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13 de maio de 2008 | N° 15600AlertaVoltar para a edição de hoje

A roqueira e o treinador

Ausente de casa desde a época das concentrações e viagens como jogador, o técnico Guilherme Macuglia considera-se culpado pela filha usar piercing

O piercing na língua a estudante Jamile Macuglia prudentemente retirou dias antes do último feriado de Natal. Suas três tatuagens, não havia como removê-las. Mas o piercing, preferiu livrar-se dele. Viajaria de Porto Alegre a Guaratinguetá, no interior de São Paulo, e se encontraria com o pai, o técnico Guilherme Macuglia.

Havia um mês não se viam. Nada devia atrapalhar o reencontro.

O pai tem restrição ao adereço da filha de 21 anos, uma roqueira, estilo indie, que faz design gráfico em Porto Alegre.

Pessoa de bom trato, atencioso, ligado à família, para Macuglia a filha se imola com o adorno. Na sua cabeça, o culpado é ele próprio e a sua eterna ausência de casa desde a carreira de jogador.

- Ah, minha filha, se eu estivesse em casa você seria muito diferente - recriminou, na última vez que tinham se visto.

Numa de suas folgas, depois que assumiu o Guaratinguetá, no final de novembro, o técnico fugiu para Porto Alegre. Flagrou Jamile em casa com o piercing.

- Eu devia ter ficado mais tempo com você em casa - disse ela à filha (ambos na foto menor).

Não raro técnico de futebol se condena por estragos causados à família. A princípio, o novo treinador não conduz mulher e filhos quando muda de cidade. Sabe que a situação não é confiável. Na maioria dos casos, nem há condições de bancar a mudança.

Dependendo do grau de segurança, técnico e família se mantêm apartados por longo tempo. Aí bate a culpa.

A história mais hilariante entre os dois aconteceu quando ela tinha 11 anos. A garota recorreu à primeira fita VHS que tinha por perto e gravou um show da banda Backstreet Boys. O problema é que ela continha uma seleção dos gols do pai, o então atacante Guilherme, que chegou a disputar a Libertadores pelo Grêmio em 1984:

- Foi inconsciente, me arrependo até hoje.

Aos 47 anos, em 10 anos dirigindo 10 times, o técnico passou quase a metade do tempo morando longe de casa.

No ano passado, entre uma temporada no Coritiba, no Paraná, e no Joinville, em Santa Catarina, restou-lhe um pouco mais um mês de convívio em casa. Ainda assim, o que devia ser uma rara hora de troca de afetos, quase sempre escorrega para a típica cobrança de pai para filha:

- Ele me vê como uma rebelde. Não é assim. Mas é difícil convencê-lo.

Por isso, durante as festas de fim de ano, Jamile devia suavizar o visual e retirar o piercing que lhe decora a personalidade.

Junto com William, o irmão menor, de 11 anos, e a mãe, Maria Ivone, ela desembarcou dia 23 de dezembro no aeroporto de São Paulo livre do delicado objeto de conflito. O pai os recepcionou, e os irmãos pularam em cima dele:

- Menos, menos - reagiu Macuglia, duro na queda diante do afeto, discretamente investigando a filha à procura de novos piercings.

No Mercury Flat, de Guaratinguetá, cidade de 125 mil habitantes a 180 quilômetros da capital paulista, ao lado de Aparecida do Norte, no Vale do Paraíba, o fim de ano foi de trégua.

Houve época em que Jamile conhecia o pai mais em fotos do que pessoalmente. Macuglia jogava, viajava e concentrava e não tinha tempo para a família.

No dia do aniversário de cinco anos, o pai se recompôs com a filha e deu-lhe de presente uma bicicleta. Macuglia a conduziu até a conquista do equilíbrio e, desde aquele gesto, tornou-se o herói de Jamile.

Depois, com a mãe trabalhando na Emater, no restante da infância até adolescência Jamile ficou sob cuidado de parentes e de babás. Foi assim dos cinco aos 15 anos.

A menina virou adulta. Cortou o cabelo e provocou o primeiro desgosto do pai. Arranjou namorado aos 15 nos e instalou a segunda decepção.

Adotou piercings, tatuagens e rocknroll. Fez design gráfico, diferentemente dos planos do pai, que sonhava em vê-la estudando medicina ou direito na universidade federal. A filha escuta as bandas Interpol, Portishead, Massive Attack, The Cure, Depeche Mode, New Order. Ele gosta de música gauchesca, vanerão, xote e Bruno e Marrone.

Com tanto tempo separados e tanta diferença de temperamento, as conversas entre os dois hoje estão reduzidas a um simples tratamento de amizade.

Na última Páscoa, a família voltou a se reunir em Guaratinguetá, desta vez, sem Jamile. Ela acampou com as amigas no Forte de Santa Tereza, perto do Chuí, no Uruguai. Sabendo que o pai iria cobrar sua presença, ela tentou explicar a situação pelo celular, que não funcionou. Recorreu a um orelhão, e ouviu uma leve descompostura:

- Não acredito que você não vem me ver na Páscoa!

Macuglia vive seu melhor momento profissional. Pelas suas mãos o desconhecido Guaratinguetá alcançou a fase final do rico Campeonato Paulista - chegou na frente dos poderosos São Paulo, Corinthians e Santos, quase disputou o título com o Palmeiras do supertécnico Wanderley Luxemburgo.

Com o prestígio em alta, seu nome foi lembrado durante a recente crise do Grêmio. A simples especulação, porém, rendeu um incômodo à filha.

A estudante recebeu dezenas de e-mails. Queriam saber se ela era realmente a filha do Macuglia, se o pai treinaria o Grêmio ou se assumiria algum outro clube.

Jamile se viu obrigada a mudar de endereço eletrônico. O constrangimento de ser filho de técnico famoso também se abate sobre o garoto Fábio, de 15 anos, o mais velho de Abel Braga, do Inter. Ele joga na equipe sub-15 e, para evitar comparações e desconfortos, o garoto vai ao Beira-Rio de táxi. Dispensa a carona do pai.

Por isso, Jamile estremeceu ao se imaginar filha de técnico de Grêmio ou de Inter.

Poderia usar o piercing?

( jones.silva@zerohora.com.br )

JONES LOPES DA SILVA

Multimídia

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