Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
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O príncipe saudita adorava a ousadia do brasileiro Ivo Wortmann, de sobrenome de europeu. A seleção da Arábia Saudita tinha vencido equipes européias no campeonato mundial até 17 anos, disputado na Escócia. Ninguém acreditava na equipe saudita. Cada vitória, porém, injetava euforia na realeza. O título já era um dever.
Até o golpe da derrota. Justo para Bahrein, o minúsculo vizinho da Península Arábica.
O príncipe queria explicações, e não lhe bastavam explicações. Pela lógica real, a Arábia Saudita, um país de 25 milhões de habitantes em 2,1 milhões de quilômetros quadrados, tinha de ser infinitamente superior ao outro de 680 mil habitantes em 665 quilômetros quadrados - certamente com menor lençol de petróleo.
Futebol e geopolítica recaíram sobre o ombro inexperiente do "europeu" nascido em Quaraí, fronteira oeste do Estado.
Atormentado e sentindo-se um "assassino" na delegação, o brasileiro deixou Glasgow, despediu-se do Rio
Clyde e retornou a Porto Alegre imediatamente. Então
aos 40 anos, Wortmann recorreu a um analista:
- Eu precisava me recompor. Por isso, procurei ajuda.
Submeteu-se a três meses de terapia. Logo depois, retomou a carreira e hoje registra passagem por quase 30 clubes em 28 anos de estrada. Para afugentar a ansiedade, aprendeu outra estratégia: corre 40 minutos por dia ouvindo no MP-3 Barry White, Phill Collins e Bee Gees. Assim, trabalhou ao todo 12 anos entre Catar, Arábia, Bahrein e Emirados.
As leis árabes, porém, reservam armadilhas aos profissionais estrangeiros de primeira viagem. A começar pelo confisco do passaporte.
Quando bate o desespero, a liberdade de locomoção depende da vontade do xeque ou da fria cláusula contratual. Aos estrangeiros ligados ao futebol é concedida apenas uma espécie de carteira de identidade expedida pelo clube.
Em 1990, no início da primeira guerra do Golfo, o campeonato foi interrompido por 15 dias. O técnico Cláudio Duarte tentou
aproveitar-se da situação e visitar a família no Brasil.
Queria usar a passagem a que tinha direito por contrato com o Al Nasr, de Riad, Arábia Saudita.
Para isso, tinha de apresentar um motivo bem convincente. Cláudio procurou o príncipe e apimentou sua história:
- A minha mãe está muito doente no meu país e, como não temos rodada, pensei em viajar.
O príncipe esperou que o brasileiro fizesse a primeira pausa e ajuntou:
- O senhor é treinador ou médico?
Assim, Cláudio Duarte, o preparador físico Wilson Costa e técnico de juniores Beto Almeida passaram o dia dos pais de 1990 num shopping de Riad.
O Iraque de Saddam Hussein acabava de invadir o Kuwait. Base das forças aliadas, Riad estava a 600 quilômetros do front. Todas as terças-feiras, Beto Almeida usava a central telefônica que o príncipe, dono do Al-Nasr, mantinha na sua mansão.
Numa sala de 4m por 4m, havia vários aparelhos telefônicos, que serviam às empresas do dono. Para
chegar até a central, Beto perdia-se admirando a piscina de 20 metros de comprimento e
o Rolls Royce cor salmão.
O técnico ligava para casa em Porto Alegre e os filhos Emanuel, de nove anos, e Matheus, de seis, mal conseguiam deixar o pai falar com a mulher, Sandra. Choravam compulsivamente:
- Volta pai, a guerra já começou, fuja daí.
Não é tão fácil. Dependendo das condições do contrato, a demissão se transforma em tormento. O acerto de contas pode se arrastar por uma, duas semanas. Se o estrangeiro não suportar o jogo de espera, entra em crise nervosa.
Joel Santana já passou por isso. Desvinculado do Al-Nasr no final dos anos 80, o técnico procurou o responsável pelas finanças do clube. Queria acertar as contas.
- O senhor venha outro dia - disseram-lhe.
Mas Joel precisava desesperadamente retornar ao Brasil. Só teria o passaporte de volta mediante a assinatura final do principe. O técnico apareceu no outro dia, e nada. Ficou uma semana de um lado a outro sem conseguir falar com
alguém que lhe explicasse o que estava acontecendo.
A situação
ficou crítica, e o brasileiro entrou em profunda depressão. Sentiu-se mal e acabou hospitalizado.
Quando deixou o hospital, Joel Santana exigiu apenas o passaporte para viajar. Já não exigia o pagamento.
Ainda assim, submeteu-se aos últimos procedimentos legais: o treinador chegou ao aeroporto munido apenas de uma carta do clube, emitida ao ministério do Exterior, autorizando-o a deixar o país.
Joel Santana fez o check-in na companhia de aviação e encaminhou-se para a polícia aeroportuária. Deu-se conta de que não havia recebido seus documentos. Entregaram-lhe um envelope só depois de passar pela fiscalização. Nele estava a passagem aérea, o passaporte e o visto de saída.
(jones.silva@zerohora.com.br)
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