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26 de maio de 2008 | N° 15613AlertaVoltar para a edição de hoje

Flerte com o suicídio

Uma pesquisa com 526 estudantes de escolas públicas e privadas da Capital admitiram que pensam em se matar

Ao terminar o relacionamento com o namorado, uma publicitária de 26 anos ingressou em uma espiral de frustrações que parecia sem fim.

Para evitar os amigos, retirou seu perfil do site de relacionamentos Orkut, deixou de responder e-mails e chegou a ficar um mês com celular desligado. Trocou as festas, os bares, as novas paixões, os desafios do cotidiano pela clausura do quarto de sua casa. No conforto do apartamento de classe média, isolada de um mundo cada vez mais hostil, sentia-se protegida. Quando o suicídio tornou-se uma obsessão, buscou ajuda.

- Pedi para a minha psiquiatra me internar porque não agüentava mais viver - diz a garota.

O flerte com o suicídio seduz jovens e adolescentes de Porto Alegre - não necessariamente na mesma intensidade com que ocorreu com a publicitária.

Uma pesquisa com 526 estudantes (com idades entre 15 anos e 19 anos) de escolas públicas e privadas, constatou que 188 (36%) manifestaram "ideação suicida" - pensam em se matar. O caso da jovem é mais delicado porque ela sofre de depressão, o que aumenta o risco.

A idealização suicida, identificada entre colegiais, é considerada alta, mas não surpreende. Das 11 principais capitais do país, Porto Alegre e Curitiba apresentam os maiores índices de suicidas entre 15 e 24 anos.

- Adolescentes podem estar vulneráveis. É o que mostrou a pesquisa. Temos de fazer trabalhos preventivos nas escolas, preparando professores, conversando com pais e com os próprios estudantes. É preciso mostrar que sentir desejo de morrer é algo que pode ser revertido - analisa a psicóloga e pesquisadora Blanca Suzana Guevara Werlang, da Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que realizou o trabalho com as psicólogas Vivian Roxo Borges e Liza Fensterseifer.

A história da garota que andou de mãos dadas com a morte até ser internada ajuda a compreender a complexidade de um fenômeno que vitimou 483 gaúchos com menos de 30 anos apenas nos últimos dois anos. A seguir, trechos de uma conversa com a publicitária mantida com Zero Hora há uma semana:

O fim do relacionamento

"Quando acabou o relacionamento com o meu namorado, me senti sem chão. Achava que havia escolhido a faculdade errada, não sabia o que queria fazer da minha vida, as coisas não faziam sentido... É uma falta de ânimo para a vida que não permite que tu te mexas. Vinha bem, indo a festas, me relacionando com meus amigos. Mas aos poucos fui ficando em casa, não atendendo aos telefonemas, me isolando do mundo".

O afastamento dos amigos

"Sempre que fico mal, eles começam a se afastar. As pessoas cansam de ligar, e eu não atender. De mandar e-mail, e não receber resposta. Até o momento em que se enchem, e deixam de procurar. Todo mundo tem a sua vida"

A perplexidade dos pais

"A impressão que eu tenho é que meus pais tinham muito mais garra para lutar. Meus pais saíram do nada, e hoje são médicos. Eles não entendem como é possível alguém ter tudo e ficar deprimido em função das dificuldades do mercado de trabalho ou porque brigou com o namorado. Mas os meu sofrimento não é material. Cheguei a passar dias no quarto, chorando e dormindo".

A internação

"Quando percebi, estava no fundo do poço. Só quem sentiu na pele o que é isso sabe o quanto é horrível. Estava lendo um livro, e lá pela metade, já não conseguia prestar atenção. Só pensava em morrer. Resolvi pedir ajuda. Foi a minha quarta internação. Sofro com depressão há algum tempo. Na clínica tu ficas fechado numa bolha, mas estás seguro. O mundo lá fora não pode te atingir. As pessoas acham que internação psiquiátrica é coisa para louco. Não é nada disso. É bom conversar com quem está na mesma situação porque não te julgam. Saí da internação sem vontade de bater o carro no primeiro poste. Antes, só não me matei porque não queria passar pelo ridículo de tentar e não conseguir".

A dica para quem está sofrendo

"Procure ajuda de médicos, amigos, dos pais. Não deixe chegar ao fundo do poço. É complicado aprender a viver de novo e recomeçar a vida. Mas vale a pena".

No mundo
Para psiquiatras e psicólogos, a existência de ideação suicida pode ser considerada como um importante fator de risco para o suicídio, junto com a depressão e a desesperança:
PORTO ALEGRE
Uma pesquisa com 526 estudantes da Capital (com idades entre 15 anos e 19 anos) de escolas públicas e privadas constatou que 188 (36%) manifestaram ideação suicida.
HONG KONG (China)
Um estudo similar, com 996 adolescentes, encontrou uma porcentagem maior: 40% pensavam em se matar.
COLUMBIA (EUA)
Pesquisas identificaram que 29 (14%) de 210 adolescentes pensavam no suicídio.
PIRACICABA (São Paulo)
Gisleine Vaz Scavacini de Freitas, pesquisadora paulista, comparou dois grupo de 110 garotas. Uma parte, composta por jovens grávidas, e outra, com garotas que jamais haviam engravidado. Elas responderam a um questionamento: "você pensou em se matar ao longo da última semana?" No grupo das grávidas, 16% disseram que sim. No outro, 9%.

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