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26 de maio de 2008 | N° 15613AlertaVoltar para a edição de hoje

Vida e morte na Cidade Azul

No segundo dia da série de reportagens sobre suicídio, Zero Hora revela um fenômeno incipiente no Brasil: ao mesmo tempo em que usam o site de relacionamentos Orkut para anunciar a própria morte, adolescentes deixam sinais de que estão sofrendo e pedem ajuda, mas não são ouvidos

Dezoito adolescentes de classe média manifestavam culpa, solidão e abandono em seus scraps diários no Orkut. Quase nunca planejavam o futuro. Preferiam idealizar a infância e louvar a morte. Alguns pediram ajuda, mas não foram ouvidos.

Localizados na internet por uma pesquisadora, eles trocaram as indefinições da vida pela certeza da morte.

A trajetória desses suicidas foi contada na dissertação de mestrado em Lingüística de Monica Vasconcellos Cruvinel, 39 anos, que analisou comentários de 18 adolescentes suicidas e de seus amigos disponíveis no site Orkut - metaforicamente definido pela autora como Cidade Azul (chamado assim pela cor predominante do site).

Com formação em Letras, ela não buscou sintomas, nem tentou identificar comportamentos de risco. Monica partiu de um princípio: se quando desejam se matar, jovens emitem sinais, também o fariam pela internet. O que se confirmou. A rede se tornou um espaço de escuta. Para expressar suas angústias, seus medos, suas frustrações e seu desejo de acabar com a própria vida, um adolescente pode ir para o MSN, para um blog ou para a Cidade Azul.

"Os adolescentes que analisei tentaram avisar que iriam se suicidar, mas seus amigos não acreditaram ou não entenderam. Estes "anúncios" constituem, talvez, um pedido de ajuda, uma denúncia de um sofrimento, um apelo, uma forma contraditória e ambígua de resistir à repressão e à dor...", escreveu Monica em sua dissertação, defendida em março na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A busca de ajuda nem sempre é destinada a amigos. Também é endereçada aos próprios responsáveis (pais), que raramente tomam conhecimento. Pais e mães vivem suas vidas fora da Cidade Azul.

- Não encontrei indícios que demostrassem que os pais desses adolescentes interagiam com seus filhos pelo Orkut - relata Monica.

Com exceções, as mensagens dos 18 adolescentes que puseram fim às suas vidas (morreram sem nenhum tipo de pacto entre eles) trocadas com seus amigos eram de apoio e incentivo.

Um dos recados, postados por uma menina, dá idéia de como eram os diálogos:

"Oi!!! ... pára com isso. Vc (você) é novo, vc é q tem q mudar, não é assim. Vc está em crise agora (...) o amanhã lhe mostrará qto (quanto) é bobagem. Tô sem tempo hoje, se não entraria pra falar contigo. Tô cheia de serviço aqui".

Não era bobagem, e não houve amanhã.

Entre os fatores desencadeadores das mortes estão rompimentos afetivos. Das entrelinhas e das análises do que não é dito, porém, emerge uma realidade mais complexa.

- Em pelo menos um caso está claro que um garoto de 13 anos sofria violência doméstica. Isso aparece de uma maneira implícita, porque o Orkut é um revelar e esconder - conta Monica.

Enquanto na vida offline o suicídio é um tabu social, no universo online os casos são publicamente debatidos. Não há filtros da imprensa. E pactos de silêncio envolvendo profissionais da saúde e familiares são incapazes de abafar uma avalanche de rituais fúnebres e manifestações públicas dos que ficam.

- Não tem como esconder o que aconteceu. De certa forma, é uma maneira também de o adolescente atingir a própria família - diz Monica.

- O suicida pela internet coloca os pais em situação de fracasso completo. Um fracasso com diploma na parede - complementa o psicanalista gaúcho Mário Corso.

Quem procura informações sobre métodos para se matar tem maior probabilidade de encontrar sites encorajando a prática do que desestimulando a idéia, como revela um estudo publicado na British Medical Journal. Pesquisadores usaram os sites Google, Yahoo, MSN e Ask em busca de assuntos relacionados ao suicídio e descobriram que as três páginas que apareciam com maior freqüência eram favoráveis a pôr fim à própria vida.

Em agosto de 2006, um porto-alegrense de 16 anos teve o suicídio assistido e incentivado em tempo real, no primeiro episódio conhecido no país. Além dele, Monica deparou com outros dois casos de suicídio online. Os três fazem parte do estudo.

Para Corso, é "impossível e burro" proibir a web.

- Tu tens de controlar os acessos. Em determinados casos, tens de estar colado. Os suicidas adolescentes, pelo menos nos casos clássicos, são frágeis, não têm condições de armar muitas coisas. Se tu encostar, ver e conseguir falar, existem boas chances de lidar com o problema - argumenta o psicanalista.

As análises do que é falado e silenciado no Orkut são documentos disponíveis para a compreensão de um fenômeno contemporâneo: o suicídio na internet, que vitima especialmente adolescentes. Entre 1996 e 2006, de todos os 11.493 gaúchos que se mataram no Estado, 2.821 (24,3%) tinham menos de 30 anos.

Com autoridade de quem mergulhou pelo submundo da Cidade Azul, uma das conclusões da dissertação de Monica ganha status de recomendação:

"Mais do que reivindicar medidas que regulamentem os espaços virtuais e protejam nossos adolescentes dos predadores , é preciso entrar na rede para saber onde navegam nossos filhos, nossos alunos, nossos pacientes. É preciso navegar com eles".



CARLOS ETCHICHURY
Mitos e Verdades
Mito
Quem quer se matar não avisa
Verdade
Pelo menos dois terços das pessoas que tentam o suicídio ou que se matam haviam comunicado de alguma maneira sua intenção para amigos, familiares ou conhecidos.
Mito
O suicídio é um ato de covardia ou de coragem
Verdade
O suicídio é resultado de uma dor psíquica e não uma atitude de covardia ou coragem.
GLOSSÁRIO
Orkut - Site de relacionamentos mantido pelo Google, no qual as pessoas cadastram seus perfis e entram em contato com uma rede de amigos. Deixam recados aos outros e dados pessoais como hobbies e data de aniversário, por exemplo.
Scrap - Todos os perfis no Orkut têm um "scrapbook", uma página de recados que pode ser preenchida por outros usuários do site. Assim, é possível trocar mensagens com outros usuários, que podem ser lidas por todos ou não, conforme escolha do dono do perfil.
MSN - Programa de computador que permite conversar por mensagens instantâneas, digitadas no computador. Ou também por voz e vídeo.
Blog - Página na internet semelhante a um diário virtual. É possível postar textos, fotos e vídeos , acessíveis a todos os internautas.

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