiro de 1978, houve uma reunião entre os membros do Estado Maior de Xangrê para decidir como iriam iniciar a guerra. Foi decidido, lembra Zé Lopez, que seria colocado fogo em sete escolas construídas pela prefeitura de Nonoai na área para os filhos dos agricultores. O fogo teria de ser colocado durante a noite, para ser visto de longe e espalhar medo. Foram formados grupos de três guerreiros para cada um das escolas. Ficou a cargo do capitão fornecer cinco litros de gasolina para cada um dos grupos, com a missão de colocar fogo nas escolas.

Durante muitos anos, Zé Lopez guardou o segredo de como conseguiu a gasolina para colocar fogo nas escolas. Revelou o nome de quem forneceu o combustível a ZH no último dia 22 de maio. Na ocasião, Zé Lopez, estava emocionado no enterro, no Cemitério Municipal de Nonoai, do funcionário da Funai Lídio Della Betta. Discursou dizendo que Della Betta tinha sido uma amigo dos índios e que só não estava sendo enterrado no Cemitério dos Índios por não existir interesse da família. Foi Della Betta quem forneceu a gasolina da Funai para os índios colocarem fogo nas escolas.

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