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14 de maio de 2008 | N° 15601AlertaVoltar para a edição de hoje

Na casa da sogra

Os filhos do técnico Lori Sandri queriam viajar de Curitiba para Porto Alegre na época em que o pai foi agredido com erva-mate no rosto

O protesto de um grupo de torcedores no aeroporto Salgado Filho foi humilhante para cinco pessoas. Após a eliminação do Inter na Copa do Brasil, em maio de 2004, durante o retorno da delegação o treinador Lori Sandri foi agredido no rosto com um prosaico banho de erva-mate. O torcedor fanático despejou meio quilo de um saco de erva.

Então aos 55 anos, 30 anos como técnico de 25 clubes, sete passagens pelo Exterior e uma conquista da Copa do Golfo Pérsico, pensou em como a mulher e os três filhos suportariam em Curitiba a notícia do ultraje.

Certamente eles assistiriam a tudo pela televisão, em rede nacional. Era esse o seu maior temor quando concedeu coletiva no Beira-Rio. Disse que entendia a torcida mas condenava a agressão. Por isso, resolveu adiantar-se ao noticiário. De seu flat no bairro Moinhos de Vento, ligou para casa.

Recebeu um ultimato dos filhos.

- Está na hora de abandonar o futebol, pai. Você só se incomoda, vive estressado, não vale a pena.

Os três filhos também decidiram: viajariam para Porto Alegre e ajudariam o pai no momento difícil.

Lori Sandri não concordou com a idéia. Queria apenas trabalhar em paz, mas entendeu a intenção dos filhos. Ele próprio costumava se recordar da coleção de aniversários, dia dos pais, dia das mães, Natal e Ano-Novo que perdeu a trabalho, distante de casa.

O primeiro filho, Lori Júnior, o pai não viu nascer. A mulher, Adélia, morava na cidade de Goio-Erê, no oeste paranaense, a 530 quilômetros de Curitiba. E o técnico dirigia o Uberaba, em Minas Gerais, durante o Campeonato Brasileiro de 1978.

Ao final de uma partida em Minas, ele saiu em viagem com a esperança de chegar a tempo de assistir ao nascimento.

Rodou grande parte da noite e gastou dois tanques de gasolina cortando o sul de Minas, São Paulo e o oeste do Paraná.

Em Goio-Erê, porém, a maternidade pregou uma peça: o guri não nasceu no dia previsto. Com jogo e viagem marcada com o Uberaba, Lori retornou a Minas Gerais. Fez todo o caminho de volta. Dois dias depois, num 10 de março, recebeu o comunicado do nascimento do filho.

Luciano ele viu nascer em outubro de 1980. Trabalhava e morava em Chapecó, em Santa Catarina. Mas o terceiro, Leandro, também não foi possível. Treinava o Botafogo, de Ribeirão Preto, e, de novo, teria de se deslocar até Goio-Erê, onde morava a mãe de sua mulher.

Para viver como andarilho em três dezenas de cidades, o técnico contou com o socorro da sogra. Vivia na casa da sogra. Quando aparecia convite de trabalho e tinha de assumir o clube em seguida, a mulher se alojava com os filhos na casa da mãe.

Muitas vezes entregavam o imóvel alugado e deixavam os pertences em guarda-móveis. A carreira nunca foi glamourosa para Lori Sandri.

No dia 22 de maio de 1982, quando nasceu Leandro, ele apenas ligou para saber da saúde do bebê, se era parecido com ele.

Os três filhos criaram uma gratidão para com o pai. E por isso insistiram em viajar até Porto Alegre para tomar satisfação do clube e do torcedor que jogou a erva-mate.

O Inter acabou conquistando o Campeonato Gaúcho um mês depois. Durante a festa do título, entre comemorações e tapas nas costas, o técnico recebeu abraço de um torcedor.

Era o agressor da erva-mate. Sem jeito, Lori retribuiu o abraço.

DOMINGO
A concentração onde vive o técnico Cuca, o estresse de Muricy Ramalho e os desencontros de Mano Menezes são histórias de técnicos milionários com estilo solitário
SEGUNDA-FEIRA
Como as famílias dos treinadores Tite e Vágner Mancini sofreram com trocas repentinas de clubes em meio a transtornos de mudanças
TERÇA-FEIRA
A filha roqueira do técnico Guilherme Macuglia e as aflições de brasileiros que enfrentam dramas pessoais quando vão trabalhar no Exterior
HOJE
As famílias de Nestor Simionato e Lori Sandri sentiram alívio quando os técnicos deixaram o Grêmio e o Inter
QUINTA-FEIRA
As 24 horas da demissão de Ancheta, o maior zagueiro da Copa de 70. Ele tentou começar a carreira no Passo Fundo. Durou um mês

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