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Com porta para o gabinete principal, a austera sala de reuniões do quinto andar do Ministério da Fazenda prenuncia o recado que o titular da pasta pretende passar na entrevista que deveria ser de apenas 30 minutos mas alongou-se por quase uma hora e meia: apesar do momento crítico, pontuado pela inflação global, o Brasil está atento, mas em situação melhor do que outros países, e usando instrumentos para debelar a alta de preços puxada pelos alimentos e o petróleo e ainda continuar crescendo.
No tom didático que usa nas exposições sobre o bom desempenho da economia brasileira, Guido Mantega aproveitou a entrevista concedida em Brasília com exclusividade a ZH em 12 de junho, e que você tem a íntegra em vídeo em zerohora.com, para discorrer sobre os avanços conquistados pela equipe econômica e sobre a oportunidade que se coloca diante do país e, em especial, do Rio Grande do Sul:
- O Brasil é o país mais competitivo em quase tudo. Temos produtividade, custo
baixo, condições climáticas
favoráveis e a maior área agriculturável disponível do planeta. Vamos transformar essa crise de commodities numa oportunidade para o Brasil.
O economista está convicto de que o país não reviverá o fantasma da inflação, graças à política fiscal que prevê controle maior de gastos do governo e à condução do Banco Central na área monetária por meio do aumento da taxa de juro. Defende a dose aplicada sobre o superávit primário, que aumentará de 3,8% para 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB), proporcionando uma economia a mais de R$ 14 bilhões, mas esquiva-se, como de hábito, sobre a possibilidade de o juro subir mais:
- Não há só uma arma contra a inflação. O juro é uma, e ele pode ser mais ou menos eficaz dependendo do tipo de inflação. Estamos usando um conjunto de armas. O superávit primário é a mais pesada. Qual é o objetivo de você subir juro? É reduzir a demanda agregada, reduzir o gasto, mas de forma indireta.
Entre tantos diagnósticos do encontro,
um deu fim a uma profecia para
transformar-se em esperança:
- O futuro chegou ao Brasil.
Zero Hora - Neste momento, o Brasil está preocupado com a inflação. Além de o Banco Central (BC) operar com o juro, o que mais o governo está fazendo para evitar o aumento da inflação?
Guido Mantega - Antigamente, o Brasil vivia uma inflação estrutural, causada por erros de política econômica. Agora trata-se de uma nova modalidade, gerada no Exterior, uma inflação de commodities. É parecido com o choque dos anos 70, que misturava petróleo com commodities agrícolas. A diferença é que este choque afeta mais outros países. Embora estejamos observando uma elevação no Brasil, é menor do que nos outros emergentes. O Brasil já teve uma das maiores inflações do mundo. Essa fase já passou, está enterrada. Para o Brasil, claro, é desconfortável ter inflação de 5%, 5,5%.
ZH - Qual é o nível confortável?
Mantega
- É 4,5%, nosso centro da meta. Conseguimos estabelecer uma meta razoável,
combinando inflação sob controle e permitindo crescimento. A média mundial era 3,5% até o ano passado. Nos últimos 12 meses, subiu dois pontos percentuais e meio. Estamos na média.
ZH - Neste ano, a meta será superada?
Mantega - Não, porque temos a margem.
ZH - Que medidas serão tomadas para evitar o avanço da inflação?
Mantega - Se é inflação de commodities agrícolas, significa que, quando vierem as safras, a agricultura reage. É só perguntar a seu agricultor lá. O trigo era inviável até um tempo atrás, porque a Argentina produzia a um preço muito mais baixo do que o nosso. Agora não, viabilizou o trigo brasileiro. O produtor do Rio Grande do Sul poderá produzir mais trigo, que tem mercado ao preço que cobre o custo e ainda dá lucro para ele. O Rio Grande do Sul deve estar vivendo um boom, porque é um grande produtor de commodities agrícolas, de máquinas. Você percebe uma
recuperação forte do Rio Grande do Sul.
ZH - Embora a safra
ajude a acomodar os preços das commodities agrícolas, há projeções do petróleo a US$ 200 o barril. Isso afetará essa expectativa?
Mantega - O preço do petróleo preocupa. Tem também aumento da demanda por petróleo e alimentos. Não se fizeram investimentos necessários para aumentar a oferta, não no Brasil, que foi um dos poucos que aumentou a produção agrícola. Os EUA têm um comportamento que atrapalha bastante. Eles começaram a fazer etanol do milho. Do ponto de vista tecnológico não é recomendável, porque o etanol tem de ser feito da cana-de-açúcar, mais eficiente. Para o Brasil, é também uma grande oportunidade de se destacar como o maior produtor de tudo isso. Pode ocupar mercados. Porque o Brasil é o país mais competitivo em quase tudo. Temos produtividade, custo baixo, condições climáticas favoráveis e a maior área agriculturável disponível do planeta. Vamos transformar esta crise de commodities numa oportunidade para o Brasil.
ZH -
Então pode-se esperar um grande plano
safra em julho? O que vem de investimento?
Mantega - No plano safra estarão medidas que vão estimular o aumento da produção. Nossa safra vai ser de 143 milhões de toneladas, um recorde. Podemos ir muito além disso.
ZH - Mas quanto o governo vai investir neste ano na safra?
Mantega - No ano passado, foram de R$ 60 bilhões. Vamos tomar medidas adicionais para que a agricultura possa ter crescimento decisivo e aproveitar o bom momento. Porque para uns é um mau momento, para outros pode ser bom. Além disso, o governo tem tomado medidas para atenuar o impacto da inflação. Não é possível reduzir o preço do petróleo. Posso tentar produzir mais etanol. Estamos aumentando o superávit primário. Significa que o governo vai poupar mais e gastar menos e, com isso, estará atenuando sua demanda.
ZH - O aumento do superávit vai ficar só no meio ponto (de 3,8% para 4,3% do PIB) ou o governo
planeja mais?
Mantega - O meio ponto significa R$ 14
bilhões a menos: 3,8% dá mais ou menos R$ 100 bilhões que não são gastos pelas três esferas do governo.
ZH - A economia sairá de onde?
Mantega - Estamos economizando. O superávit é de quase R$ 50 bilhões. Investimentos prioritários serão mantidos. O PAC está mantido. Tem de segurar outras despesas.
ZH - Na última reunião ministerial, o vice-presidente colocou todos numa saia-justa perguntando por que o Brasil tem a maior taxa de juro do mundo e ninguém teria respondido a José Alencar. Por que temos a maior taxa do mundo e por que ninguém respondeu?
Mantega - É uma pergunta que você deve fazer ao (Henrique) Meirelles (presidente do BC). Tínhamos de passar para outro assunto, ele até ia responder. É um problema que vem sendo corrigido. Nos últimos três anos, o Banco Central só baixou a taxa.
ZH - O mercado não acredita na medida gradualista do
BC, tanto que o juro futuro aponta alta.
Mantega - Antes do aumento
inflacionário, o Banco Central estava seguindo a trajetória de redução de taxa - chegou em 2005 a 19,75% e veio reduzindo até 11,25%. O BC cumpriu bem sua função, tanto que a economia voltou a crescer.
ZH - Isso significa que ela não vai brecar o crescimento?
Mantega - Vai. A estratégia está correta porque estamos atacando a inflação de vários lados. Não há só uma arma contra a inflação, o juro é uma. Estamos usando um conjunto de armas. O superávit primário é a mais pesada, porque é reduzir gasto diretamente. Qual o objetivo de subir juro? É reduzir a demanda, gasto, mas de forma indireta, porque o juro vai diminuir parte do investimento, que vai diminuir a demanda. Fazer um gasto menor, tem resultado imediato. O governo não deixará de tomar todas as medidas para segurar a inflação.
ZH - Os empresários reclamam do excesso de impostos. Mesmo com a carga tributária atual, foi aprovada na Câmara a nova
contribuição, a CSS.
Mantega - Você já viu
algum empresário não reclamar do governo? Empresário vai reclamar sempre. Não gosta de pagar impostos. Por que os empresários estão pagando impostos? Estão pagando porque estão faturando mais do que faturavam e estão tendo lucros muito maiores do que tinham no passado.
ZH - Por que não se consegue baixar a carga tributária?
Mantega - A carga é elevada, mas não está impedindo que o país cresça. Desde que sou ministro da Fazenda, tenho reduzido tributos.
ZH - A essa altura o leitor está pensando: mas por que então eu tenho de pagar 0,1% de CSS?
Mantega - Reduzimos o IPI sobre quase todos os produtos, impostos sobre investimento e exportação, antecipamos o crédito do PIS e Cofins, reduzimos os impostos da cesta básica. Fizemos uma reforma tributária para as micro e pequenas empresas. E aí acabaram com a CPMF e, com isso, caíram R$ 40 bilhões. Nós só recolocamos um quarto disso,
com o IOF. Já baixamos quase R$ 100 bilhões de tributação, somando a
CPMF, que, confesso não por minha vontade, foi reduzida. Estamos no caminho certo, propusemos uma reforma tributária, que vai baixar contribuição previdenciária.
ZH - O senhor tem previsão de votar a reforma ainda este ano?
Mantega - Vocês pensam que é um passe de mágica. Tem uma liturgia. Estão trabalhando arduamente. Na Câmara, será aprovada, na minha opinião, antes de agosto. Depois vai para o Senado, e lá será um outro capítulo. Não é fácil aprovar uma reforma tributária.
ZH - O leitor quer saber por que terá de pagar a CSS.
Mantega - Você tem de perguntar para o Congresso. Não sou eu que estou criando.
ZH - Não é o governo?
Mantega - Não. O governo não está criando nada.
ZH - A sua base está defendendo.
Mantega - A regulamentação da emenda
29 da saúde pretende criar uma despesa nova da saúde. É até proibido pela Constituição criar uma despesa sem criar uma fonte de receita.
ZH - Na votação da CSS, o governo quase perde, foram apenas dois votos.
Mantega - Não é simpático aumentar um tributo, mesmo quando é insignificante, de 0,1%, e tem um mérito, que é totalmente para a saúde. Mesmo assim, concordo que cobrar imposto ninguém gosta. Se imposto fosse bom, não chamava imposto. Mas é necessário. Você gosta de pagar imposto? Eu também não gosto.
ZH - Os empresários ainda reclamam do dólar.
Mantega - Reclamam, vão continuar reclamando, mas estão vendendo mais para o mercado interno.
ZH - O dólar vai continuar assim? Não muda?
Mantega - Não sei, nosso dólar é flutuante.
ZH - O futuro chegou ao Brasil?
Mantega - Chegou. O futuro chegou no Brasil. Hoje o Brasil é um país dinâmico, que tem as contas todas equilibradas, fiscal, a inflação,
apesar desta subida, está sob controle, tem uma estrutura produtiva dinâmica, com uma indústria forte, complexa. O Brasil tem uma
indústria que se modernizou inclusive graças à valorização do real. Não estou dizendo que sou favorável, antes que vocês coloquem: o ministro disse que gostou.
ZH - O senhor tem cancha com jornalistas.
Mantega - Vocês é que provocam. Se tiver um mau jornalista não dá para fazer uma boa entrevista. Então, esta valorização do real permitiu forte modernização do parque industrial porque as empresas compraram maquinário moderno e barato e estão com aumento de produtividade.
ZH - Tanto que a importação aumentou.
Mantega - Uns dizem que até a alta foi um pouco demais.
ZH - O senhor acha que ficou alta demais?
Mantega - Está um pouco alta, mas temos de compensar com mais exportação. Por isso, na política industrial existem medidas para estimular as exportações. O Brasil tem de ocupar um espaço cada vez maior no
comércio internacional. Temos de diversificar parceiros, exportamos desde aviões até trigo, até gado, então temos
de ser campeões em todos os setores. E o Brasil é competitivo, exporta carro, avião, bens de capital, máquinas agrícolas e bens agrícolas.
ZH - Se o futuro chegou, como o senhor projeta o Brasil até o final deste governo e como o país vai se inserir no mundo?
Mantega - Projeto que o Brasil já atingiu um patamar de crescimento em torno de 5%. No patamar de 5%, se você crescer 10 anos ou 20 anos consecutivos, seremos uma das cinco maiores economias do mundo. Estamos nessa trajetória. Temos de fazer várias coisas para garantir isso. Temos de continuar garantindo um forte investimento, investimento em infra-estrutura, em energia elétrica, energia nuclear, termelétrica, petróleo e gás. E cuidando de produzir em todos os setores, garantir aumento de produtividade. O governo tem de se empenhar que haja redução de custo fiscal, reduzir o custo burocrático.
Clique na imagem e confira a íntegra da
entrevista:
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