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27 de maio de 2008 | N° 15614AlertaVoltar para a edição de hoje

Quando ele melhorou, dizia: "Eu quero viver, quero ser feliz"

Entrevista: Mãe e pai de menino que tentou se matar aos 10 anos

O que fazer quando o filho único de um casal, uma criança de 10 anos que freqüenta a melhor escola da cidade e dispõe de todos os recursos que uma família de classe média pode oferecer, cansa de viver?

- A vida vira de cabeça para baixo, e você perde a direção. Nós o vigiávamos o tempo inteiro, em todos os lugares... - responde o pai de um garoto portador de transtorno bipolar que viveu essa situação.

Naturais de Santa Catarina, o homem e a mãe do garoto buscaram ajuda na Capital, contam como é possível superar o trauma de um filho tentar o suicídio e revelam a luta pela vida travada ao longo dos últimos quatro anos.

Uma batalha que poderá se estender por toda a existência do menino, hoje com 14 anos. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que cerca de 20% das pessoas que tentam suicídio repetirão o gesto. A doença, nesse caso, é um agravante. Coordenadora do Ambulatório do Serviço de Psiquiatria da Criança e do Adolescente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a psiquiatra Silzá Tramontina diz que "entre 20% e 40% dos portadores de transtorno bipolar vão fazer uma tentativa de suicídio".

- É fundamental o diagnóstico correto, a medicação adequada e a estabilização do paciente - diz Silzá.

Em uma década, 820 garotos e garotas com menos de 20 anos cometeram suicídio apenas no Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida pelos pais do menino:

Zero Hora - Como vocês perceberam que algo não estava bem?

Mãe -
Percebemos alguma coisa diferente quando o nosso outro filho ficou maiorzinho. Comparávamos os dois, e víamos diferenças. Ele estava na pré-escola, com cinco para seis anos.

ZH - E quando notaram que era algo mais grave?

Mãe -
Ele estava na 2ª série, tinha sete para oito anos. Ficava muito irritado, com comportamento difícil, fora do padrão para a idade.

Pai - Estava feliz, daqui a pouco começava a brigar, a ficar triste.

ZH - Até aquele momento vocês achavam que era algo emocional?

Mãe -
Sim. Pensávamos que éramos os culpados por não ter sabido educá-lo. Um psiquiatra infantil diagnosticou TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). Ele melhorou, mas, com o tempo, começou a piorar. Chegamos a uma outra especialista, em Porto Alegre, que diagnosticou transtorno bipolar. Ele estava na 3ª série e tinha oito anos.

ZH - Não é um tratamento barato.

Mãe -
Não, não é barato. Psicólogo, psiquiatra, deslocamentos, medicação... Tudo particular.

Pai - Chegamos a gastar aproximadamente R$ 2 mil por mês.

ZH - Se fosse pelo SUS, o filho de vocês teria tratamento parecido?

Mãe -
Acho que não. Até pelos medicamentos usados, alguns muito caros... Chegamos a viajar para Porto Alegre a cada 15 dias.

ZH - Após o diagnóstico, demorou quanto tempo até ele se estabilizar?

Mãe -
Dois anos e meio. Ele se sentia ruim, uma depressão muito forte. Nesse período, falava que queria morrer. Mas não acreditávamos que fosse possível.

ZH - Como vocês receberam a notícia de que ele havia tentado se suicidar?

Mãe -
Não gostaríamos de falar onde e como isso aconteceu. Ele tinha 10 anos, estava numa fase de depressão muito forte. Em um momento em que estava sozinho, aconteceu. A sorte é que uma pessoa percebeu e o socorreu. No ano seguinte, teve uma segunda tentativa.

ZH - É possível descrever o sentimento de um pais e de uma mãe num momento desses?

Mãe -
A vida vira de cabeça para baixo. Você perde a direção. É uma coisa que não se espera que vá acontecer. Voltamos nossa vida completamente para ele. Ficamos assustados, inseguros. Nós o vigiávamos o tempo inteiro, em todos os lugares. Dormíamos junto no quarto. Íamos à escola. O acompanhávamos em todas as atividades.

ZH - Como ele superou a tentativa?

Mãe -
Com tratamento psiquiátrico e psicológico. Quando estava bem, já estabilizado, começou a ter noção de tudo que havia ocorrido.

ZH - Vocês conversam com ele sobre isso?

Mãe -
Sim. No início foi difícil. Hoje encaramos bem melhor, como um período superado.

ZH - Ele tem ciência da doença?

Mãe -
Sim, conhece o problema que tem e sabe porque usa as medicações.

ZH - Ele sabe também que há riscos de suicídio em função da doença?

Mãe -
Sim, sabe que, se ficar depressivo, correrá riscos. Quando começou a ficar bem, passou a dizer: "vocês têm de ter confiança em mim, eu quero viver, não quero morrer, quero continuar com vocês, quero ser feliz".

ZH - Como vocês tratam o assunto com amigos e familiares?

Pai -
Além da psiquiatra e da psicóloga, contamos a tentativa para um número restrito de pessoas, conforme se tornava necessário. Achamos que um número mínimo de pessoas deve saber.

ZH - O que vocês recomendam aos pais diante de uma situação assim?

Pai -
Procurar profissionais da área (psiquiatras e psicólogos) e entender que, sem uso de medicações, não será possível controlar. Se o problema for um transtorno psiquiátrico, se inteirar bem do problema. Procurar soluções, não desistir. Porque, já que a pessoa não vê saídas, perdeu a vontade de viver, nós, pais, família, temos que dar apoio com paciência e amor. Procuramos mostrar para ele que pode fazer tudo o que os outros de sua idade fazem. Citamos exemplos de outros bipolares conhecidos que se destacaram.

ZH - Quais foram as maiores dificuldades que vocês encontraram?

Pai -
A medicação adequada.

Mãe - Encontrar o profissional que fizesse o diagnóstico correto.

ZH - As escolas estão preparadas para lidar com o problema?

Mãe -
Nosso filho passou por mais de uma escola, e em todas tivemos um apoio grande. As pessoas ficaram solidárias. Eram escolas particulares. Hoje, estabilizado, ele consegue passar de ano sem maiores dificuldades.

ZH - Como ele está hoje?

Mãe -
Ele está bem, vida normal.

Pai - Estabilizado.

ZH - Ele voltou a falar em suicídio?

Mãe -
Nunca mais. Pelo contrário. Ele nos diz que quer viver.

Mitos e Verdades
Mito
Quem se mata é bem diferente de quem apenas tenta
Verdade
Diversos estudos demonstraram que, vistas em conjunto, as pessoas que tentam o suicídio apresentam características diferentes daquelas que chegam a um desenlace fatal. No entanto, esses achados não deveriam funcionar como álibi para a pouca atenção dispensada aos que tentam o suicídio mas não morrem.
Tragédia silenciosa
Domingo
O Rio Grande em busca de explicações
Ontem
Os suicídios na internet
Hoje
A dor de quem fica

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