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O vendedor de carros ouviu no rádio. Seu cliente Vagner Mancini não era mais o técnico do Grêmio. Como combinado, no outro dia entregaria a caminhonete Tucson zero quilômetro que o treinador comprara havia uma semana. Ligou para ele. Diante da nova situação, queria saber se a venda estava mantida:
- Ouvi há pouco a notícia de sua saída do Grêmio. Sinta-se à vontade com relação ao carro.
- Ah, sim. Mas amanhã eu pego a caminhonete - respondeu Mancini.
Perto das 19h da quinta-feira do dia 14 de fevereiro, o técnico recebeu no Hotel Deville um representante do clube e o anúncio da dispensa. Ligou em seguida para a mulher, em Ribeirão Preto, no interior paulista, onde mora com a família.
- Estou demitido, não precisa viajar.
- Como assim? Para onde vamos? - apavorou-se a mulher.
Invicto em todos os seis jogos do ano em apenas dois meses de trabalho, o marido só podia estar brincando. Não estava. A
família acabava de ser apresentada ao desconforto da demissão.
Foi
dela a missão de avisar os filhos: não viajariam para Porto Alegre no outro dia pela manhã, não se mudariam mais e nem sabiam o que fariam da vida.
No quarto do hotel, na primeira noite de despedido, o técnico calculou: mal saíra de uma mudança dos Emirados Árabes para o Brasil, no início de dezembro, e já se envolvia em outra remoção em menos de dois meses. Para quem nunca fora dispensado nem como jogador nem como técnico, o impacto foi perturbador.
Campeão da Copa do Brasil pelo Paulista, de Jundiaí, em 2005, Mancini trocou o clube embevecido por um convite polpudo no rico Al Nassr, de Dubai, nos Emirados Árabes. Passou sete meses com salários em dólares e só retornou ao Brasil seduzido pelo convite do Grêmio, onde jogou em 1995. E pela chance de morar em Porto Alegre.
O técnico não podia voltar logo para casa. Tinha de se despedir no Olímpico e acertar as contas.
Mais: um caminhão-cegonha havia partido de Ribeirão Preto naquela
quinta-feira transportando para Porto Alegre o
seu antigo carro, malas com roupas, computador, livros e objetos pessoais. Não havia como fazer voltar a encomenda com a qual ele planejava tocar a vida na nova cidade.
Portanto, na sexta-feira, Mancini despediu-se no Olímpico, recebeu três salários pela rescisão de contrato e foi tratar de outros assuntos. Como o aluguel de um apartamento no bairro Menino Deus, por exemplo. O contrato devia ser fechado na quinta-feira. Por sorte, a proprietária havia transferido o acerto para sexta-feira. Ao menos desse problema se safou.
A providência seguinte foi cancelar a matrícula dos três filhos, de oito, 10 e 13 anos no Colégio Americano. Uma de suas preocupações era colocar os filhos em escola de ensino construtivista, pedagogia pelo qual o aluno participa ativamente de seu aprendizado.
- Eles (os filhos) andam com a gente por todo o lugar. É preciso ao menos uma linha de educação.
Também a mulher obteve vaga no quarto semestre do curso de
Nutrição do Instituto Porto-Alegrense (IPA). De
repente, estava sem faculdade. Em Ribeirão Preto, saiu às pressas em busca de escola para os filhos e de vaga na universidade para ela.
Mancini honrou a compra da caminhonete: buscou na revenda sua Tucson novinha, preta, modelo 2.0 GL, banco de couro, automática. Não iria usá-la em Porto Alegre. Tinha de remetê-la a Ribeirão Preto.
Dois dias após a demissão, Mancini foi conferir seus pertences que recém acabavam de chegar no caminhão-cegonha.
A encomenda fez 1,5 mil quilômetros de passeio por quatro Estados. E partiu de volta no mesmo dia, acrescida da Tucson. Enfim liberado, Mancini voou para Ribeirão Preto e, em casa, se explicou aos filhos:
- Sei do transtorno que causei a vocês, mas a minha profissão é assim mesmo.
Três dias depois, na terça-feira, o caminhão-cegonha entregou em Ribeirão Preto os dois carros e as roupas, computador, enfim, a vida privada dos Mancini.
Sem saber do futuro
imediato, as malas não foram desfeitas na casa de Ribeirão Preto. Convites
de trabalho surgiram. Mas não era hora de encarar desafios.
Tratou então da declaração do imposto de renda, das pendências com procurações e do trabalho de casa: assistir aos jogos pela televisão.
Durou até o final de março a vida caseira. Após um mês e meio sem emprego, Mancini assinou contrato com o Vitória, de Salvador. Fechou assim um ciclo cigano de três clubes em quatro meses.
Nesse período, trabalhou em dois países, dois continentes e viveu em quatro cidades. Percorreu cerca de 16 mil quilômetros entre os três últimos trabalhos.
A família, que o acompanhou a Dubai e abortou a transferência para Porto Alegre um dia antes da viagem, de agora em diante seria mais cautelosa.
E o técnico mudou de estratégia: logo de início, alugou apartamento em Salvador. Mas ainda hoje, há mais de um mês na Bahia, estuda a mudança da família. Até há pouco o Vitória esteve envolvido na decisão do campeonato estadual, portanto,
não chamaria a família de Ribeirão Preto.
No domingo
de 4 de maio, porém, o Vitória sagrou-se campeão. O índice de segurança no cargo elevou-se bastante. A rigor, basta aguardar as férias de meio de ano e chamar a família.
Assim que tomar a decisão, o caminhãocegonha voltará à estrada em mais de 1,7 mil quilômetros até Salvador.
Até lá, os filhos estarão matriculados numa escola construtivista.
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