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27 de maio de 2008 | N° 15614AlertaVoltar para a edição de hoje

A dor de quem fica

No último dia da série de reportagens sobre suicídios, um fenômeno responsável pela morte de 1.074 gaúchos apenas no ano passado, Zero Hora revela o sofrimento de quem perdeu familiares e mostra como agiram pais de uma criança que, aos 10 anos, tentou se matar

Ao acabar com a própria vida, suicidas transferem o seu sofrimento para os que ficam.

Pais, mães, filhos e irmãos de quem se mata têm luto mais longo e dolorido que o enfrentado nas demais mortes.

- Quando são comparados três grupos - mortes naturais esperadas, mortes inesperadas (homicídios e acidentes de trânsito) e vítimas por suicídio - percebemos que as reações de luto por suicídio são mais extensas - revela a psicóloga Cristina Moura, autora da dissertação de mestrado Uma Avaliação do Luto Conforme o Modo de Morte, defendida na Universidade de Brasília (UnB), em 2007.

Pesquisadora do Programa de Intervenção em Crise e Prevenção do Suicídio, ligado ao Instituto de Psicologia da UnB, Cristina diz que sintomas gástricos como sensação de azia, dor de estômago ou vômito, comuns após a perda de pessoas próximas, duram cerca de duas semanas nas mortes naturais esperadas. No suicídio, assemelham-se a lesões crônicas.

- A gente espera que o luto esteja elaborado em dois meses. Em mortes por suicídio, a pessoa trabalha nesse processo até dois anos - detalha Cristina.

É como se um "rombo emocional" fosse aberto na família, compara o psicanalista Mário Corso.

- Um rombo que não cicatriza tão fácil. Há famílias que tomam um outro rumo em função disso: pais se separam, irmãos se afastam - interpreta o psicanalista.

Uma das razões específicas para a consternação prolongada é a perplexidade e a busca de explicações. Em acidentes de trânsito, procura-se saber como ocorreu, quem foi o culpado - o que demora algum tempo, até desaparecer. Em suicídio, um questionamento permanece: por quê?

- O sofrimento pode se tornar patológico - alerta Cristina.

Na zona norte de Porto Alegre, as palavras da pesquisadora fazem sentido para uma aposentada de 64 anos. Sete anos após o suicídio do filho, então com 29 anos, a mulher ainda tenta se recuperar da perda.

- Às vezes, eu achava que era culpada. Outras, culpava os médicos. É um sofrimento que parece não ter fim - conta a mãe.

Desde a adolescência, o garoto loiro e de olhos azuis, que chamava a atenção das meninas no bairro São Sebastião, sofria com esquizofrenia. Vivia duas vidas: uma real, isolado no quarto, sempre calado, resolvendo problemas matemáticos, e outra fictícia, com inimigos que sussurravam ao seu ouvido e que só para ele existiam.

- Houve um tempo em que ele usava uma placa bem grande, pendurada no pescoço, onde se lia: "hipócritas que me caluniam". A doença fazia com que pensasse que pessoas falavam mal dele - lembra a aposentada, que mantém pertences do filho no apartamento de quarto e sala onde reside sozinha e luta contra a depressão.

Uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com 15.629 suicidas em diferentes países constatou que pelo menos 10,6% dos mortos eram esquizofrênicos.

A conversa com a "sobrevivente" - como são definidos familiares de quem se mata - se encerra quando a mulher retira do bolso os versos de uma música de Roberto Carlos, cantados para espantar saudade do filho que chegou a cursar Física na UFRGS:

"Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. Só assim sinto você bem perto de mim, outra vez..."

E avisa:

- É uma saudade que eu não gostaria de ter.

( carlos.etchichury@zerohora.com.br )

CARLOS ETCHICHURY
ONDE BUSCAR AJUDA
CVV: Organização não-governamental Centro de Valorização da Vida (CVV), criada no país em 1962, auxilia a quem enfrenta sofrimento psíquico e pensa em se matar.
Na Capital, o serviço funciona 24h pelo telefone 141 ou (51) 3231-6111. Há atendimento pessoal todos os dias da semana (inclusive feriados), das 8h às 18h, na Avenida José de Alencar, 414/205.
No Interior:
Novo Hamburgo 141 ou (51) 3065-4111 (funciona 24h)
Pelotas (53) 3025-4111
Chapada (54) 3333-1323 (das 14h às 20h)
Santa Cruz do Sul (51) 3717-3285 (das 16h às 20h)
Palmeira das Missões (55) 3742-5896 (das 16h às 20h)
Serviços públicos: Pacientes que precisam de ajuda podem buscar postos de saúde em seus respectivos municípios. Após triagem, são encaminhados aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) - há 130 no Estado - que contam com psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais.
Internet: O site www.saudementalrs.com.br, mantido por profissionais voluntários da área da saúde, pode ajudar na busca de informações. No site, constam informações sobre pesquisas, endereços, telefones e dicas que podem ser úteis.

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