Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
A vida em São Caetano, no ABC paulista, estava sob controle. Na manhã da segunda-feira de 16 de fevereiro de 2004, o técnico Tite concedeu palestra no auditório da Wilson, empresa patrocinadora do clube. Foi aplaudido por empresários da região e confirmou ali a imagem de empreendedor do futebol. Quando recebeu pelo celular recado para uma reunião urgente no escritório de um diretor, ao meio-dia, ele pensou ser mais uma avaliação de projetos. Estava demitido.
- A gente resolveu trocar - foi rápido e direto o dirigente.
Adenor Bachi, o Tite, desembarcou no clube São Caetano em julho de 2003, conduziu o time à Libertadores e cimentou um prestígio nacional deflagrado desde a conquista da Copa do Brasil pelo Grêmio, em 2001.
Assim, renovou contrato em janeiro de 2004 e, suficientemente seguro, mandou buscar a família em Porto Alegre no final do mês.
Tratou da mudança com a mulher, Rose, arranjou colégio para a filha Gabriele,
fez matrícula, comprou uniforme, adiantou material
escolar e preparou-se para um próspero ano novo. Jamais poderia cismar o que escondia aquele telefonema.
A comunicação do diretor foi impassível. Como ocorria antes dos treinos, Tite passou com o seu Corolla na casa de cada um de seus quatro auxiliares da comissão técnica que levara de Porto Alegre. Entre eles estava Cleber Xavier, que também havia pouco mudara a família para São Caetano.
Com os cinco no carro, a caminho do clube, Tite repassou a má notícia:
- Estamos fora. Vamos lá apenas para nos despedir dos jogadores.
Só ao final daquela tarde, quando retornou para casa, o técnico demitido avisou Rose. Foi um
sobressalto:
- Não acredito. Nem abrimos o resto da mudança!
O apartamento novo era
mobiliado, mas ainda havia o que desembrulhar. Gabriele, então com nove anos, recém ambientada com a escola e as amigas dos últimos dias, sofreu um susto:
- Mas, pai, eu só estou há duas semanas no colégio!
Inseguro e sentindo-se culpado pelo transtorno causado à mulher e à filha, Tite não encontrava explicação. Queria recriar em São Caetano do Sul a segurança dos dois anos e sete meses anteriores passados no Grêmio, com a família em Porto Alegre.
Adepto da velha máxima do amigo Luiz Felipe Scolari, o Felipão, segundo o qual, técnico tranqüilo é técnico com a família, por ironia, tudo que lhe faltava agora era tranqüilidade.
Os Bachi e os Xavier retornaram a Porto Alegre. Três meses depois, em maio de 2004, técnico e sua comissão assumiram no Corinthians, em São Paulo. Era época da dinastia do investidor iraniano Kia Joorabchian. De novo, acabaram a temporada com sucesso. De novo, renovaram contrato em início de ano e deflagraram
projetos de vida. Mulheres e filhos os
acompanharam em janeiro de 2005.
Tite comprou uma cobertura no bairro Tatuapé, perto do Parque São Jorge. O auxiliar Joel Cornelli mobiliou apartamento alugado do refrigerador ao ar-condicionado. Gastou uma banana. Prudente, Cleber Xavier assinou apenas um contrato de hospedagem num flat. Sua mulher, Suzie Prunes, chegou a elogiar a compra do apartamento pelos Bachi. Ao que Xavier, o cauteloso, preveniu:
- Você não está entendendo, Suzie: a situação não está boa e domingo temos clássico contra o São Paulo.
Filho de Xavier, Pedro completava 10 anos no sábado, 15 de fevereiro de 2005. O prudente, porém, chamou o filho a um canto e se precaveu:
- Filho, está difícil, não faremos a festa no sábado. Vamos esperar o jogo de domingo. Depois, à noite, a gente comemora.
Não houve festa. O Corinthians perdeu, e Kia Joorabchian desempregou todos eles. Os Bachi ainda permaneceram no apartamento de São Paulo, porque Gabriele
já estava na escola. Pedro levou a pior. Estudando em colégio
conveniado com o Corinthians, o garoto faria uma excursão para a França com o time da escola. Perdeu a festa de aniversário, a viagem à Europa e os novos amigos. Na frente de Cleber, Pedro chorou de raiva:
- Esse Kia não tem família, pai?
Depois disso, Tite assumiu o Atlético-MG, em Belo Horizonte. Ficou apenas três meses no emprego e, prudentemente, não conduziu a família. Trabalhou mais quatro meses de 2006 no Palmeiras e, neste caso, já desfrutava de uma base montada com o apartamento comprado na época do Corinthians.
Dez meses se passaram até fechar o contrato com o clube Al-Ain, cidade a 120 quilômetros de Dubai, nos Emirados Árabes.
Nesse período, o técnico fez várias viagens ao Golfo. Negociava condições, inspecionava local de trabalho e conferia escola e moradia em condomínio fechado.
Dez meses, entre idas e vindas. Nada podia dar errado na empreitada do outro lado mundo. Em julho de 2007, Tite se
transferiu com a família.
Do aeroporto ao condomínio,
Gabriele desabou. Chorou muito, até a noite. Estranhou as mulheres de véu e temeu pela distância das amigas do colégio.
De repente, ressurgiram os dramas vividos no São Caetano e no Corinthians. Desceu sobre eles a dúvida se valia a pena sacrificar a família a esse ponto. Gabriele acabou vencida pelo cansaço.
Dias depois da chegada ao Oriente, em julho de 2007 o Al-Ain gastava seus dólares numa cara pré-temporada nos Alpes suíços e em Genebra. Em meio à excursão, com apenas duas semanas de emprego árabe, o Corinthians mandou chamá-lo.
Grande ironia da profissão: ficara 10 meses sem emprego e, agora que assumira novo clube, surgia um convite tentador. Mais: o desafeto Kia Joorabchian já havia deixado o país. Seria a chance de retomar o antigo trabalho no Corinthians e, por isso, Tite pediu liberação no seu clube.
Os xeques foram irredutíveis, e os brasileiros terminaram o ano nos Emirados.
Mulher e filho de Xavier,
o prudente, permaneceram morando no Brasil. Em janeiro de
2008, porém, Suzie e Pedro foram passar as férias dos sonhos na deslumbrante Dubai. Desembarcaram às 21h30min de uma quinta-feira. No saguão do aeroporto, Xavier os recepcionou com uma surpresa:
- Vieram me buscar?
Meia hora antes, Tite, Xavier, o prudente, e o restante da comissão técnica estavam desempregados.
( jones.silva@zerohora.com.br )
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