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25 de maio de 2008 | N° 15612AlertaVoltar para a edição de hoje

Décadas de omissão

De cada 10 que repetem uma tentativa de suicídio, seis o fazem nos primeiros 30 dias. Em seis meses, o número amplia para oito. Outros dois buscarão outra vez a morte durante toda a sua vida.

Com 12.567 mortes nos últimos 11 anos, o suicídio avança sem políticas públicas de prevenção no Rio Grande do Sul.

À sombra do descaso, óbitos multiplicam-se de forma democrática: atingem pobres e ricos, crianças e idosos, negros e brancos, trabalhadores do campo e da cidade.

Autoridades da área da saúde reconhecem sucessivas omissões ao longo da história.

- Nunca houve uma política de controle do suicídio. Nem aqui e nem em nenhum outro Estado - diz o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra.

A escassez de diretrizes capazes de fazer frente aos elevados índices de suicídio não se restringe ao Rio Grande do Sul. Mesmo nações nórdicas como Finlândia, Suécia e Noruega, que concentram os mais altos coeficientes, só consolidaram programas nacionais entre o final da década passada e o início da atual.

No Brasil, o Ministério da Saúde lançou a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio e publicou uma cartilha orientando a conduta de técnicos e especialistas apenas no segundo semestre de 2006. O manual é resultado de uma cooperação entre o ministério, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e o Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas (Unicamp).

As diretrizes, aos poucos incorporadas por Estados e municípios, sugerem qualificação de profissionais e acompanhamento dos suicidas e seus familiares, conforme recomendações da Organização Mundial da Saúde. Iniciativas concretas devem se iniciar dentro de dois meses no Rio Grande do Sul.

Conforme o secretário Terra, quatro projetos-piloto serão implantados em Candelária, São Lourenço, Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul - municípios com altas taxas de suicídio. O projeto foi incorporado ao Programa de Prevenção da Violência do governo gaúcho.

- A idéia é monitorar os pacientes, oferecer a equipe de saúde da família, e tratar a depressão nos Centros de Saúde Psicossocial (CAPs) - promete Terra, que posteriormente pretende expandir para outros 10 municípios.

Para a diretora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Blanca Susana Guevara Werlang, houve avanços nos últimos dois anos.

- São movimentos tímidos, mas importantes - constata a pesquisadora.

Sem ações específicas, a Capital permanece imune às mudanças. De acordo com Irma Rossa, coordenadora das Políticas de Saúde Mental da Assessoria de Planejamento da Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre, quem empregou meios para acabar com a própria vida (ou pensa em se matar) é encaminhado aos serviços especializados em saúde mental.

- O suicídio é um sintoma, não uma doença. Então, não existe um tratamento especial. É como se tu me perguntasse: tem um tratamento específico para a febre? Não. O tratamento é destinado à pessoa como um todo - explica Irma, salientando que todos os profissionais são orientados a "ajudar pacientes a procurar outras razões para viver, para não ser irônico no atendimento e respeitar as pessoas que buscam o serviço".

Quem trabalha em prontos-socorros e depara com histórias diárias de sofrimentos extremos que resultam em autoviolência aponta limitações na área governamental.

- Não temos uma estrutura adequada à saúde mental. Se tivéssemos uma abordagem dos fatores associados ao suicídio, semelhante à feita no caso dos acidentes de trânsito, por exemplo, com investimentos em prevenção, haveria uma chance razoável de reduzir os índices - acredita Jair Segal, psiquiatra do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre e aluno do doutorado em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Desde 2000, o número de mortes por acidentes de trânsito na Capital reduziu 10%. No mesmo período, os suicídios permaneceram estáveis.

Tabu na mídia
Resultado de uma pesquisa coordenada por Anabela Paiva e Silvia Ramos, o livro Mídia e Violência revela que poucos temas são tratados com tanto cuidado pela mídia quanto o suicídio. Uma pesquisa realizada em 2006 pelo CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), com oito jornais do Rio, encontrou apenas uma reportagem sobre suicídio entre as 593 cujo foco principal eram atos violentos.
Dos jovens repórteres aos mais antigos editores entrevistados pelos autores do livro, todos os ouvidos pelo trabalho consideram uma espécie de lei não escrita que o suicídio não é assunto de interesse público. De acordo com as cientistas sociais, a discrição ao tratar o tema está ligada a antigos indícios de que a divulgação de atos incentiva mortes.
Na origem está a publicação, na Alemanha, do livro O Sofrimento do Jovem Werther (1774), de Johann Wolfgang Goethe, no qual o herói se mata devido a um amor frustrado.
O livro teria incentivado uma onda de suicídios, que se espalhou entre jovens europeus. A imprensa tem razão em ser cuidadosa ao noticiar casos de suicídio. Mas as pesquisadoras Anabela e Silvia fazem uma provocação:
- São muitas as evidências a demonstrar que realmente o noticiário sobre estes atos pode influenciar pessoas a tentarem contra a vida. No entanto, o silêncio sobre este ato violento é ação errada a ser feita pelas razões certas.
Mitos e Verdades
Mito
Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir a isso?
Verdade
Questionar sobre idéias de suicídio, fazendo-o de modo sensato e franco, aumenta o vínculo com o paciente. Este se sente acolhido por um profissional, que se interessa por seu sofrimento.
Mito
Quem quer se matar se mata mesmo.
Verdade
Essa idéia pode conduzir ao imobilismo terapêutico, ou ao descuido das pessoas sob risco. Não se trata de evitar os suicídios, mas sim os que podem ser evitados.

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