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14 de maio de 2008 | N° 15601AlertaVoltar para a edição de hoje

A demissão é um alívio

Na época em que Nestor Simionato dirigia o Grêmio, em 2003, a filha foi hostilizada no colégio, sofreu constrangimentos e negou a ir à aula

O café da manhã de Nestor Simionato com a mulher, Neiva, em um apart hotel no centro de Porto Alegre, foi interrompido às 7h30min de 23 de agosto de 2003 pelo telefonema de um dirigente do Grêmio. Ele estava a caminho. Só podia ser o golpe da demissão. Em 10 minutos, o técnico estava despedido.

Não era má notícia. Era um alívio.

Após 32 dias de uma campanha sem sucesso no Olímpico, de conflito diário com a torcida e de constrangimentos na família, não era o pior desfecho. Pela primeira vez na carreira de 11 anos rodada por 16 clubes até então, cada hora a mais no cargo só agravaria a dor da filha Mariana.

Ainda com o café sobre a mesa, sozinhos no apartamento do flat, com a névoa da demissão no ambiente, o casal arrumou as malas. Voltou para a pequena Bom Retiro do Sul, cidade de 10 mil habitantes ao lado de Lajeado, no Vale do Taquari, a 83 quilômetros de Porto Alegre. Diante de Mariana, então com 12 anos, a maior gremista da cidade, Simionato comunicou:

- Estou fora, filha, acabou tudo. Acabou teu sofrimento.

- Não tem importância, pai, é melhor assim - resignou-se, demovida do cargo de filha de técnico do Grêmio.

Bom Retiro do Sul era uma pacata comunidade até o dia em que o convite caiu por telefone na casa dos Simionato. O Grêmio pediu segredo. Mas Mariana tinha celular. Não perderia a chance de avisar, amigos, parentes, colegas e conhecidos e desconhecidos.

- Pai, é o Grêmio, chegou a tua vez! - gritou.

Quando o jornal local perguntou à estudante se o pai tinha força para salvar o Grêmio do rebaixamento, ela proferiu uma declaração de assessor de imprensa:

- Meu pai é competente, ganhou tudo até agora. Não vai ser diferente.


E foi assim na escola entre os colegas da 8ª Série. Agitou o colégio, o supermercado, as amigas. Influenciou até os outros quatro irmãos, colorados e menos afeitos à exposição.

Uma semana depois, o crédito do técnico sofria os primeiros desgastes. A empolgação de Mariana persistia. As derrotas insistiam em atormentar o pai na semana seguinte, e o humor da filha murchava.

O tom das brincadeiras na escola aumentou. Mariana entrava em aula, os colorados tocavam o hino do Inter. Ela ia para o recreio, os gremistas despejavam insolências. Ela retrucava, a resposta era virulenta:

- Cadê o pai salvador? Diga para ele sair.

Ficou insuportável o colégio. Mariana chegou chorando em casa, decidida:

- Não vou mais à aula, não agüento tanta humilhação.

Enquanto isto, empenhado em consertar a situação no trabalho, apesar de jogos às quartas e domingos, envolvido em viagens, concentrações e atolado cada vez mais na tabela de classificação, Simionato mal tinha tempo de falar com a filha.

Talvez Simionato já prenunciasse o fim após a derrota diante do Vitória, em Salvador, já na madrugada do dia.

Durante jantar com a direção no restaurante do Hotel Pestana, um dirigente perguntou-lhe se ainda via chance de reação no campeonato. A resposta limitou-se a um vago talvez. Foi quase um pedido de dispensa.

Nenhum dirigente falou com ele durante o vôo para Porto Alegre, como se fossem estranhos.

De volta ao flat ele cogitou em pedir as contas, mas afastou a idéia: não mataria seu próprio sonho. A muito custo criara fama de treinador vencedor em clubes do interior gaúcho. Recebia cinco a seis convites a cada fim de temporada e, nos dois últimos anos, seu nome com insistência era cotado para dirigir Grêmio ou Inter.

Portanto, mesmo que a situação fosse desesperadora no Olímpico, não recusaria à convocação do Grêmio. Não era Luiz Felipe Scolari nem Wanderley Luxemburgo. Se rejeitasse o convite, seria tachado de covarde. Trocaria o pequeno São José, da Capital, ganharia cinco a seis vezes mais. Saltaria enfim à elite do futebol brasileiro.

Por isso suportou os 32 dias calado, apesar das turbulências internas: com três meses de salários em atraso, os jogadores não aceitavam as promessas de pagamento. Não via como consertar a situação.

Depois da demissão durante o café no flat, Simionato retirou-se de cena. Passou oito meses com a família em Bom Retiro.

Fez caminhadas diárias pelo campo da associação de funcionários de uma empresa de laticínios. Refletia sobre a profissão.

Quando retomou a peregrinação pelos clubes do Interior, os convites de emprego já estavam escassos. Desde então, passou a maior parte do tempo desempregado.

Simionato partiu então à procura de colocação estável fora do Estado. Primeiro no Crac, da cidade de Catalão, a 260 quilômetros de Goiânia. Agora, no Luverdense, de Lucas do Rio Verde, a 360 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso. Prepara-se para disputar a Série C do Campeonato Brasileiro, de olho nos clubes das capitais do Norte e Nordeste.

Mariana, aos 18 anos, estuda comércio exterior em Lajeado. Perdeu o encanto por futebol. Não torce por time algum. Quando muito, bisbilhota o site do Luverdense pela Internet.

(jones.silva@zerohora.com.br)

JONES LOPES DA SILVA
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